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3 VOLD BRU OVER JERNBANE

3.3 Tilstand Vold bru

Cidadania, participação, democracia, justiça social, políticas públicas e sociais, responsabilidade socioambiental empresarial, enfrentamento da pobreza, novas relações de poder, desenvolvimento sustentável, territorialização, entre outros, são temas de pesquisa, formação e intervenção dos grupos e núcleos acadêmicos citados. Certamente os focos dados por cada um deles é bastante diferenciado, variando conforme as suas experiências locais e expertises que inicialmente guiaram os pesquisadores que os instituíram. Diante dos conceitos e tentativas conceituais ambíguas sobre o que vem a ser a gestão social, pode-se observar, porém, que há neles algo em comum, que remontam aspectos teóricos clássicos de autores que explicam fenômenos ligados à gestão, à burocracia, aos processos sociais, ao Estado, às organizações, ao público e o privado, tais como Alberto Guerreiro Ramos, Mary Parker Follett, Hanah Arendt, Maurício Tragtenberg, Jünger Habermas, Antônio Gramsci, entre outros. Esses autores se contrapõem aos modelos de gestão empresarial lucrativo, apontando alternativas aos modelos de gestão, considerando valores da democracia, da valorização do ser humano, da horizontalidade nos relacionamentos e nos processos decisórios e do desenvolvimento social.

Além de compreender a gestão social enquanto um campo de práticas e conhecimentos em construção, é preciso discutir aspectos deontológicos e epistemológicos que fundamentam tal constructo, diante das tentativas interdisciplinares de sua análise. Por isso, para entender o que distingue conceitualmente e eticamente a gestão social da gestão privada e pública, mesmo parecendo ser aparentemente clara tal distinção, é importante revisitar aquilo que se entende por gestão e o que se entende por social. Assim, talvez se tenha como distinguir para que veio e a que se contrapõe a gestão social, o que a diferencia,

qual tradição que pretende inovar. Fazer tal análise, exige, além de tudo, um cuidado relacionado à compreensão dos aspectos histórico-culturais e ético-políticos que regem tais conceitos, normalmente associando a gestão a algo do capitalismo, do conformismo com o sistema, não coadunando com a ideia de mudança do social. Daí tem-se uma ambiguidade nata da gestão social, gerando inclusive certo anacronismo necessário àquilo que se determina enquanto nova questão social.

1.1.1 Quais concepções de gestão fundamentam a gestão social?

As concepções sobre gestão vão da mais tradicional, instrumental, taylorista, voltada para o planejar, organizar, dirigir e controlar estruturas e processos nas organizações, às visões mais comportamentais focadas no indivíduo, nas relações interpessoais e nos processos sociais. Não há muitos consensos, inclusive sobre o que de fato vem a ser a gestão, se um dos objetos de estudo da Administração enquanto ciência é o seu próprio sinônimo. Analisar as concepções de gestão que podem fundamentar ou que derivaram a gestão social, não significa apenas buscar uma compreensão das Teorias da Administração ou das Teorias das Organizações. Mas, buscar pressupostos sobre a natureza da realidade (ontológicos) do conhecimento (epistemológicos) (ABREU; ARMOND-DE-MELO, 2009) do gestio, numa tentativa de compreensão mais interdisciplinar e menos unidimensional voltada apenas para o mercado, compreende possíveis impactos para sua aplicabilidade no campo social. Além disso, é preciso buscar o caráter interdisciplinar e dialógico dessa área com os demais conhecimentos e a diversidade de disciplinas que a influenciam, que vão das ciências exatas às humanas, envolvendo engenharias, psicologia, economia, sociologia, antropologia, comunicação etc. A mistura dos conhecimentos sobre gestão é muito semelhante à que está disponível para áreas de práticas de trabalho social (WEINBACH, 1994). Criada por engenheiros, a gestão por muito tempo não passou de uma concepção mecânica que progressivamente foi integrando fator humano, os aspectos relacionais e a complexidade, tornando-se “uma disciplina multiforme, sem corpus próprio”. Não se definiu pelo seu objeto, mas com relação a uma finalidade prática –

fazer as empresas funcionarem, maximizar resultados etc. (GUALEJAC, 2007, p. 64).

