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Norway’s as a ‘green development actor’

Chapter 6: Discussion – Norwegian aid policy

6.5 Norway’s as a ‘green development actor’

“É tudo ligado. É um quebra-cabeça que, no momento que se encaixa, está tudo numa coisa só. É cooperativa, família, amigos, comunidade, tudo junto.” Terezinha

Já nos contatos iniciais com o grupo, notamos a presença constante da Vila e de seus temas no cotidiano da cooperativa. Essa questão, melhor abordada no capítulo seguinte, pode ser percebida ouvindo as conversas das cooperadas enquanto trabalham, ou ainda, acompanhando-as em seus trajetos diários para casa na hora do almoço. O trecho abaixo exemplifica isso, ao narrar o percurso que fiz com Nelsa e Isaurina, entre a sede e as respectivas casas, ainda no primeiro dia de convivência com o grupo:

Na hora do almoço, conto com a companhia de Nelsa e Isaurina para percorrer parte do caminho até o hotel. [...] Durante a primeira etapa da caminhada, de cerca de quatro ou cinco quadras, Nelsa me conta como elas vêm tentando obter financiamentos e parcerias para a compra do terreno e a construção da sede própria. Por coincidência, passamos bem em frente ao terreno almejado e elas o indicam para mim. Elas passam a falar entre si do aumento do preço proposto pelo proprietário e cogitam possíveis boatos no bairro sobre as parcerias em andamento, lamentando o fato e pensando em como proceder. O caminho da casa de Nelsa nos separa e Isaurina e eu prosseguimos mais umas quadras. Nessa outra etapa da caminhada, Isaurina aponta lugares significativos da Vila: a creche comunitária (ela me corrige quando pergunto se é pública), o posto de saúde, a casa de Edília e de outras cooperadas, o comércio local. Elogia algumas melhorias do bairro, também conquistadas por elas junto ao OP, e passa a defender um princípio estatutário da Univens: todos os cooperados devem morar no bairro. Fala de questões políticas, mas aponta justificativas práticas: “Como a pessoa vai conseguir vir para buscar e entregar material todo dia? E o custo do transporte? Participar das reuniões...” (Diário de campo, 11/11/2003. p. 18).

O princípio estatutário citado acima por Isaurina é uma das evidências da relação estreita que a cooperativa tem com o seu entorno. Logo abaixo segue a redação original do estatuto que fala disso, e que também explicita, através de outros princípios, o enraizamento e o compromisso das cooperadas com os destinos da Vila:

COOPERATIVA DE COSTUREIRAS UNIDAS VENCEREMOS LTDA.

ESTATUTO SOCIAL

CAP. I – Da denominação, sede, prazo, área de ação no social

Art. 1° – Sob a denominação de COOPERATIVA DE COSTUREIRAS UNIDAS VENCEREMOS LTDA., fundada em 23 de maio de 1996, constituída sob forma de Sociedade Civil de Responsabilidade Limitada, sem fins de lucro, que regerá pelas leis e regulamentos vigentes, tendo: [...]

b) Área de ação para efeitos de admissão de associados, ser morador da Vila Nossa Senhora Aparecida e/ou Recanto do Chimarrão, no Município de Porto Alegre, domiciliado ou residente;

[...]

CAP. II – Dos Objetivos Sociais

Art. 2° – A Cooperativa objetiva, com base na colaboração recíproca a que se obrigam seus associados: [...]

b) Oportunizar às associadas um melhoramento de vida no aspecto financeiro e também na relação de amizade, solidariedade e união;

[...]

e) Contribuir para a prática de um trabalho comunitário, onde o ideal do espírito cooperativo, de ajuda mútua através do conhecimento da nossa vida e de nossa Vila;

Além do princípio que limita o quadro social da cooperativa ao grupo de moradores da Vila Nossa Senhora Aparecida, a prática de “um trabalho comunitário” aparece como um dos objetivos sociais da UNIVENS (alínea ‘e’ do artigo 2o), outra demonstração do que queríamos indicar.

