Chapter 6: Discussion – Norwegian aid policy
6.6 Criticism
A Cooperativa Unidas Venceremos reside onde nasceu, na Vila Nossa Senhora Aparecida, no Bairro Sarandi, extremo norte do município de Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul.
Como veremos, a história dessa cooperativa está enredada à história dessa Vila. Os espaços de uma são também os espaços de outra. Ao lutar por eles, os lugares de moradora e cooperada surgem sobrepostos, mesclados. Na realidade, separá-los não parece ser uma preocupação dessas pessoas, mas de quem “olha da janela”, admirado com essa teia grossa e firme, na qual correm emaranhados os fios das histórias dessas moradoras, da Vila e da cooperativa.
Conforme já dissemos, as cooperadas da UNIVENS freqüentemente me “puxavam para fora” do espaço da cooperativa e da esfera do trabalho propriamente. Mais que apontar as repercussões da vivência da autogestão no trabalho, elas pareciam interessadas em conduzir o meu olhar para os espaços onde suas histórias e suas vidas acontecem: as ruas da Vila, as reuniões do OP, a Capela...
Resgatamos aqui dois trechos do livro de Sylvia Leser de Mello (1988), Trabalho e Sobrevivência. Ao acompanhar as experiências e as reflexões sobre vida e trabalho de um grupo de mulheres da Vila Helena, em São Paulo, ela apresenta o bairro onde essas pessoas moram com impressionante acuidade e beleza. Quando tomamos contato com esse livro, para nossa surpresa, e apesar das diferenças existentes entre “as Vilas”, encontramos vários aspectos semelhantes em seu relato, além de rica inspiração no seu modo cuidadoso de olhar para seguir este trabalho:
Creio que fui, literalmente, tomada pela mão e levada a conhecer uma outra dimensão das mulheres, um outro personagem que se impôs à minha atenção: o bairro. Os moradores e o bairro formam um todo. Eles o construíram, deram-lhe forma, habitaram-no com a sua humanidade (Mello, 1988. pp. 21-22).
A Vila, porém, tem uma história que pode ser contada por cada um dos moradores, forjada, como o foi, pelo esforço de todos. Essa é uma história de relações humanas densas, envolventes e constantes [...]. História e histórias, personagens, contos que passam de ouvido em
ouvido, de casa em casa, e que formam um repertório de imagens comuns, que todos conhecem (Mello, 1988. pp. 103-105).
Abaixo, seguem transcritas minhas primeiras impressões do pouco que pude ver da Vila Nossa Senhora Aparecida na primeira visita à cooperativa:
Saímos do centro de Porto Alegre rumo à UNIVENS [...]. O caminho até lá é longo (algo como quinze ou vinte quilômetros), difícil e truncado. [...] De carro não vivemos dificuldades. Em cerca de meia hora já estávamos no bairro delas, no extremo norte da cidade, divisa com o município de Cachoeirinha. Do bairro e de suas ruas, o que pude notar nesse primeiro contato, é que se trata de uma região bastante urbanizada, em cujos terrenos intercalam-se indústrias e residências, além de um pequeno comércio local. Bairro de ocupação recente (em torno de vinte anos), conta com boa infraestrutura urbana: ruas pavimentadas, iluminação pública... [...] A grande maioria das casas é de alvenaria, e em geral, são pequenas e de desenhos simples. Há poucas árvores pelas ruas, e quando encontramos algumas, são jovens, e por isso, pouco vistosas. Já nas casas, ao menos naquelas próximas às ruas principais da Vila, é possível avistar pequenos jardins e canteiros bem cuidados, muitos deles com flores (Diário de Campo, p. 04. 17/10/2003).
Mais tarde encontraremos as justificativas históricas para essas impressões, principalmente no que se refere às boas condições de infraestrutura urbana que dispõe a Vila.
Bairro de ocupação recente e conflituosa
De fato trata-se de um bairro novo, de ocupação recente. O trecho abaixo fala a esse respeito e foi escrito pelas próprias cooperadas37:
Nosso projeto se situa na cidade de Porto Alegre, na Vila Nossa Senhora Aparecida, onde moram mais de duas mil famílias. A Vila foi ocupada em 1978, em uma área particular. A prefeitura comprou a área e tudo foi muito sofrido (Univens, 2003. p. 01).
37
Trata-se do projeto Conquistando nosso espaço, de abril de 2003, material enviado a várias instituições de fomento, nacionais e internacionais, para pleitear recursos para a construção da sede própria da cooperativa, questão logo adiante abordada. Ao longo deste capítulo, este texto, entre outros materiais similares, servirá como uma importante fonte de informações.
