CHAPTER 7: TIE FORMATION PROCESSES
7.4 C OGNITIVE PROXIMITY AND DISTANCE IN TIE FORMATION PROCESSES
Iniciamos este tópico retomando a definição de trabalho, na perspectiva em que é empregada na expressão “trabalho do (a) professor (a)”. Para Machado (2004), consiste numa atividade humana muito complexa, que envolve todas as dimensões deste profissional (físicas, emocional, social). Para Bronckart (2004/2006), a atividade de ensino tende a ser considerada como um “verdadeiro trabalho” da forma como Marx o concebia, como aquele trabalho que engaja a totalidade do indivíduo e que potencializa o desenvolvimento de suas capacidades.
Não cabe, neste momento da tese , uma constituição histórica sobre os sentidos do trabalho. Já apresentamos algumas concepções , tomando como umas das referências as ideias de Engels (1981) e de Marx (1981), quando conceitualizam o trabalho de um ponto de vista universal e atemporal, como a condição básica e fundamental de qualquer vida humana. Nessa perspectiva, o trabalho fundaria o humano e o social pelo seu caráter de atividade universal criativa, de expressão e de realização do ser humano. É por isso que, numa visão mais contemporânea, o trabalho significa eixo central da existência do homem vivendo em sociedade, ou seja, é uma das formas de “agir” da espécie humana, como caracteriza Bronckart (op.cit.).
“O verdadeiro trabalho” não aliena o homem na medida em que propicia “o dar-se conta” de sua realização e de seu desenvolvimento. A realização deste “trabalho verdadeiro” não desrealiza o trabalhador. O trabalho nesse caso é representado não como simples execução do que é prescrito, também não distancia o que é prescrito do que é atividade real do trabalhador. Nele o trabalhador passa a ser considerado como um verdadeiro ator e não como mero executor das prescrições. É nesta perspectiva que tomamos o profissional do ensino de Letras para analisar, pela forma com que a linguagem em textos dos PPP se realiza para representá-lo.
Peixoto (2011) nos diz que essas considerações em relação ao trabalho do professor evidenciam a necessidade de o pesquisarmos em suas várias dimensões, a partir de diversos contextos e de diferentes espaços de atuação deste profissional. O professor não limita o trabalho apenas ao tempo de sala de aula. Há o tempo do planejamento individual e coletivo, da elaboração e correção das avaliações dos alunos, das autoavaliações, da qualificação continuada, enfim, há toda uma dedicação profissional em tempos e ações que o envolvem, por isso seria necessário que ele se visse na sua atuação docente. Um PPP, por exemplo, que deve ser norteador e prescritivo, precisa revelar a face desta atuação professoral, de forma explícita, para que se dê o reconhecimento daquele ”verdadeiro trabalho”, sobre o qual já nos referenciamos, para que ele não se perca na opacidade que desvaloriza o profissional.
Precisamos estar atentos, pois nos inserimos numa sociedade regida por um sistema capitalista que pode propiciar a coisificação do humano, transformando-o em objeto do lucro. A educação deste humano, se não cuidarmos, em vez de direito universal vira mercadoria. Há uma tendência em colocar o trabalho do professor como parte, hoje, da desregulamentação e da flexibilização do mercado, como nos dizem Lousada, Abreu-Tardelli e Mazzillo (2004). Em muitos casos, ou terceirizam-no para um trabalho temporário, como acontece com outros trabalhadores em massa, ou o contratam atribuindo-lhe tarefas e habilidades que requerem extremos sacrifícios, sem oferecer as condições necessárias à sua realização.
Logo, na perspectiva de nossa análise, definir o trabalho docente significa, também, percebê-lo quanto à sua configuração na sociedade atual, entendê-lo dentro de um contexto sociointeracional mais amplo, do qual o docente faz parte. Essa compreensão contribui para melhor interpretarmos os registros do agir representados nos textos em análise. Para agir sobre o seu contexto, em constante interação com diferentes indivíduos e instituições envolvidas no universo educacional, o professor serve-se de artefatos materiais ou simbólicos, que são apropriados por ele e que são transformados em instrumentos mediadores do agir. Um desses instrumentos é o PPP, de ordem institucional, que, segundo Bronckart (2007), texto deste gênero se caracteriza como anterior ao agir em situação de trabalho e mais especificamente como texto prescritivo (define metas a serem cumpridas, mas não anuncia as condições de realização delas). Caracteriza-se, também, como texto da nascente do agir, que está na fonte do agir do docente, mas não pré-define as ações de forma explícita, tal como acontece com a LDB, PCN, decretos, dentre outros.
A relevância em estudar o trabalho docente nesses tipos de textos, a partir dos procedimentos que elegemos para nossas análises, está em permitir identificar questões importantes quanto ao trabalho desse profissional. Primeiramente, examinar quais são os protagonistas do agir nos textos, se é o (a) próprio (a) professor (a), se são os órgãos oficiais do governo, se são as instituições, se é o Curso de Letras, no caso da nossa pesquisa, ou se são outros protagonistas. Permite-nos verificar, também, qual é a posição atribuída ao professor: a de ator ou a de agente, ou seja, são atribuídos a esse docente intenções, motivos, capacidades para seu agir, ou essas capacidades não lhe são atribuídas? A quem são atribuídas? Ora, reconhecer explicitamente, no docente, o papel de ator do processo educacional é reconhecer seu grau de relevância no referido processo. Este reconhecimento implica diretamente na questão da valorização profissional, implica em reconhecer que ele realiza “um verdadeiro trabalho” no sentido marxiano da expressão.
Finalmente, esse tipo de análise do trabalho prescrito leva a encontrar o real sobre o que se propõe a ser realizado, isto é, sobre as escolhas, as decisões que precedem a tarefa, os acordos estabelecidos entre os interlocutores (o professor, as instituições, os coletivos do próprio trabalho), tudo para se constituir num fazer docente.