Como já dissemos, a história de constituição da UNIVENS será especialmente abordada no capítulo seguinte, e ali, a relação Vila – cooperativa surgirá explícita e justificada. Aqui, no entanto, vale dizer que o texto que se lê acima – o Estatuto Social – foi escrito a muito esforço, somente pelo grupo, sem que elas contassem com qualquer apoio ou assessoria institucional. Portanto, temos a certeza de que os princípios acima apontados emergiram da própria experiência dessas trabalhadoras.

Mais tarde, ainda na Semana de imersão, é Dorinha quem fala do mesmo princípio estatutário da cooperativa e dá outros elementos para compreender a relação do grupo com a Vila. É possível notar especialmente aqui, a intensidade do fluxo de movimentos e de encontros entre as cooperadas no espaço público do bairro, além da participação de muitas delas nas atividades locais:

Desço novamente para a cozinha e após algum tempo, ouço Dorinha comentar que iria até a casa de Nelsa buscar uns materiais de que precisavam. Ofereci-me de imediato para acompanhá-la. Pensei que ela, talvez a mais velha do grupo, teria dificuldades de trazer tudo sozinha [...]. Claro que também vi ali uma oportunidade de conhecer um pouco mais da Vila e me servir mais da companhia dela. Prontamente ela aceitou a ajuda e seguimos caminho. No trajeto Dorinha falou mais, com voz simpática e serena. Ia apontando a direção da casa de algumas das cooperadas, inclusive a dela. Conta que sempre faz o trajeto a pé, que gosta dessa caminhada diária. Chegamos até a casa de Nelsa, mas ela ainda não havia voltado da aula de catequese que ministra na igreja da Vila. Porém, como ela mesma havia dito, pontualmente às 11h30min, despontava na esquina. [...] Ainda pela manhã Julieta me comentara sobre a maneira como o grupo se organizava para participar de todos os fóruns de debate públicos de interesse delas: O Fórum Municipal de Economia Solidária, o Metropolitano, as reuniões do Orçamento Participativo, entre outros que não me recordo. Todo início de ano o grupo levanta comissões de três pessoas que acompanharão cada um desses espaços. A continuidade das discussões e a pluralidade são princípios deste critério. [...] Ainda na rua, chegando à incubadora, encontramos as três cooperadas da serigrafia que saíam para o almoço, que aliás, foram muito simpáticas conosco, brincaram que finalmente eu consegui trabalhar, ajudar em alguma coisa... Dorinha comenta que todas elas moram muito próximas uma das outras, e que essa é uma exigência da cooperativa [...]. (Diário de Campo, 12/11/2003. pp. 29-30).

Como mostra o trecho acima, algumas cooperadas participam (ou participaram) das plenárias e dos trabalhos das comissões do Orçamento Participativo. Dessa forma, os debates e as questões vividas ali são levadas para dentro da cooperativa, conforme pude observar. Enquanto trabalham, as cooperadas tratam do destino dos assuntos do bairro orientadas, seja pelo que concorre aos fóruns formais de discussão, seja pelos acontecimentos vividos na rua, “na venda”, no posto de saúde, na escola, na creche, na capela, enfim, nos vários espaços de suas vidas sociais que, vale dizer, são comuns a todas.

Terezinha também destaca a relação Vila-cooperativa, mostrando a interdependência e a permeabilidade destes espaços, e a partir disso, apresenta uma concepção muito peculiar e interessante de desenvolvimento local, conforme podemos notar a partir desta fala:

Tu conhece a família, marido, filhos [das outras cooperadas]. Essa questão de estar no estatuto nosso, que as pessoas pra trabalhar na cooperativa tem que ser da comunidade... Uma, pela liberdade que tu tem, por exemplo, de ir em casa fazer o almoço, levar o filho no colégio e voltar sem depender de ônibus. [...] Tu tem o horário de almoço pra fazer isso. E também que a nossa renda em si também vai beneficiar o bairro. [...] Porque se eu trabalhar lá do outro lado da cidade, claro que de repente eu vou comprar lá um pão, um leite, uma bolachinha, uma roupa, porque eu vou chegar em casa de noite e vou sair de manhã cedo. Quando chegar o fim de semana, eu vou lá no supermercado grande fazer o meu “rancho”, e aquele mercadinho que tem perto da minha casa, praticamente não vai ver meu dinheiro. E assim não, a gente está trazendo nossa renda pra dentro da Vila. [...] É um emaranhado, que é pro crescimento em si. Não é dizer que a UNIVENS está pensando só nela, só nos troços dela. Ela está pensando em toda a Vila, como um todo mesmo. (Terezinha)

