CHAPTER 6: TIE FORMATION MOTIVES
6.4 P ERCEIVED INTERDEPENDENCE
6.4.1 Knowledge intensity
Depois de explicitar noções basilares referentes à linguagem e significados do agir humano, articulemos, agora, estas noções com o significado de trabalho, mais especificamente, trabalho docente.
Faz parte do senso comum a afirmação de que o trabalho constitui uma forma de
agir, ou uma prática própria da espécie humana, portanto uma categoria fundante de ser humano.
Para Rossi-Landi (1985), o homem é um ser que fez e faz a si próprio realizando trabalho e produzindo linguagem simultaneamente. Essa visão dialética da relação trabalho- linguagem leva a considerar que a linguagem não apenas pressupõe as relações de trabalho, mas ela mesma é trabalho. Para o mesmo autor citado, o homem deve ser diferenciado do animal não somente porque produz instrumentos de trabalho, mas também porque fala, produz enunciados, instrumentos de comunicação. Falando, comunicando-se e trabalhando o homem se constitui como ser social, formando historicamente a si mesmo.
Assim, ainda para o autor, o ato de constituir relações instrumentais com a natureza corresponde a um trabalho designado de não-linguístico e o ato de constituir relações comunicativas com outros homens é evidentemente um trabalho linguístico. Esses dois atos estão em um mesmo plano.
Para defender tal concepção, Rossi-Landi (op. cit.) parte do conceito de trabalho em Marx, mais precisamente das categorias "trabalho em geral" e "trabalho humano". Segundo essa concepção, tudo o que traz a marca da intervenção transformadora do homem é produto de um trabalho realizado. Então o próprio homem é resultado histórico de seu próprio trabalho.
Por outro lado, sabemos que as palavras e mensagens não existem prontas na natureza, elas são produto de trabalho humano. Não conferir à linguagem o caráter de trabalho seria, considerá-las, em primeiro lugar, como algo apenas natural, como a digestão ou a respiração, isto é, como algo que não sofre condicionamentos históricos. Em segundo lugar, negar o trabalho linguístico seria considerar a linguagem como algo simplesmente não- natural, meta-histórico, diz o autor marxista citado.
Esta concepção de trabalho linguístico nos remete, diz Costa (2000) à famosa distinção da linguística saussureana linguagem-língua-fala. Vejamos de que forma isso se dá: a linguagem é o trabalho linguístico geral que o homem realiza em sua práxis comunicativa histórica. As línguas correspondem aos produtos ou à objetivação desse trabalho e a fala à apropriação individual do material (palavras, mensagens) do trabalho linguístico. Toda essa operação é social. A contribuição individual da fala é também social, pois é veiculada por uma língua construída socialmente.
É, portanto, a capacidade de criar ideias e trazê-las para o plano material que diferencia o ser humano das demais espécies. Bronckart (2010) confirma que em atividades coletivas organizadas em função da sobrevivência, por exemplo, o que acontece também nas outras espécies socializadas, as atividades humanas (dentre elas as econômicas,visando-se à produção de bens materiais) são particularmente complexificadas e diversificadas, e levam a formas de organização social particulares, o que implica a emergência de normas, de relações hierarquizadas, de papéis e responsabilidades atribuídas aos indivíduos.
Essas atividades, com o capitalismo, primeiro comercial, depois industrial, progressivamente se destacaram dos outros tipos de atividades e relações sociais, organizando-se em instituições dominantes. Daí o surgimento de postos de trabalho, empregos, trabalhadores assalariados. Tudo isso suscitou procedimentos de análises do trabalho: de um lado os chefes (de empresas, por exemplo), no sentido de racionalizar a produção e fazer crescer os lucros; de outro lado os assalariados engajados nas empresas ou instituições/entidades, vivendo seu agir, nesse quadro como um trabalho, em que eles se representam, avaliam, em que eles mobilizam, de bom grado ou à força, parte de suas capacidades comportamentais e psíquico-mentais.
Chamamos a atenção para o fato de que a ciência do trabalho tem suas bases fundadoras no taylorismo,16 que estabeleceu princípios de uma organização científica das fábricas, assegurando o máximo de rentabilidade e garantindo mais os interesses dos patrões
que dos operários, na perspectiva de fazê-los trabalhar mais, com mais rapidez e melhor. Taylor mostrou que, efetivamente, com seus procedimentos e instruções, melhorava a
performance do trabalhador, mas omitiu os malefícios, para a saúde mental deste mesmo trabalhador.