Neste mesmo texto as cooperadas apresentam mais dados a respeito da Vila:
A grande maioria dos moradores vem do interior do estado e de Santa Catarina e é de mão-de-obra não-qualificada. A Vila tem duas grandes extensões que são áreas de risco: embaixo da rede de alta tensão da CEEE38 e na beira do arroio Santo Agostinho [...]. (Univens, 2003. p. 01).
No primeiro trecho citado, as cooperadas citam “a ocupação da Vila”, ocorrida em 1978. A área em questão era na época uma antiga fazenda de cultivo de arroz. Julieta, cooperada da UNIVENS, participara ainda pequena da ocupação e nos fala desses momentos:
Foi uma invasão [...]. Até hoje sempre se fala que foi a invasão mais organizada que teve de terra. Porque as pessoas dividiram os terrenos bonitinho. Tudo gente de família, foi bem legal. [...] Nós lotávamos os ônibus e íamos pro centro, reivindicar que o DEMHAB39 comprasse; a gente não queria tomar conta do que não era nosso. Eu era criança e ia junto. Nós íamos no centro, lá na prefeitura, protestar. Até que veio uma ordem e o DEMHAB comprou. Cada morador começou a pagar o seu terreno. Veio o carnê, e hoje em dia, acho que a maioria paga ou já pagou. O nosso já foi quitado (Julieta)
Apesar da organização assinalada por Julieta, o processo de ocupação e de constituição da Vila foi marcado por fortes disputas de poder entre dois grupos locais, cada um organizado em uma Associação de Moradores, principalmente nos seus primeiros anos. Um fato curioso ilustra esse conflito: não havia consenso inclusive, em torno do nome da incipiente Vila. Para um dos grupos, o nome deveria ser “Vila Caiu do Céu”; para o outro, o nome que posteriormente permanecera era o mais adequado: “Vila Nossa Senhora Aparecida”.
Uma notícia de jornal da época trata destes conflitos40, salientando o alto número de ocorrências policiais – devido à existência de grupos armados na região – ameaças de morte e constantes brigas e agressões físicas.
Posteriormente, um destes grupos consolida-se no poder, e por muitos anos, detém a presidência da única Associação de Moradores da Vila, influenciando
38
CEEE – Companhia Estadual de Energia Elétrica (RS).
39
Departamento Municipal de Habitação da Prefeitura de Porto Alegre.
40
fortemente os destinos da organização política do lugar. É Nelsa quem nos fala desta fase da história da Vila e das marcas que ela deixou nos moradores:
A Vila aqui, desde quando ela foi ocupada, ela tem uma história muito comprometedora. Parece que as pessoas têm um sentimento, até hoje, de que devem alguma coisa pra alguém, sabe? Na época em que ela foi ocupada, teve um domínio muito grande de uma família. Ela determinava quem devia ficar e quem não devia ficar. Essa família criou um grupo de pessoas que inclusive retiravam da Vila as pessoas que elas não queriam que ficassem. [...] Desmanchavam a casa e tinham que ir embora. Daí algumas pessoas ficaram devendo, porque começou a estabelecer relações, do tipo: conseguiu ajudar pra que pudesse comprar coisas no mercadinho; depois foi conseguindo cano pra botar no esgoto [...]. E as pessoas não enfrentavam, sabe? [...] A gente tem documentos de dinheiro que veio pra cá, pro asfalto, e que sumiu. Pra saibramento41 que nunca teve antes da Administração Popular42. De saneamento básico que não teve quem fez. Todo o saneamento básico quem fez foi a Administração Popular. O que teve foram doações de canos pro povo fazer o esgoto, e ela [a família] dava pra quem ela queria. Então a gente tem uma história muito marcada (Nelsa).
Em 1988, quando Nelsa e sua família mudaram-se para a Vila, a situação era a seguinte, conforme ela conta em seu livro, a ser publicado em breve:
As ruas ainda eram todas sem pavimento e os esgotos a céu aberto, ou então canalizados pelos próprios moradores. Já havia luz e água canalizada. Um lugar calmo e bom; porém uma Vila com uma história de dominação e clientelismo, porque até então, o poder público repassava os recursos diretamente para a Associação. Havia também programas do Governo Federal, como os tíquetes de leite [...]. (Nespolo, 2003. p. 03).
41
Saibramento é nome dado ao procedimento de colocar saibro nas vias não asfaltadas.
42
Nelsa refere-se às gestões do Partido dos Trabalhadores na Prefeitura de Porto Alegre. Desde 1988 o partido administra a cidade. Este trabalho é denominado pelos gestores e por parte da população como Administração Popular.