3. Økonomisk vekst
3.1. Utviklingen i inntekt per innbygger
Francisca tem trinta e sete anos e reside em um pequeno município do interior de São Paulo. Há alguns anos, se deparou com uma paralisia facial temporária. Como os sintomas se atenuaram após um tempo, despreocupou-se com a possibilidade de ser algo mias grave e continuou com sua vida, como se nada houvesse acontecido. Infelizmente, decorridos seis meses, defrontou-se com os sintomas novamente. A apreensão
97 aumentou, precisou buscar ajuda médica e até que apresentassem os resultados dos exames de ressonância magnética a que se submeteu, confrontou um amontoado de achismos e de possibilidades nada promissoras. Com os resultados em mãos, recebeu notícias nada acalentadoras: o diagnóstico de esclerose múltipla. A vida em sua complexidade, lhe posicionou frente a uma encruzilhada: brindou-a com a notícia de uma gravidez, mas, ao mesmo tempo, a impediu de cuidar de si, tendo em vista que as terapêuticas possíveis envolviam a utilização de fármacos cujos efeitos tóxicos poderiam prejudicar a criança gestada em seu útero. Até mesmo após o nascimento de sua filha, privou-se do tratamento, porquanto a primazia da situação centrava-se única e exclusivamente na amamentação da criança. Somente um ano e três meses depois, tempo que levou para o desmame, conseguiu, enfim, iniciar o tratamento da esclerose.
Para Francisca, os anos não foram fáceis, já passou por períodos conturbados em que vivenciou muitos surtos que envolviam sintomas de alterações na visão, e de perda de força e de mobilidade dos seus membros inferiores, promovendo dificuldades de locomoção e, consequentemente, dificuldades na realização dos afazeres cotidianos.
Francisca não precisava as datas com exatidão; apresentava apenas suposições e tempos que muitas vezes conflitavam entre si. As datas mais coerentes estavam relacionadas aos cálculos que fazia utilizando como referência sua gravidez e o período de amamentação. Sua filha, na ocasião em que conversamos, possuía nove anos de idade e, por essa lógica, supomos que ela estivesse se tratando há sete anos e nove meses. Não soube precisar quando, mas já havia algum tempo que vinha sendo acompanhada pela equipe de neurologia do Hospital das Clínicas (HC). Nessa época, quando ia para as consultas em Ribeirão Preto, participava, na cidade, de uma associação de pessoas com esclerose múltipla. Em um desses encontros, entrou em contato pela primeira vez com os transplantes de medula óssea. Em tais reuniões, teve a oportunidade de acompanhar o testemunho de uma pessoa que havia se submetido ao transplante e, por conta própria, decidiu buscar informações a respeito e conhecer como esse procedimento era realizado. Como os tratamentos convencionais, no decorrer dos anos, vinham demonstrando ser ineficazes no controle e na estabilização da doença de Francisca, a equipe de neurologia do HC cogitou a ideia do transplante de medula óssea. Francisca interessou-se imediatamente pela possibilidade de participar do transplante, visto que o tratamento convencional que realizava era constituído de muitas drogas que apresentavam pouca eficácia. E tudo pareceu correr dentro dos conformes,
98 porque, quando conversamos, já estava internada para fazer o transplante. Francisca já havia se decidido e estava segura quanto à sua participação.
Ao entrar nos aposentos em que estava instalada, deparo-me com uma moça jovem acompanhada de sua mãe. Ambas sentadas em poltronas acolchoadas sorriam como se conversassem sobre assuntos cotidianos. A cena aparentava uma serenidade e calmaria típica de um pós-almoço farto. Se não fosse o fato de ser um quarto de hospital e estar prestes a conversar com uma pessoa que sofria de esclerose múltipla, não perceberia que estava diante de alguém acometido por uma doença a ponto de precisar se submeter a um arriscado transplante.
A conversa decorreu de forma breve, durou pouco mais de quinze minutos e, continuando com a tranquilidade inicial, contou-me um pouco da sua trajetória e das esperanças que depositava nessa nova possibilidade que lhe havia surgido. Mas o que esperava do transplante? Não sabia dizer sobre o que a aguardava, apenas desejava estar bem, melhor do que na ocasião. Contudo apostava suas fichas em um procedimento que lhe trazia novas esperanças como, por exemplo, ter a chance de estabilizar sua doença que continuava em marcha até aquele momento, de cessar o uso dessas incessantes e infindáveis medicações, além, é claro, de poder recobrar sua autonomia arrancada à força.