Mesmo posteriormente, com a emergência dos procedimentos advindos da
psicologia do trabalho, que considerava as atitudes dos indivíduos e as propriedades do “motor humano”, o problema continuava, pois se mantinha, como centro das preocupações, a adaptação do homem ao seu trabalho de maneira a sempre se obter maior rentabilidade. Mesmo fornecendo aos indivíduos as qualificações profissionais específicas aos postos a serem ocupados, o foco continuava sendo a rentabilidade.
Daí, em reação ou em oposição ao taylorismo, surgiu a Ergonomia como disciplina, visando à análise dos problemas de funcionamento de operadores humanos, e velando pela boa saúde do homem no trabalho. Para a ergonomia, a atividade dos trabalhadores é o seu fazer e o vivido no seu fazer. A questão, portanto, foi ao reverso. Em vez de visar à adaptação do homem ao seu trabalho, o que passou a ser relevante foi o fato de se compreender o trabalho do ponto de vista dos seus operadores. Várias situações se objetivaram através de estudos: a efetividade do trabalho (problemas reais, em situações reais, em tempo real), trabalho definido e trabalho tal como era vivido pelos atores, (trabalho prescrito e trabalho real), os três níveis postos: o trabalho teórico, o trabalho prescrito ou esperado e o trabalho real, a atividade da pessoa no trabalho. A concepção de atividade, e análise da atividade, como já vimos no subitem anterior, muito tem contribuído para esta outra forma de conceber o trabalhador /operador.
Como consequência desta distinção realizada pela Ergonomia, entre trabalho prescrito e trabalho real, surgem noções básicas, que distinguem teoricamente trabalho teórico, constituído pelos pontos de vista dos envolvidos na produção; trabalho prescrito ou previsto, constituído pelo lado invisível da organização do trabalho, que dita as regras e os objetivos da produção; trabalho real, constituído pela própria atividade do sujeito, o modo de operar esta atividade, numa dada temporalidade, em lugar específico, regulando modos operatórios e condições objetivas de trabalho. Tais distinções foram bem consubstanciadas em Ferreira (2000).
Essas noções da Ergonomia contribuíram também em pesquisas, na área da educação, as quais tratam do trabalho docente numa perspectiva mais ampliada, considerando como base noções do campo das Ciências do Trabalho, associando este campo de estudo às abordagens discursivas de análise de textos.
Tomando especificamente a questão do trabalho prescrito, que consitui a natureza do trabalho do(a) professor(a), é importante examinar as implicações referentes às prescrições, em seus aspectos institucionais e normativos, como o fazemos nesta pesquisa. O trabalho docente tanto utiliza procedimentos concebidos por outras pessoas que não o próprio trabalhador, como tem permanentemente os valores do seu trabalho atribuídos não somente por ele, mas por pessoas ou instituições que estão fora do domínio de execução do trabalho que esse docente executa.
Segundo Bronckart e Machado (2004), conforme a natureza de qualquer discurso de prescrição, ele é construído como um discurso objetivado, levando seu destinatário a tomar suas asserções como verdadeiras. Assim, por exemplo, documentos como a LDB, os PCN, encaminhados, concebidos e/ou construídos pelo poder governamental, passam a nortear os projetos pedagógicos, o material didático e o agir docente.
Além das perspectivas vistas até aqui, existem ainda outras concepções relevantes para a análise do trabalho docente. Apresentamos, a título de ilustração, algumas delas: a) as de inspiração na etnometodologia, centradas nas interações que se desenvolvem nos sistemas homem-máquina, considerando que toda ação é situada; b) a da ergonomia cognitiva, centrada nas capacidades e operações intelectuais que mobilizam os operadores nas diferentes formas de manifestação da inteligência. Tais correntes, apesar de terem contribuído para uma significativa renovação conceitual da análise dos parâmetros do agir, segundo Clot (1999), apresentam, ainda, problemas teóricos e metodológicos, sobretudo quanto às condições de identificação das ações no fluxo da atividade dos trabalhadores e quanto à natureza das relações entre as condutas observáveis e as diferentes produções linguageiras que explicitam estas condutas.
Citamos ainda c) o método da psicodinâmica do trabalho, que compõe os estudos aqui relacionados. O foco relevante desse método diz respeito à saúde dos trabalhadores, analisando, em particular, a relação entre o afetivo, o cognitivo e o mental (abordagem psicossubjetiva). A partir de estudos nesta linha, têm-se denúncias de que uma das fontes principais do sofrimento no trabalho está no entrave ao exercício da inteligência criativa.