Acho que a gente é o orgulho aqui da Vila, sabe? Até por aquelas benfeitorias que acabaram acontecendo. Porque dentro desse grupo todo, teve essas participações no Orçamento Participativo. A Vila inteira foi asfaltada, esgoto, iluminação, tudo junto com essa mobilização toda. O próprio prédio da Incubadora foi através da cooperativa. Quem lutou pra fazer isso daí foi o pessoal. Foi dentro das rodadas do Orçamento que se conseguiu. Elas disseram: “Tem que ter aqui na Vila uma incubadora popular.” E nós vamos sair dali e o prédio vai continuar. Quer dizer, é uma conquista que a gente conseguiu não pra nós, e sim pra comunidade. [...] Porque quando nasceu a Incubadora, a cooperativa já estava quase com quatro anos. E a incubadora, a prefeitura, no caso, usa a cooperativa pra começar os empreendimentos. Ela usa como espelho, a cooperativa. [pausa] E a gente tem um sentimento assim: quando nós sairmos dali, a gente vai lutar pra aquele espaço continuar sendo utilizado da maneira como ele sempre foi. Porque foi uma batalha árdua trazer aquilo ali. De repente sai a UNIVENS dali, e vêm pessoas, sei lá, como microempresa ou como cabide de emprego, que conseguiu sei-lá-como. “Ah, tem uma salinha lá. Então vou conseguir pra Fulano, que é meu amigo.” Não! A proposta da cooperativa é procurar grupos na Vila que tenham necessidade de ter um espaço, de ter aquele tempo pra conseguir um dinheiro, pra aprender a se autogestionar. E que a gente faça ser cumprido isso daí, sabe? E que não caia no esquecimento depois que nós sair. [...] Nós vamos cobrar isso daí! E vamos continuar cuidando daquilo ali. Foi uma luta pra

conseguir. E se a gente conseguir mais coisas pra cá... Porque até tinha um propósito de, naquela sala, onde tem as reuniões – tu pode olhar que tem várias tomadas em volta da sala inteira – era pra ter cursos de computação. Pela Incubadora, pros adolescentes, pro pessoal ali, seria uma atividade social pra ter, e que a gente estaria conseguindo. Só que nunca foi conseguido. Mas tem as aulas do MOVA36. Daqui a pouco, de repente, tem outra coisa lá também. E a gente vai lutar pra aquilo ali continuar sendo usado pela comunidade. (Terezinha)

A situação narrada abaixo, vivida com Nelsa, ilustra a preocupação com a Vila e com o destino da Incubadora, mencionada por Terezinha. Nelsa havia estado em uma reunião na Prefeitura justamente para tratar desse assunto. Interessante notar que as declarações foram feitas na mesma data, ou seja, tratava-se de um tema que vinha mobilizando o grupo naquele momento:

O almoço termina e Nelsa e eu continuamos conversando à mesa. Tiago lava a louça, Gabi tira a mesa... [...] Nelsa e eu comentamos sobre a pesquisa. Ela quis saber como foram as entrevistas. [...] Depois ela passa a falar de assuntos da cooperativa, especialmente dos problemas com a SMIC, acerca da Incubadora e do destino dela. Na véspera havia ocorrido uma reunião tensa com eles [prefeitura] no centro, em que ela se exaltara com uma das técnicas. Aliás, seu envolvimento é impressionante. Eu estava boquiaberta ali, não achava palavra para estabelecer diálogo [...]. Ela fala que está cansada de serem tratadas como “coitadas”, e que não precisam receber “cursos de cooperação” (É realmente um absurdo. Elas é que devem dar aulas a esse respeito). Nelsa reivindica mudanças de postura dos dois lados. Depois ela comenta de um projeto, pelo qual trabalharão para dar palestras [sobre a experiência da UNIVENS] para grupos de mais de nove regiões! [...] “É uma das formas de ampliar isso tão bom que a gente vive, para que não fique restrito a vinte e poucas pessoas e suas famílias” (Diário de Campo,27/03/2004. p. 68).

