2. Konjunkturutviklingen i Norge
2.2. Pengepolitikken
Uma das principais transformações ocorridas no século XIX referia-se ao que Foucault (2005) apontava como a assunção da vida pelo poder, isto é, uma tomada de poder sobre o homem enquanto ser vivo, uma espécie de estatização do biológico. Na medicina, as modificações no campo foram propiciadas tanto pelos avanços na anatomia patológica garantidas pela dissecção pós-morte das pessoas que faleciam nos hospitais, quanto pela emergência de novas formas de conservar registros nos hospitais que, por sua vez, permitiram novas estatísticas de saúde e de doença. Tais fatores tornaram possível que o exercício da medicina se estendesse para além dos acidentes, das doenças e da saúde fragilizada, passando a abarcar em suas competências o gerenciamento das enfermidades crônicas e da morte, assim como a administração da reprodução, a promoção da saúde e a avaliação e gestão dos “riscos”. O controle dos riscos, por meio de previsões e de medições estatísticas, ganhou destaque enquanto ferramenta essencial para o governo de populações, na medida em que permitia intervir nesses fenômenos globais relativos à vida, como a proporção de nascimentos, de morbidades, de óbitos, etc. (FOUCALUT, 2005; SPINK M. J, 2003; SPINK M. J, 2011).
Hoje, novamente, a medicina vivencia modificações em suas práticas. Atualmente, ela passa a ser entendida como uma tecnomedicina, cada vez mais dependente de diagnósticos sofisticados e de equipamentos terapêuticos. Uma medicina, intensamente capitalizada, que demanda altos investimentos durante um longo período antes de alcançar algum retorno, pois envolve “a compra de equipamentos caros; a manutenção de laboratórios bem equipados; uma multiplicação de testes clínicos; garantias financeiras para medidas necessárias para atender os obstáculos regulatórios” (ROSE, 2011, p. 22). Dessa maneira, observa-se uma prática médica sujeitada a todas as exigências da capitalização que, por sua vez, redesenha suas práticas com a obrigação de obter de lucro e de gerar valor para os investidores. Os vínculos entre o laboratório e a fábrica se estreitam e os seres humanos são inseridos em uma “nova política econômica da vida, na qual, em parte pelo menos, a biopolítica tem se tornado bioeconomia, isto é, todos os modos pelos quais a própria vitalidade tem se tornado uma fonte potencial de valor” (ROSE, 2011, p. 23).
De acordo com Rose (2007; 2011), o campo da bioeconomia é amplo e abarca investimentos em biotecnologias contemporâneas, até mesmo em companhias farmacêuticas, em fabricantes de máquinas, em equipamentos, em reagentes e em muito
37 mais. É um campo marcado por uma intensa controvérsia sobre a relação entre a potencialidade de transformar a vida futura e os riscos imponderáveis implicados em seus usos.
De acordo com Rose (2007, p. 11), no século XIX, foi possível o nascimento de um tipo de medicina que irá se estender até a década de 1960, cujo foco se situa no corpo. Essa medicina, denominada clínica, intervém sobre o corpo em um nível molar, ou seja, na escala dos “membros, órgãos, tecidos, fluxos de sangue, hormônios e assim por diante”; esse corpo, que buscamos controlar e aperfeiçoar por meio de exercícios físicos, dietas, tatuagens e cirurgias plásticas, revelou-se ao olhar do médico na dissecação após a morte e no atlas anatômico. Também foi acessado em vida por aparelhos, como o estetoscópio, que ampliou os sentidos do médico e lhe tornou possível a perscrutação dos órgãos e dos sistemas do corpo vivo.
Contudo, desde a década de 1960, a vida passou a ser compreendida pela biomedicina em outro nível, o molecular. O olhar clínico foi complementado, se não suplantado, pelo olhar molecular, associado a todos os tipos de técnicas altamente sofisticadas de experimentação que intervêm sobre a vida nesse nível (ROSE, 2007). Observa-se uma mutação generalizada, em que nós, ocidentais, passamos a compreender e a intervir sobre nossos processos vitais nesse nível molecular (ROSE, 2004).
Nessa proposta, o que é fundamental apontar é que a partir da década de 1960 emerge um novo tipo de biopolítica denominada biopolítica molecular, que agora diz respeito a “todas as formas em que tais elementos moleculares da vida podem ser mobilizados, controlados e que suas propriedades podem ser concedidas e combinadas em processos que anteriormente não existiam” (ROSE, 2007, p. 14). O corpo foi fragmentado em tecidos transferíveis, que muitas vezes podem ser desprendidos de seu local de origem e reutilizados em outros órgãos. No início, essa fragmentação abarcava apenas sangue e produtos sanguíneos, no entanto, posteriormente, englobou os elementos de reprodução – óvulos, espermatozoides, e embriões – que se tornaram passíveis de serem observados, pesquisados e de sofrerem intervenções fora dos limites do corpo, de qualquer organismo particular.
Na atualidade, muitas das proposições de Foucault têm sido revisitadas e atualizadas por autores das ciências sociais e humanas em torno da política, da ciência e da medicina e, que de alguma forma, têm contribuído para novas articulações dos discursos e das práticas da biopolítica. Nas palavras do próprio Foucault (2009, p.155),
38 a biopolítica “designa o que faz com que a vida e seus mecanismos entrem no domínio dos cálculos explícitos, e faz do poder-saber um agente de transformação da vida humana”.