Bronckart (2010), neste quadro sinóptico que faz sobre o agir, o trabalho e a análise do trabalho, e que achamos relevante, até mesmo indispensável, trazer para este capítulo da nossa tese, acrescenta ainda outras abordagens, que procuram compreender a questão do trabalho, considerando o papel que este desempenha no funcionamento e no
prática” de Arendt, e que, dados os limites desta pesquisa, apenas a mencionamos para informação do nosso leitor.
A outra é a abordagem histórico-cultural de Vygotski, que inspira a clínica da atividade, cujo principal foco é a atividade do trabalho como construção permanente das pessoas, tomando como pilares teóricos o esquema desenvolvimental vygotskiano, sobretudo quanto à consideração das situações de trabalho constituindo lugares coletivos de desenvolvimento (zona de desenvolvimento proximal- ZDP), propícias a múltiplas formas de aprendizagem. Essa abordagem concebe a realidade do trabalho também pelo seu lado invisível, velado, em que ser real é também ser pensado, ser impedido, ser possível de se realizar.
É importante observar que, sobre essa vertente do trabalho teórico e/ou prescrito, a clínica da atividade transpõe para o domínio do trabalho as concepções bakhtinianas de estilo de discurso e gênero, propondo a existência de gêneros profissionais (estáveis e socialmente organizados por ambientes/grupos específicos de profissionais). São as relações entre atividade e subjetividade que estão no centro das análises. O trabalho é visto não somente como trabalho psíquico, mas como uma atividade concreta e irredutível. A atividade, para os teóricos dessa concepção, é vista, segundo Clot (1996), como o continente escondido da subjetividade no trabalho.
Em síntese, considerando as diversas abordagens sobre o agir no trabalho é possível observar, como diz Faïta (2002), o efeito das mudanças no universo da organização do trabalho, em que, de modo diversificado mas contínuo, o lugar e o papel do ser (que o autor denomina de fator) humano se impuseram de maneira “incontornável”. E, aqui, entendemos incontornável no sentido de cada vez mais ampliadas e complementadas as teorias umas com as outras, na direção de entender a heterogeneidade das condutas dos atores/trabalhadores, a multiplicidade dos saberes implicados nas atividades laboriosas, cotidianas, os apelos à inteligência dos homens e das mulheres no trabalho. Tudo somado à visão requalificada da linguagem e das práticas linguageiras, orientadas para a apropriação das técnicas, para a compreensão das instruções e para a execução das tarefas.
Foge dos objetivos desta tese a explicitação mais detalhada do quadro dessas correntes. O que nos interessa particularmente é mostrar como os estudos que analisam o trabalho chegaram a um nível de contribuição relevante, por exemplo, à análise do trabalho docente (ou professoral).
Nesse caso, houve uma significativa evolução das didáticas das disciplinas escolares, passando da preocupação com meras racionalizações de programas e métodos de
ensino, para a preocupação com as intervenções estratégicas de professores, com suas atividades globais e seus efeitos sobre o desenvolvimento das interações de aprendizagem. Nesse contexto, inseriram-se ainda nas técnicas e métodos utilizadas pelos professores , através da linguagem, procedimentos de formação das práticas profissionais, como a
entrevista de explicitação, uma técnica indutiva que leva o profissional à tomada de consciência e que se especifica por visar à verbalização da ação; a autoconfrontação simples ou cruzada, que consiste, segundo Souza-e-Silva e Faïta (2002), em fazer da atividade passada do trabalhador o objeto especial de sua atividade presente, utilizando a imagem (vídeo) como suporte de observações e a instrução ao sósia, que depende da autoconfrontação e consiste numa forma de atividade linguageira, provocando ou permitindo a confrontação do sujeito com sua própria atividade profissional.
Como podemos constatar, as atividades educacionais não podem deixar de ser tratadas como trabalho. Elas precisam se beneficiar das Ciências do trabalho. Inúmeras pesquisas têm se realizado neste âmbito, visando ao aprimoramento das referidas atividades. Nossa pesquisa, então, se insere dentre aquelas relacionadas às diferentes práticas de linguagem que se desenvolvem no e sobre o trabalho educacional, para identificar as relações entre essas práticas e sua influência sobre o agir dos profissionais em educação, especificamente aqueles envolvidos com a formação de professores de línguas.