Chapter 8: Conclusion
8.3 Civil society
Após as primeiras experiências de trabalho da cooperativa, novos contratos aconteceram e um impasse foi aos poucos se configurando e ganhando forças. À medida que o trabalho e a esperança no futuro da cooperativa cresciam, mais urgência elas sentiam em conseguir outro local para sediá-la. O grupo vibrava com cada nova encomenda feita, mas logo em seguida se ressentia da falta de espaço: espaço para dispor as matérias-primas, as peças produzidas, além das máquinas conseguidas pelos apoios recebidos. A situação do telefone também era urgente. Durante todo esse tempo, a cooperativa tinha como contato a linha da residência de uma das cooperadas. Por outro lado, a UNIVENS ainda não tinha alcançado a solidez necessária para dar conta sozinha de custos fixos como aluguel e contas de telefone de um espaço comercial.
Durante os três anos em que as cooperadas da UNIVENS trabalharam na capela, várias integrantes do grupo continuaram participando ativamente das atividades do Orçamento Participativo na Vila. E foi novamente aí, nos fóruns do OP, local de nascimento do grupo e da cooperativa, que elas encontraram solução para o impasse da sede do grupo. Orientadas por essa necessidade, em um processo dialético,
novamente o grupo de mulheres voltou-se para o espaço político que tinham como referência, e ali desenvolveram a idéia e lutaram pela construção da primeira Incubadora Popular de Cooperativas e Grupos da cidade, conseguida em 1998.
Pode-se afirmar, portanto, que estas mulheres vislumbravam, no espaço político do Orçamento Participativo, não apenas um campo propício para lutar por melhorias nas condições infraestruturais de seu bairro, mas serviram-se dele para propor uma política pública de geração de trabalho e renda e para promover ações de desenvolvimento local da Vila que ajudaram a construir, trabalhando desta forma, por melhorias das condições de vida de modo ampliado no bairro.
É Isaurina quem nos fala deste processo:
Aquele espaço ali [a Incubadora], ele foi uma busca em cima do Orçamento Participativo. Tu participando, tu descobriu como tinha a incubadora empresarial ali no Centro e a da Restinga, e não tinha uma pra grupos. E a gente achou, dentro da discussão, que poderia ter um espaço pra grupos trabalharem assim. Aí a gente foi e colocou nas reuniões, e ela entrou no Orçamento. [...] Foi onde outras entidades de outros locais abriram mão de certas coisas. Por exemplo, o pedido de uma creche. Mas o valor que dava pra fazer aquela creche, o dinheiro não comportaria pra fazer. Ou pra fazer um galpão de reciclagem, mas aí teria que deixar aquele dinheiro parado até o outro ano. Então o pessoal achou que era um projeto importante e abriu mão daqueles valores. Aí, quando entrou no Orçamento, a SMIC entrou, a prefeitura. Então pensamos: “temos que garrar e procurar o espaço”. Procurar o local. [...] Nós que buscamos o local. Então a gente fazia pesquisa. Chegava de tardezinha e saía. Via que aquele prédio estava pra vender, aquele terreno estava pra vender. Aí a gente localizou aquele galpão ali. Então chegava no final de semana, o pessoal lá da SMIC vinha e a gente mostrava: tem esse aqui, tem aquele ali... Então eles iam buscar negociação pra comprar. Desde o primeiro dia a gente apresentou aquele ali, e eles foram buscar com o pessoal. Na realidade o que foi melhor foi aquele ali, buscando em tudo. Tinha que fazer umas reformas, então eles fizeram as reformas. Na época eles pagaram oitenta mil [reais] pelo prédio, com o terreno. E gastaram mais oitenta mil pra fazer as reformas dentro dele, porque ele era um galpão pra depósito de bebida. [...] Eles adaptaram tudo. A gente sempre diz que aquilo ali é um pedaço nosso, porque foi como uma casa da gente. Quer dizer, desde que eles começaram a fazer a negociação, a gente começou a
participar junto, até a compra. Depois, durante a reforma, a gente ia todos os dias lá, e nós dizíamos que tinha que ser “assim”. Aquilo que nós achávamos que não deveria mexer, aquilo que a gente não concordava, a gente dizia. “Olha, eu acho que lá está errado, tem que ser assim, tem que ter aquilo...” [...] A gente lutou pra ter o espaço e acompanhou, passo a passo, toda a reforma. Até a licitação que teve, algo pequeno, não muito burocrático na prefeitura, pra gente entrar lá. Ela ia sair no mês de agosto [de 1999] e nós conseguimos entrar no mês de fevereiro [do mesmo ano]. Quando estava pronto, eles vieram e nos liberaram. E a gente fez um coquetel lá, de inauguração da Incubadora e tudo. (Isaurina) [grifos nossos]
Ao ouvir Isaurina, notamos o quanto o grupo de cooperadas lutou e zelou por essa Incubadora, desde os seus primórdios. Não se trata de exagero, portanto, afirmar que, paradoxalmente, foi a cooperativa que “incubou” a sua Incubadora.