Então [explica-me Francisca] eles [a equipe médica] viram que a medicação não estava fazendo efeito, aí, por isso, me indicaram para o transplante. [...] Então, é isso, estou esperando, assim, que vou melhorar, né, que vai ficar melhor para mim. Até em casa mesmo, fazer as coisas de casa, tudo que não consigo vai melhorar. [...] [Então decidi participar] porque eu achei que era melhor pra mim, né, pra, tipo assim, que eu não ia ter que ficar tomando essas injeções todo dia e, não sei, eu achei que era melhor pra mim. Eu achei que seria melhor o transplante do que as injeções.
A mãe de Francisca reafirma a fala da filha, ao trazer também suas expectativas que depositaram conjuntamente no transplante que em breve seria realizado:
Ela toma muitos remédios, mas muitos remédios. E assim, depois do transplante, a esperança dela se libertar um pouco de tanto remédio que ela toma. [...] Espero que ela se liberte do tanto de remédio que ela toma. Tenho esperança. Eu acho que os remédios fazem muito bem, mas ao mesmo tempo né, é muito remédio.
99 Argumentos tão seguros e cheios de vontade que se tornavam incontestáveis. Como questionar tamanhas expectativas? Como equiparar essas meras chances, ainda que fossem abstratas possibilidades, com a realidade de tratamentos convencionais, relativamente seguros, com evidências estatísticas, mas que se apresentaram ineficientes a seus anseios? Não havia espaço para dúvidas, o transplante valia a pena.
Mas não sentia medo? Não sentia um frio na barriga? Afinal, se tratava de um ensaio clínico, um tratamento ainda em teste e que envolvia sérios riscos à saúde dos voluntários. Contudo, seus argumentos eram claros e baseados em evidências, não científicas, mas em sua própria empiria: conheceu uma pessoa que, assim como ela, apresentava dificuldades para andar e limitações cotidianas e havia obtido bons resultados com o transplante. Ademais, entendia que a ocorrência de óbitos nesse tipo de procedimento era frequente em tempos remotos, mas que hoje em dia isso não era comum.
Que nem, eu conheci a moça que fez o transplante também, que nem, eu tenho dificuldade pra andar, tudo, a moça também tinha, hoje ela já anda melhor e não voltou ao normal, mas já anda melhor. A minha esperança é essa, de voltar a andar melhor, não normal que nem eu andava, entendeu. [...] No começo eu tinha medo, porque eles falavam muito nesse negócio, que antigamente morria muita gente, mas agora não, agora não mais. Mas agora não tenho medo não. Que nem, eu já conheci a menina [da associação de pacientes com esclerose múltipla] que fez e deu certo, agora não tenho medo não. [...]A minha filha não queria que eu fizesse, mas ela tem nove anos, né, ela não entende muito bem. Mas depois que a médica veio aqui, e a psicóloga de lá da cidade conversou com ela, tudo, falou que era para o meu bem, aí ela aceitou mais.
Observa-se que os argumentos utilizados por Francisca para justificar sua decisão partem de dois ordenamentos distintos. Primeiro, utiliza argumentos embasados na expectativa de uma possível melhora que os tratamentos convencionais não promoveram: a recuperação da autonomia e a diminuição de fármacos diários. Também se observa que Francisca apoia-se em justificativas baseadas em suas conversas, vivências e entendimentos: embasa-se em casos que deram certo e que ao mesmo tempo justificam a segurança do procedimento, haja vista que, em sua compreensão, os perigos que o procedimento poderia oferecer são coisas do passado, de um tempo longínquo, distante da situação presente vivenciada por ela.
Encerro a conversa com a vontade de questionar Francisca justamente sobre o outro lado da moeda, ou seja, de casos de pessoas que fizeram o transplante e não deram
100 certo e dos riscos envolvidos nos procedimentos como algo que não está apenas no passado, mas intensamente presente no cotidiano do ensaio que iria participar. Entretanto, não seria ético de minha parte desestabilizar as esperanças tecidas e depositadas por Francisca nesse ensaio clínico em vésperas de ser realizado. Não precisamos ser esquizoanalistas para concordar com um ensinamento de Felix Guattari (1981, p.139) em seu texto: Pistas para uma esquizoanálise – oito princípios. Neste breve texto, o autor aponta recomendações de bom senso para aqueles que queiram se aventurar e experimentar o trabalho com a esquizoanálise e o primeiro princípio, nos chama a atenção justamente por referir-se ao não atrapalhar, isto é “deixar como está. Ficar bem no limite, adjacência do devir em curso, e desaparecer o mais cedo possível”.
Desse modo, essa conversa ilustra bem como a esperança de um futuro um pouco melhor, mesmo que sem garantias, é mais acalentadora do que o complicado presente de tentativas ineficazes. Aparenta uma colcha de retalhos costurada com fortes linhas argumentativas de otimismo, difíceis de serem descosturadas. Não se trata de apenas acreditar, ou de se entregar nas mãos de divindades. Os argumentos, mesmo que empíricos, são empilhados um a um, na construção de uma sensação de segurança e de um futuro promissor.