Chapter 5: ‘Development’ as an Academic and Political term
5.3 Economic growth as development
O trabalho de campo, propriamente, ocorreu entre os meses de outubro de 2003 a julho de 2004. A primeira etapa foi a visita inicial, de um dia, em outubro, com os objetivos de estabelecer o contato inicial entre nós, verificar a presença dos critérios antes estabelecidos, e claro, apresentar a proposta da investigação para a posterior avaliação do grupo.
Depois dessa primeira visita, ocorreu o que chamamos Semana de imersão. Em novembro de 2003, após a aprovação do início dos trabalhos da pesquisa pelo grupo
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Esse valor refere-se à retirada mensal de poucas cooperadas da costura que trabalham em casa e que não se dedicam integralmente às atividades da cooperativa.
de cooperados em “assembléia”22, passamos uma semana dedicando-nos exclusivamente ao convívio com as trabalhadoras e ao acompanhamento de suas atividades.
As intenções em relação a esta semana eram ambiciosas. Em primeiro lugar, gostaria que pudéssemos de fato conhecer-nos. Queria apresentar-me àquelas pessoas que eu já admirava, mas que nada sabiam de mim, a não ser que era “a psicóloga de São Paulo”. Desejava contar um pouco da minha história, dos motivos que me levaram a querer estudar o cooperativismo, de por que fui parar ali, enfim, gostaria de “trocar histórias” com elas.
De nada valeriam todos os esforços, os traslados, as formalidades teóricas e burocráticas se não pudesse ter com essas pessoas um vínculo de confiança sincero, afinal, trataria de questões muito caras a elas, seus trabalhos, suas famílias, sua Vila. E, sabemos, ninguém confidencia intimidades a quem não conhece e confia. Desejava também, se possível, que elas pudessem ter suas próprias aspirações em relação à pesquisa, que elas pudessem servir-se dela de alguma maneira. Assim, ao final desse período, todas nós poderíamos ratificar (ou não) a escolha pela realização da pesquisa. Além de tudo isso, este período foi fundamental para que eu pudesse conhecer a trajetória dessas pessoas e da própria cooperativa, material riquíssimo que iria orientar os próximos passos da investigação.
Alojada a poucos minutos de caminhada da sede da cooperativa, estive com elas em diversas atividades cotidianas ao longo desta semana: acompanhando os trabalhos, sentada ao “pé da máquina” – ora ajudando a dobrar algumas peças, ora apenas conversando; os almoços e cafezinhos na cozinha; as idas para casa na hora do almoço; o ir e vir de casa para a cooperativa e da cooperativa para casa na hora de entregar e recolher os trabalhos; o chimarrão no fim de tarde em casa; a visita a uma feira de alimentação; o passeio no centro da cidade; a ida a uma das tantas reuniões
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Como ocorre em diversas cooperativas, as reuniões periódicas do grupo são chamadas pelas cooperadas de “assembléias”. Porém, vale ressaltar que não se trata daquelas reuniões anuais – as Assembléias Gerais Ordinárias ou Extraordinárias – previstas por lei e de cunho estatutário. Entretanto, do ponto de vista micropolítico, costumam representar o fórum mais importante de discussão e deliberação. No caso da UNIVENS, essas reuniões são mensais e se dão sempre próximas aos dias 23, data do aniversário da cooperativa (23/05/1996).
das quais o grupo participa; o momento de lazer no CTG23, entre muitos outros. Como escrevi ao final deste período, “volto maior do que cheguei” (Diário de Campo, 14/11/2003. p. 61).
Ao longo dessa semana, bem como de todo o processo investigativo, utilizei como referencial metodológico a abordagem etnográfica, cara à antropologia (Geertz, 1978; Sato & Souza, 2001). Em nenhum momento fiz uso de anotações ou gravei qualquer conversa nessa etapa da pesquisa. Ao final de cada dia, já no hotel, valia-me da memória para relatar no Diário de Campo os acontecimentos observados e vividos naquela jornada (observação etnográfica).