A configuração da biopolítica contemporânea estaria centrada nos empreendimentos que têm a vida como foco, isto é, em projetos para fazer viver. De acordo com Rabinow e Rose (2006), a medicina genômica seria um exemplo de biopolítica contemporânea. Para os autores, as políticas de mapeamento do sequenciamento do genoma humano possibilitaram o nascimento de novos modos de individualização e de concepções de autonomia que associam os direitos à saúde, à vida, à liberdade e à posse de uma forma de felicidade que é cada vez mais entendida em termos corporais e vitais.
Nesse cenário, também podemos situar as pesquisas com células-tronco. A suposta capacidade de se diferenciarem em qualquer tipo de célula ou tecido do corpo humano e de possibilitarem a intervenção em âmbito molecular, autorregenerando o tecido disfuncional in situ, permite a formação de um novo know-how que habilita a medicina a transformar sua lógica, até então baseada em um tipo de prática centrada na restauração da normalidade orgânica perdida nas doenças, para uma prática engajada na reengenharia molecular da própria vida. Há nessas pesquisas grandes apostas econômicas, médicas e éticas que constituem uma economia política da esperança. A crença de que alguma coisa significativa está em jogo mobiliza estratégias e táticas de uma variedade de atores, como por exemplo, governos nacionais que investem em pesquisas básica e aplicada; companhias farmacêuticas biotecnológicas que investem bilhões e empregam dezenas de milhares de cientistas e técnicos especialistas em experimentos e invenções; grupos de pacientes que investem esperança, capital político, suas próprias amostras de tecido e dinheiro na busca por tratamentos; grupos de pressão que fazem lobby favorável ou contrário a estes desenvolvimentos, apoiados em suas preocupações éticas ou biopolíticas (RABINOW; ROSE, 2006).
Portanto, uma racionalidade biopolítica modificada em relação à saúde está aparentemente se constituindo, na qual o conhecimento, o poder e a subjetividade estão apresentando novas configurações que requerem novas formas de cálculo do risco, de compreensão do self, e de organização do sistema de saúde. Até o presente não se sabe se esse modelo se mostrará funcional, pois os rumos permanecem obscuros, e suas implicações ainda estão sob suspeição.
39 Assim, não é de surpreender que seja difícil dizer se estamos nos últimos estágios de uma mudança momentânea, no meio de um processo que está bem adiantado rumo à estabilização de novas formas, ou em uma conjuntura que demonstrará ser um beco sem saída ou pelo menos marginal a outras mudanças que não podemos divisar hoje (RABINOW; ROSE, 2006, p. 53).
As células-tronco podem ser entendidas como objetos desordenados. Como propõe Latour (2004), tais objetos, com seus vínculos de risco, estariam aflorando como ervas daninhas em meio aos objetos limpos, sem risco aos quais estaríamos habituados.
Os objetos sem risco eram caracterizados, sobretudo por possuir contornos
nítidos, uma essência bem definida, propriedades bem reconhecidas. Eles pertenciam a um mundo definido por estritas leis de causalidade, de eficácia, de rentabilidade, de verdade. Mesmo que alguns desses objetos pudessem, alguns anos mais tarde, resultar em riscos impensados, suas consequências não repercutiam jamais sobre seus contornos, sobre sua essência, pois elas pertenciam sempre a um mundo sem medida, um mundo da história imprevisível, do caos, da desordem política e social, da baderna. Latour (2004) exemplifica os objetos sem risco com o caso do amianto, um dos últimos objetos que se poderia classificar como modernista. Material perfeito, inerte, eficaz e rentável. Foi necessário que se passassem dezenas de anos para que emergissem as consequências de sua difusão sobre a saúde. A partir daí é que foi possível que as causas de muitas doenças profissionais, de cânceres, das dificuldades da descontaminação, passassem a fazer parte das propriedades do amianto, que passou lentamente da “condição de material inerte e ideal a um imbróglio obsessivo de direito, de higiene e de risco” (LATOUR, 2004, p. 50).
Todavia, semelhantes às ervas daninhas em um jardim à francesa, distintos objetos com aparências mais estranhas, excêntricas, começam a desarranjar a paisagem, ramificando-se sobre os objetos modernistas. Em muitos objetos limpos, começa a aparecer uma proliferação de vínculos de risco (LATOUR, 2004, p. 50). Com características totalmente diferentes das anteriores, os objetos desordenados não possuem contornos nítidos, essências bem delimitadas, nenhuma divisão entre seu núcleo duro e seu entorno e, por isso, assumem um aspecto de seres desordenados, provocando uma crise a cada vez que irrompem. Seus produtores aparecem à luz do dia, “embaraçados, controvertidos, complicados, implicados, com todos seus instrumentos, seus laboratórios, suas oficinas, suas usinas” (LATOUR, 2004, p. 51). Tais objetos não são extrínsecos a um mundo que é diferente deles; eles emergem com suas numerosas
40 conexões, tentáculos, pseudópodos, que os reconectam de distintos modos a seres que são pouco seguros quanto eles. Dessa forma, não é mais possível destacá-los de consequências inesperadas, incomensuráveis, que eles poderiam provocar em longo prazo. Ao contrário, a atenção se volta paradoxalmente para os efeitos inesperados, que eles não vão deixar de provocar, efeitos que lhes dizem respeito e cuja responsabilidade aceitam (LATOUR, 2004).
As células-tronco surgem embaraçadas, controvertidas, em um terreno que é impossível separá-las de consequências incomensuráveis, que podem emergir a qualquer momento. Tais objetos controvertidos estão situados nessa nova política econômica da vida cuja vitalidade tem se tornado uma fonte potencial de valor, envolvidos em circuitos transnacionais múltiplos que mobilizam e associam desde artefatos materiais, tecidos, linhagens celulares, reagentes, sequências de DNA, até técnicas, pesquisadores, financiamento, produção e mercado.
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