Um exemplo vivo da relação Vila-cooperativa: em março de 2004, quando estive com o grupo, cinco cooperadas haviam ido juntas ao médico do posto de saúde local

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A Secretaria de Educação do RS informa que “Para diminuir o analfabetismo e promover a inclusão social das pessoas, o Governo do Estado criou, em maio de 1999, o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos, como uma política pública de educação. [...] O primeiro MOVA foi criado em São Paulo, em 1989, quando Paulo Freire era Secretário Municipal de Educação. Baseado nessa experiência, muitos outros foram criados no país.” Para saber mais, consultar:

para consultas de rotina. Como era preciso acordar muito cedo, para não prejudicar o horário de trabalho e também para conseguir o atendimento no mesmo dia, elas mais uma vez cooperaram. Todas conheciam e acompanhavam as queixas clínicas umas das outras, davam opiniões e estavam ali, como “acompanhantes” de suas colegas e vizinhas.

Para compreender melhor essa cena, vale a pena resgatar algumas passagens vividas com elas. O mesmo posto de saúde, tão presente na história de formação da cooperativa, é alvo de permanentes críticas e “intervenções” comunitárias. Ele também é fruto da luta de um grupo de moradores, formado por várias cooperadas da UNIVENS, responsável pelo levantamento das verbas para a abertura do posto, através de ações junto ao OP – como elas chamam o Orçamento Participativo.

Comentários acerca da qualidade dos atendimentos e serviços são freqüentes, conforme pude notar. Certa ocasião, uma cooperada me falava do descontentamento de moradores com o “Dr. Fulano”, um dos médicos que atendem no posto. Segundo ela, “é só a gente se mobilizar pra tirá-lo de lá, como já aconteceu antes”. Ou seja, além da relação estreita entre Vila e cooperativa, alguns fatos sugerem que as cooperadas também sentem que têm poder de intervenção em alguns espaços do bairro, em parte, por ter com eles uma relação de sujeito, de co-autoria da sua história.

Em um churrasco que estive presente com Nelsa e a família dela (junho de 2004), na casa de vizinhos que não fazem parte da cooperativa, os problemas da Vila eram tema prioritário. A anfitriã contava a situação de uma vizinha conhecida que “estava indignada com a situação do posto” e que iniciava naqueles dias um movimento por uma intervenção no local. Mais tarde, Nelsa comentava o ocorrido com as companheiras da UNIVENS, outro exemplo da permeabilidade desses espaços.

Como ocorre com o posto de saúde, a creche, a pavimentação das ruas, o desemprego que assola muitos moradores, ou ainda, a situação dos adolescentes da Vila, também são temas das mesas de trabalho da UNIVENS.

É interessante notar que os interlocutores, os temas e os espaços assumem combinações das mais variadas: fala-se da Vila no trabalho, do posto de saúde no churrasco, ou da cooperativa no encontro de vizinhas nas ruas do bairro. Os indícios

apontam, portanto, para a ausência de fronteiras claras entre política e trabalho, entre Vila e cooperativa, e entre tempo de trabalho e tempo livre para essas mulheres.

A presença freqüente de vizinhos e parentes das cooperadas no dia-a-dia do grupo também chamou a atenção. O espaço da cooperativa não parece restrito e inacessível aos familiares dos trabalhadores, como o de uma empresa privada tradicional:

Um fenômeno curioso: a visita de familiares das cooperadas. Nesses dois dias vários filhos e familiares passaram pela cooperativa. Alguns ficaram, outros, fizeram rápida visita. A filha de Nelsa, por exemplo, ficou mais tempo, utilizando o computador para um trabalho da escola, aparentemente. Isso pode indicar uma aproximação interessante entre trabalho e família, por exemplo (Diário de Campo, 12/11/2003. p. 32).

Já em São Paulo, analisando os acontecimentos da Semana de imersão, observamos que em diversos momentos as próprias cooperadas “me conduziam para fora” dos limites da cooperativa. Ou seja, elas chamavam minha atenção – ou diretamente me levavam – para esses outros importantes lugares de seus cotidianos que, para elas, segundo Terezinha, “é tudo uma coisa só”. Dessa forma, as cooperadas da UNIVENS pareciam indicar o rastro a seguir na busca das respostas para às perguntas da pesquisa.