Posteriormente, estive com elas em Porto Alegre em outras duas ocasiões, em março e junho de 2004. Nesses períodos, apesar de permanecer quatro ou cinco dias por temporada em constante contato com o grupo, o enfoque era outro. O objetivo principal não era realizar a experiência das observações, mas colher as entrevistas. Porém, também utilizei o Diário de Campo, já que era inevitável permanecer atenta aos acontecimentos à minha volta.
As entrevistas, semi-estruturadas e prolongadas, seguiram um roteiro geral, elaborado a partir dos objetivos principais da pesquisa e das observações feitas até o momento. Entretanto, foram preparados roteiros individuais, pensando em cada pessoa entrevistada. Pautei-me para isso em minha experiência pessoal com cada uma dessas pessoas e em todas as ocorrências a seu respeito presentes no Diário de Campo, de modo a que cada questão tivesse ou buscasse relação com alguma vivência compartilhada entre pesquisadora e depoente.
Essa opção metodológica se justifica na medida em que o principal enfoque desta pesquisa incide sobre as cooperadas e não sobre a cooperativa em si. Interessa-nos saber como determinadas trabalhadoras da UNIVENS vivem singularmente aquela experiência de autogestão, e que repercussões peculiares desta condição experimentam em outros espaços de sua vidas sociais.
Ao total foram cinco entrevistas, totalizando aproximadamente onze horas de gravação. A escolha das entrevistadas seguiu alguns critérios, quase todos orientados
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Os Centros de Tradição Gaúcha são associações civis, de cunho tradicionalista, que mantêm viva a cultura popular do estado. Nos CTGs acontecem declamações de versos gauchescos e bailes, como o fandango, a tirana e o balaio.
por um princípio de representatividade, ainda que não-estatística, de várias características da cooperativa. Queríamos garantir que neste grupo estivessem presentes: representantes de todos os setores produtivos da UNIVENS (corte, costura e serigrafia)24; sócias-fundadoras e membros mais recentes; cooperadas que trabalham na sede e pelo menos uma pessoa que trabalha em casa pela cooperativa (caso de pelo menos um terço do quadro social da UNIVENS); membros atuais ou passados do Conselho Administrativo e também cooperadas que nunca ocuparam estes cargos; e finalmente, o que parece óbvio, pessoas com as quais pude ter maior contato e que manifestassem em algum momento o desejo de conceder a entrevista.
Além das etapas formais da pesquisa, ocorreram incontáveis comunicações entre nós, desde o início do processo até os dias atuais. Devido à distância entre as cidades (São Paulo e Porto Alegre), que impossibilitava visitas mais freqüentes, recorremos ao telefone e à Internet. Além disso, em algumas ocasiões, pude encontrar-me aqui em São Paulo com Nelsa, cooperada da UNIVENS que em geral representa o grupo (ou um dos fóruns de Economia Solidária dos quais a cooperativa participa) em eventos fora do Rio Grande do Sul.
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Em meados de 2004, pouco antes da realização das últimas entrevistas, fomos surpreendidos pelo desmembramento do setor e das trabalhadoras da culinária do restante da cooperativa. Infelizmente não foi possível acompanhar esse processo de perto, porém, várias cooperadas disseram que se tratou de uma decisão muito discutida e finalmente acordada entre todos os envolvidos. Com a saída de uma das trabalhadoras do setor e próximas do momento de deixar as instalações e os demais benefícios conferidos pela Incubadora, a dupla restante decidiu chamar outras pessoas para integrar um grupo maior e formar um novo empreendimento que, desvinculado da UNIVENS, poderia permanecer por mais quatro anos ali. Em função disso, decidimos não entrevistar uma representante do setor da cozinha, já que a partir daquele momento, elas seguiriam independentes da cooperativa que continuaríamos estudando. No entanto, várias das experiências vividas com essas cooperadas até então foram mantidas neste texto, já que nos auxiliaram muito na tarefa de conhecer a história e o cotidiano do grupo como um todo.