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CHAPTER 6: TIE FORMATION MOTIVES

6.3 R ESEARCHERS TIE FORMATION MOTIVES

Iniciamos este item reafirmando que a linguagem é primeiramente e, sobretudo, uma atividade (social) específica, ou uma atividade de discurso. Temos repetido isso incansavelmente, porque esta afirmação constitui um dos pilares do ISD. Ela nos faz retomar o conceito de atividade e de ação, para o que recuperamos as ideias de Vygotski, que buscou, de acordo com Bronckart (2008), instaurar uma unidade da ordem do agir significante como questão principal no âmbito das Ciências Humanas.

Tratando ainda do agir, Leontiev (1979) propõe a teoria da atividade, cuja fundamentação, de base marxista, se sustenta na tese de que os conhecimentos e as obras dos seres humanos são produto de suas práticas sócio-historicamente representadas, contrapondo- se à tese que defende serem simples reflexos da organização preexistente do mundo (empirismo) ou, ainda, resultados do funcionamento de capacidades mentais inatas (racionalismo). O autor analisa essa práxis generalizada, na qual distingue três níveis de apreensão: a atividade, a ação e a operação.

A atividade tem seu conceito aplicável a qualquer organização coletiva dos comportamentos, orientada por uma finalidade ou visando a um objetivo determinado. Ela pode explorar instrumentos para mediá-la. No caso do humano, a mediação simbólica da linguagem se sobrepõe à mediação de instrumentos materiais, conforme já explicitamos ao

tratar do estatuto da linguagem, cujo cerne é a de que esta não pode ser considerada simplesmente como instrumento.

Destaquemos que é através da linguagem e por meio dela que o indivíduo constrói, negocia e reconstrói as representações sobre si e sobre o mundo. Essas representações se modificam sempre marcadas e alteradas pelo contexto sócio-histórico e pelas experiências individuais de cada pessoa. É por isso que o estatuto da linguagem a sobrepõe ao estatuto de um mero instrumento.

Por outro lado, a atividade é uma das propriedades intrínsecas ao trabalho. Este, por sua vez, precisa de intenção expressa por um sujeito individual e/ou coletivo. Precisa também ser ordenado e organizado em torno de coletivos para os quais a cooperação é indispensável. É aí que entra a atividade linguageira.

O conceito de ação apreende o agir coletivo de maneira a articulá-lo a objetivos, que são atingidos por agentes nele envolvidos e dos quais eles têm consciência. Isto implica que a ação só é atestável nos seres humanos, pois requer capacidade de construir representações dos efeitos prováveis da atividade em que se engajarem. As ações podem ser diferenciadas em função de seu objetivo, tal como ele é representado, no nível coletivo ou no nível individual.

Já o conceito de operação se vincula ao modo como uma ação é realizada, ou se refere à solução técnica adotada para atingir um objetivo.

Tratemos agora mais detalhadamente da discussão sobre ação, pois em torno dela se movimenta a investigação que trazemos nesta tese. De acordo com Bronckart (2008), no âmbito das teorias psicológicas, observa-se que, apesar de muitos autores considerarem fundamentais as teorias psicológicas de Piaget, Vygotski e Leontiev, não foi reservado um estatuto relevante à ação. Na verdade, a Psicologia, foi dominada pelo behaviorismo, durante três quartos do século XX e depois pelo cognitivismo. Ambas perspectivas atribuíam lugar restrito à problemática da ação.

O behaviorismo radical, tomando, por exemplo, a teoria Skinneriana, via em qualquer comportamento seu caráter ativo e de intervenção sobre o meio, intervenção esta totalmente controlada por reforços (efeitos externos) positivos ou negativos, deixando como secundárias e não determinantes ao agir as dimensões de intenção, motivação ou planificação.

Essa corrente reduz as propriedades da ação significante humana às do evento natural.

