CHAPTER 6: TIE FORMATION MOTIVES
6.5 S UMMARY
O cenário exposto no item anterior situou teórica e metodologicamente o significado do trabalho e a necessidade de analisá-lo, para se chegar a uma melhor compreensão dos seus problemas e trazer subsídios para a superação desses problemas, sobretudo os concernentes à valorização do profissional. Para isso, foi feito um percurso que culminou localizando o trabalho docente no quadro geral das estratégias de análise.
Agora, chegou o momento de explicitar o que queremos especificamente com esse quadro. Nossa motivação maior está diretamente relacionada com os discursos que intervêm/estabelecem normas para a profissão educacional, mais especificamente aqueles discursos que emanam das intervenções governamentais, fonte de documentos que prescrevem sobre o agir docente, constituindo-se como referência importante para as ações tais como avaliação, elaboração de outros documentos prescritivos, escolhas teórico- metodológicas dentre outras.
Porém, antes de chegar ao ponto específico da nossa opção, façamos algumas considerações que dizem respeito à linguagem sobre o trabalho, no trabalho e como trabalho, formas genéricas de práticas linguageiras. Para melhor esclarecermos a natureza do trabalho docente, comecemos por ratificar o que já dissemos anteriormente: o trabalho é uma atividade complexa e a linguagem é constitutiva desta atividade.
Assim, partindo dessa relação entre linguagem e trabalho, tomemos Nouroudine (2002), que, baseado em Michèle Lacoste (1995), e preocupado com a problemática geral de construção das relações linguagem /trabalho, explicita a tripartição que leva às três modalidades já anunciadas.
Nas situações concretas, a linguagem como trabalho integra a dimensão estratégica da própria atividade.Parte-se do princípio de que não há trabalho sem que haja intenção expressa por um sujeito e/ou coletivo, dirigida por uma dinâmica inscrita na atividade e que esta atividade é necessariamente ordenada e organizada em torno de coletivos de trabalho, tendo a cooperação como indispensável. É importante dizer que essa intenção e essa cooperaçãosó podem ser pertinentes se possibilitarem conciliar a saúde dos atores do trabalho (operador) e a eficácia no produto deste trabalho, diz Nouroudine (2002.).
Esta então é a preocupação básica ao se analisar a linguagem como trabalho, em que o foco está no processo de exteriorização e de explicitação da linguagem e do pensamento implicados na atividade (a linguagem do ator/profissional é dirigida ao coletivo e a si mesmo). Essa modalidade de relação linguagem/trabalho requer métodos de observação do trabalho em situação real e, no exame das situações de trabalho, não se analisa a linguagem unicamente como discurso pré- e/ou pós-experiência, mas, principalmente como parte da atividade em que constituintes fisiológicos, cognitivos, subjetivo e social se articulam, se cruzam. Sintetizando: “a ‘linguagem como trabalho’ é expressa pelo ator e/ou coletivo dentro da atividade, em tempo e lugar reais...” (NOUROUDINE, 2002, p. 22).
Acrescentando mais ainda, a linguagem como trabalho funciona como parte da atividade, uma integrada a outra (noção ligada ao trabalho real, em contraposição ao chamado trabalho prescrito). No caso do professor, esta modalidade permite compreender o seu trabalho, uma vez que este trabalho é constituído primordialmente, pela linguagem, pelas interações entre professor-aluno em situação de sala de aula.
A linguagem no trabalho, por sua vez, se explica porque nem toda linguagem participa diretamente da atividade específica por meio da qual um operador ou um determinado coletivo concretiza uma intenção de trabalho. Nesse caso, a linguagem se faz intermediadora de trocas de experiências, pois, segundo Nouroudine (op.cit.), a linguagem no
trabalho circula no âmbito de situações multidimensionais e multifatoriais. Ela pode veicular conteúdos de natureza variada e, às vezes, distanciada da atividade executada pelos atores em seu coletivo.
Por intermédio dessa modalidade observa-se que conversas sobre a vida pessoal, problemas da política, observações sobre o trabalho no setor vizinho, um jogo de futebol, podem, por exemplo, no caso de um professor em sala de aula, ser um ponto inicial para descontrair numa aula de matemática, ou também para exercer um papel de interação em conversas paralelas nos corredores, nas reuniões entre professores; pode, ainda, distensionar um médico no momento de uma situação de cirurgia. A troca de experiências, a interação entre os elementos materiais e simbólicos da situação de trabalho a partir de algo que se torne centro de referência, que é o sujeito individual/coletivo, atribui à linguagem um papel privilegiado no processo de representação de fatores, em dado momento, para realizar o trabalho com eficácia e segurança.
Finalmente, chegamos à modalidade da linguagem sobre o trabalho. São várias as situações em que ela se caracteriza, das quais destacamos: quando os protagonistas do trabalho se expressam a respeito de sua atividade ou quando o pesquisador tem o trabalho como objeto de análises ou ainda quando instituições legitimadas falam como deve ser o trabalho. Não queremos entrar na polêmica da diferenciação entre uma linguagem e outra, em relação à legitimidade do que diz o pesquisador, o próprio ator do trabalho ou as instituições que prescrevem. O que nos interessa é o aspecto da interpretabilidade contido na linguagem sobre o trabalho.