Porém, vale dizer que a proposta inicial para esse projeto nunca chegou a ser implementada, uma vez que ele contemplava não apenas a cessão do uso do espaço e das instalações materiais (luz, água, telefone, computador com acesso a Internet, entre outros recursos), como também a realização de atividades de formação e assessoria aos grupos incubados por parte de uma equipe da SMIC, o que nunca chegou a acontecer de maneira plena e satisfatória, como fala Nelsa no trecho abaixo:
A incubadora para nós transformou-se num porto seguro, onde poderíamos ficar por até quatro anos. Mas não conseguimos lá aprofundar a capacitação, nem em formação pessoal, nem profissional. (Nespolo, 2003. p. 13)
Elas nunca conseguiram completar o projeto da Incubadora como gostariam, apesar do amplo canal de comunicação e da forte influência que o grupo tinha sobre o poder público na época, como demonstra Isaurina abaixo:
Nós trabalhávamos no início só naquela parte que hoje trabalha a costura. O corte e a costura eram ali. [...] Aí começou a aumentar os pedidos e aquele outro espaço estava vazio. Nós tínhamos uma boa relação com o gerente [funcionário da prefeitura responsável pelo espaço] que trabalhava ali, e começamos a conversar com ele e com o Secretário. [...] Então chegou num ponto, que a gente pediu pra eles
abrirem, pra aumentar aquele espaço pra nós. [...] Porque dentro dessas plenárias que teve do Orçamento Participativo, até o próprio Secretário da SMIC, teve um ano que a gente teve poderes para fazer a discussão e colocar o secretário lá. Nós chamamos os representantes [de outros grupos] e colocamos isso numa reunião lá no Centro. Juntaram os Conselheiros lá, a gente fez um grupo, e colocamos que o Secretário da SMIC deveria ser Fulano. A gente indicou e a gente conseguiu. (Isaurina)
Nestas passagens do livro de Nelsa, ela analisa, com impressionante senso crítico, as ações do poder público local e retoma o surgimento da Incubadora junto ao Orçamento Participativo, inserindo-o no cenário macroeconômico e político atual. Em seguida, alça vôos mais altos, ao sonhar com o alcance em longo prazo de várias Incubadoras como a da Vila:
O poder público tem que atender as necessidades de seus cidadãos. Qual é a maior necessidade hoje? O desemprego é gritante, mas as saídas nunca foram atribuições da administração municipal. Então começamos a participar deste debate, demandando a necessidade de cursos e capacitação e empréstimo de equipamentos de trabalho. Participamos na região e na Temática do Desenvolvimento Econômico também. Foi onde encaminhamos a necessidade de um espaço que se definiu como a primeira Incubadora Popular. [...] Um dos caminhos que acredito ser uma nova forma de pensar nossa vida, nossa mão-de-obra, pois conforme conquistamos as demandas de infraestrutura (saneamento e pavimentação) o desafio cada vez mais será no social, e o social vai cada vez mais estar ligado a vida difícil das pessoas frente à falta de trabalho. O Orçamento Participativo fará esse debate de forma cada vez mais aprofundada. Quem sabe além de máquinas e cursos, conquistemos políticas de incentivo a esses grupos alternativos de geração de renda perante tantos impostos. Quem sabe fazemos uma inversão de propriedades, pois os incentivos e a isenção fiscal ficam para as grandes empresas e geralmente multinacionais. Quem sabe consigamos mudanças para que as licitações facilitem a participação das cooperativas alternativas. (Nespolo, 2003. p. 11-12)
A primeira incubadora popular, conquistada por nós no Orçamento Participativo, é um prédio que abriga grupos de produção formais ou não, que ficarão neste lugar por um tempo, e depois deixarão o lugar para outros. A nossa grande expectativa e responsabilidade é que realmente este projeto se afirme, porque se espalhando em toda a cidade, será um
incentivo para esta forma alternativa que gerará futuras cooperativas. E dessa forma será um grande desafio de organização pois organizará a vida e a economia, e apontará para essa alternativa de viver uma sociedade nova com novos valores. E no futuro não longínquo construiremos a grande rede de produção e consumo cooperativado... (Nespolo, 2003. p. 13)