O cognitivismo, por sua vez, avançou nos estudos sobre o agir humano, em relação ao behaviorismo, pois definiu esse agir como um processo complexo, articulou em sequência e hierarquicamenteum conjunto de atos mínimos e centrou-se em processos mentais

(cognitivos), reguladores desse agir. Entretanto manteve a perspectiva dos estudos sobre a ação voltada para as condutas em geral, sem a particularização relativa a uma ação significante, e reduziu a problemática psicológica às interações entre os indivíduos e o mundo físico, sem que fossem consideradas as dimensões intersubjetivas, sociais e semióticas presentes nestas interações.

Embora outras teorias, situadas nesse mesmo paradigma cognitivo, tenham tentado reintroduzir as dimensões sociais na fundamentação das ações, permaneceram numa concepção dualista do agir (duas faces: uma externa, do mundo físico e outra interna, constituída de processos cognitivos da ordem da percepção, das intenções, das decisões, dos valores, do saber social dentre outras) e tentaram delimitar unidades de ação, sem ressaltar o fundamento social do agir.

Vejamos tentativas, como as de Anscombe (2001), em que a autora propõe identificar e caracterizar os fenômenos humanos como dependentes da ordem do agir, distinguindo acontecimentos produzidos na natureza e agir humano, que ela requalifica de

ação. Para a autora, estas duas espécies de fenômenos se manifestam em situações de jogos de linguagem diferentes. Para exemplificar, ela compara o que na linguagem verbal vai se produzir como resultado de relatos com encadeamento de fenômenos, independentes ou não uns dos outros, com níveis diferentes de relação entre causa e efeito. Para Bronckart (2008), faltam, na interpretação dela quanto à caracterização do agir humano, as propriedades psíquicas relativas aos motivos, às razões que levam ao agir. Outros autores justificam a ausência dessa caracterização (a ação compreendida num processo interpretativo) pela impossibilidade de uma apreensão e de uma definição independentes dos parâmetros comportamentais versus mentais.

Posteriormente, Ricoeur (1977) propõe uma semântica da ação, que identifica e define parâmetros. A semântica da ação permite distinguir as ações de simples

acontecimentos, colocando em cena o agente, que, intervindo no mundo, mobiliza

capacidades mentais e comportamentais das quais ele sabe dispor, numa espécie de “poder- fazer”, definindo-se, assim, sua responsabilidade como agente na intervenção ou ação. A partir das capacidades, dos motivos ou razões que o agente assume, surge uma espécie de “porque fazer”e de intenções, com efeitos presumíveis desse fazer.

Mas, apesar dessa contribuição de Ricoeur, que ofereceu uma primeira rede de conceitos, hoje, com relativa estabilização, essa abordagem não permite dissociar o que depende do agir enquanto observável mundano e enquanto interpretação desse agir no e pelos

enunciados, o que impede de se colocar a verdadeira questão do estatuto ontológico do agir. Além do mais ela permanece fundada numa epistemologia individualista.

Segundo Fillietaz (2002), o agir é compreendido como produção de um ator solitário e não como uma entidade dialógica, em que um acordo e uma partilha são pressupostos. Por outro lado, por não considerar fatores históricos, sociais, culturais e semióticos que influenciam nesse agir, a abordagem de Ricoeur apresenta um viés totalmente idealista, pois é como se o agente e suas representações próprias constituíssem os únicos determinismos do agir e o conhecimento sobre este agente, suas propriedades no momento de uma intervenção, fosse suficiente para compreender o curso do agir.

Habermas, também citado por Bronckart (2010), desenvolveu uma outra abordagem concernente ao estatuto do agir, considerando fatores socioculturais e semióticos. O princípio dessa abordagem é de que toda atividade se desenvolve a partir de representações coletivas que são organizadas nos três mundos, formais ou representados, os mundos objetivo, social e subjetivo, já explicitadosna tese. Habermas atribui dimensões ao agir de acordo com o contexto de cada mundo onde este agir é produzido.