A relevância desta modalidade em nossa pesquisa está porque analisamos prescrições institucionais e normativas que tratam do trabalho docente, determinando como deve ser este trabalho. Especificamente, examinamos PPP de Curso de Letras de Universidades Públicas cearenses, na perspectiva de explicitar uma nova compreensão sobre o trabalho do professor ou da professora, tanto em relação a seu agir concreto quanto em relação a aspectos das representações que socialmente são construídas sobre seu papel no processo educacional. As produções textuais analisadas nos permitem situar e avaliar as formulações de prescrição e examinar como se configuram, pela linguagem, as representações sobre motivações, finalidade do trabalho a executar, responsabilidades assumidas, culminando com avaliações que conduzam à valorização do/da docente.
A linguagem sobre o trabalho, neste caso, corresponde a uma espécie de interpretação do que as instituições legitimadas dizem do dever ser professoral, das exigências postas numa prática linguageira que prescreve, avalia, julga, planeja e interpreta ações em
PPP, gênero textual, relativamente estável e organizado socialmente pelos que compõem o ambiente profissional do campo da educação. Sobre este gênero nos deteremos no próximo capítulo, a fim de mostrar em que perspectiva podemos confirmar que se trata de um gênero e o que nos vai orientar quanto aos recortes que nele faremos para tratar da sua linguagem sobre o trabalho.
Importante ressaltar que as fronteiras entre a linguagem como trabalho,e a
linguagem no trabalho e a linguagem sobre o trabalho, às vezes, são tênues, não sendo, portanto, possível estabelecer limites rígidos entre uma e outra. Como exemplo disso, tomemos novamente o caso dos professores em sala de aula. Não dá para estabelecer uma fronteira entre o que eles verdadeiramente veiculam como conteúdo da disciplina e outros cenários que dão dinamismo e reciprocidades na interação com os alunos em sala e o que eles avaliam do seu trabalho, em determinados momentos, falando sobre seu trabalho, com estes mesmos alunos.
Para concluir este item, resta-nos lembrar que pela linguagem, a nossa que produzimos nesta pesquisa, reconhecemos o nosso papel enquanto pesquisadora, qual seja, o de aproximar linguagem e trabalho, que também não se dissociam da vida do humano, buscando, assim, a compreensão do agir docente. Nesta dialética em que o discurso revela o lado linguagem e o lado humano do trabalho, no caso, o trabalho docente, situamo-nos em face do ISD, que tem como objetivo analisar as relações entre linguagem e desenvolvimento humano.
3
O
GÊNERO
PROJETO
POLÍTICO-PEDAGÓGICO
COMO
INSTRUMENTO
DE
OBSERVAÇÃO,
INTERPRETAÇÃO
E
INTERVENÇÃO NO AGIR DOCENTE
Dando sequência ao que até aqui expusemos é relevante desenvolver, neste capítulo, uma explicitação indispensável sobre o gênero Projeto Político-Pedagógico, colocando por que, pela linguagem que o compõe , o Projeto Político-Pedagógico pode ser efetivamente considerado a partir de um estatuto genérico.
Assim, situamos o PPP no quadro dos estudos de gêneros textuais, para compreendê-lo tendo em vista sua concepção genérica. Como optamos na pesquisa pela concepção teórica do Interacionismo Sociodiscursivo, cujo método de análises não toma os gêneros de textos como unidade de base específica e direta, sendo assim, achamos relevante apenas caracterizá-lo seu estatuto genérico, uma vez que “toda manifestação verbal se dá por meio de textos realizados em algum gênero.” (MARCUSCHI,2008). O questionamento que norteia nossa discussão é “como situar um PPP nos estudos de gênero?”
Concebemos o PPP como um construto sócio-histórico-cultural, inserido em circulação, numa dada sociedade, regido por ordenamentos institucionais e indexado no que Bronckart( 2007) designa arquitexto.
Na construção de um texto empírico, é basilar que se tenha o modelo de um gênero, pois são as representações sobre este mesmo modelo e a colocação em interface das representações quanto à situação de ação do agente (motivos, intenções, conteúdo temático) que vão fazer dele um texto pertencente a um determinado gênero.
Leurquin (2008) nos chama a atenção para a questão, já por demais debatida, que permeia a construção de um gênero textual: sua finalidade determinada na e pela situação comunicativa/interativa, daí a relevância de examinar as situações em que são produzidos, seus propósitos, e as possibilidades de construção de significados.
Partindo dessa base teórica, procuramos levantar um referencial capaz de dar conta das dimensões conceituais entre gênero e texto. Uma segunda preocupação neste capítulo é com a identificação da natureza genérica de um PPP, com vistas a examinar, dentre outras, sua função social, sua recorrência de circulação e a materialidade de sua constituição. Ao mesmo tempo em que analisamos esses aspectos, procuramos também situar a abrangência na caracterização de um PPP e examinamos em que aspecto ele pode ser
caracterizado como um suporte específico, como partilha de uma constelação genérica e como colônia de gêneros.