Sobre esses mundos, em vez de tentar parafrasear Bronckart, preferimos reproduzi-lo na seguinte assertiva:

Em um determinado estado sincrônico, esses três mundos se constituem como sistemas de coordenadas formais em relação aos quais qualquer agir humano exibe pretensões à validade e a partir dos quais se exercem avaliações e/ou controles coletivos. Pelo fato de que qualquer agir é produzido no contexto do mundo objetivo, ele exibe pretensões à verdade dos conhecimentos, verdade essa que condiciona a eficácia da intervenção no mundo. (BRONCKART, 2008, p.22-23)

É importante explicitar que esta dimensão do agir é qualificada como agir teleológico, que pode se complexificar num agir estratégico, quando as situações implicam na mobilização de parceiros humanos dotados também de conhecimento objetivo ou verdadeiro.

Acrescente-se ainda o fato deste agir ser produzido no contexto do mundo social e exibir pretensões a estar conforme as regras e valores que esse mundo organiza, daí qualificar- se como agir regulado pelas normas.

E, finalmente, por ser produzido no contexto do mundo subjetivo, pois toda atividade mobiliza pessoas dotadas de psiquismo e características privadas, este agir demonstra pretensões à autenticidade e à sinceridade em face do que estas pessoas

representam de si e apresentam como verdade. Esta dimensão do agir é qualificada de dramaturgo.

As três dimensões do agir colocadas aqui identificam ângulos sob os quais um agir humano pode ser avaliado. Por exemplo, um agir pode ser eficaz, no entanto, pode ser considerado como não conforme às normas em uso e não autêntico a partir do que revela de pessoas implicadas. Um agir pode ser avaliado como sincero, verdadeiro, mas se revelar ineficaz.

Portanto, o interesse dessa abordagem está em mostrar que a realização de um agir se dá necessariamente em relação a sistemas de determinações diversas e não numa trajetória retilínea, determinada por propriedades que definem a responsabilidade do agente.

Com o objetivo de preencher as lacunas desta abordagem, sobretudo aquelas relacionadas ao plano linguístico, no sentido de completá-la e ampliá-la, Bronckart (2010) aproveita a contribuição de Habermas quanto a esse percurso teórico-metodológico (tratando das categorias do agir, o teleológico, que Bronckart vai chamar de praxeológico e o comunicacional) e integra a essa abordagem às profundas reflexões sobre o estatuto dos signos linguageiros, que emanam em particular da teoria de Saussure. Acrescenta-lhe ainda a questão que versa sobre o principal nível de organização do agir linguageiro que é o dos textos e/ou discursos.

O processar-se dessa integração dialética que articula Habermas, Saussure, Vygotski, Bronckart e outros teóricos se dá na seguinte forma: juntam-se proposições individuais a partir da mobilização de signos no agir comunicacional, de onde vêm as consequências do caráter convencional e arbitrário. Essas proposições individuais constituem, segundo Bronckart (op.cit.), inspirando-se em Habermas, pretensões à validade designativa e uma dessas pretensões deve ser ratificada por consentimento coletivo, tornado-se signoe entrando, assim, na língua. Simetricamente, segue o mesmo processo em relação ao agir praxeológico, que se desenvolve em pretensões práticas à validade em relação aos mundos representados. Nesse jogo em que o agir comunicacional se associa dialeticamente com o agir praxeológico explica-se o fato de que, na realidade, os signos não são jamais definitivamente estáveis e que eles evoluem permanentemente e que as línguas mudam com o tempo.

Integrando, ainda, as teses de Wittgenstein e as de Saussure, segundo as quais as construções semióticas são fundadoras do conjunto dos processos cognitivos, Bronckart

(op.cit. p. 24) sustenta: “é na prática dos signos organizados em textos que se constroem e se transformam os mundos representados”. (BRONCKART, 2010, p. 24)15

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Depois de feita essa explanação sobre o agir comunicacional e o agir praxiológico, podemos entender o papel do agente e seu engajamento nesses tipos de agir. Além dos conhecimentos explícitos, advindos do mundo formal/objetivo, este agente apresenta um conjunto de experiências que acumulou no curso de sua vida social e cultural em face do contexto do seu agir.