Muitas vezes os sentidos da gestão é incompreendido, denotando imagens diferentes. O termo é usando muitas vezes para referir-se coletivamente a algumas pessoas que ocupam os mais altos cargos no organograma de uma empresa, organização pública ou do terceiro setor. Também é usado frequentemente como o verbo (gerir) para apontar uma ampla gama de atividades como o caso, por exemplo, de organizações humanitárias de caráter social que operam múltiplas ações, exceto os serviços prestados diretamente aos beneficiários. Logo, cabe um esforço para dissipar algumas ideias erradas que se tem sobre a gestão, seja apenas por abordá-la sobre a ótica da produtividade-lucratividade (WEINBACH, 1994), seja pelo messianismo voltado para o governo de práticas sociais.

Traz-se aqui a pergunta aparentemente elementar: finalmente, o que é gestão? Essa é uma pergunta tratada de forma inquietante por alguns e simplória por outros (ABREU, ARMOND-DE-MELO, 2009). Inicialmente, cabe destacar que um mundo sem gestão é quase inimaginável, já que todas as atividades humanas envolvem isso (WEINBACH, 1994). Vivermos numa sociedade organizacional e de gestão nos leva à necessidade de repensar a ideologia gerencialista criada entre o homem e a sociedade (ARAÚJO et all, 2011).

O significado inicial do termo “gestão” remete a administrar, dirigir, conduzir: remete a “certo tipo de relação com o mundo, com os outros e consigo mesmo, da qual convém delinear contornos”. De modo geral, se pesquisarmos nos manuais sobre gestão, esta será definida como “conjunto de técnicas, destinadas a racionalizar e otimizar o funcionamento das organizações”, compreendendo as práticas de direção das empresas, os modos de organizar a produção, as técnicas, processos, normas e dispositivos de funcionamento (GUALEJAC, 2007, p. 33). Logo, comumente se relaciona como sinônimos os termos gestão, gerenciamento e administração e, por conseguinte, isso remete a um conjunto de atos eminentemente práticos que não requerem aspectos ideológicos.

Mesmo diante das necessidades de se partir para novas definições sobre gestão, buscando compreendê-la como processo relacional, dificilmente deixa-se de lado o pensamento instrumental que nos leva a sempre perguntar: como fazer gestão? Trazer à tona as discussões sobre gestão social, per si, nos leva a pensar em novas questões: Por que fazer gestão? Que gestão? Para que gestão?

(ARAÚJO et all, 2011). Essas indagações geram tensões inquietantes na busca de um novo sentido para compreender relações e processos sociais, geralmente mediados/regulados pela gestão que, tradicionalmente, apresenta-se como “pragmática e, portanto, não ideológica, fundada sobre a eficácia da ação, mais do que sobre a pertinência das idéias”. Trata-se de uma “metalinguagem” que influencia fortemente diferentes atores (GUALEJAC, 2007, p. 63).

Muitas vezes é mais fácil definir a gestão pelo que não é ou desfazendo mitos que sustenta, do que definir o que realmente é. A literatura sobre o assunto está repleta de tentativas de definições, mas só há consensos limitados (WEINBACH, 1994). Alguns desses mitos são trazidos por Weinbach (1994) ao tratar sobre o assistente social enquanto gestor, e por Mintzberg (2010), ao constatar alguns “folclores” identificados numa pesquisa usando observação participante com 29 (vinte e nove) gerentes atuando em diferentes níveis em organizações privadas lucrativas, governo, saúde e na área social. Os mitos/folclores identificados pelos autores e os respectivos fatos reais estão sistematizados no Quadro 1.

Pelos mitos/folclores descritos, pode-se perceber que a gestão deve ser pensada indo além das ideias de funções realizadas por pessoas específicas (gestores) dentro do ambiente de trabalho, visando promover a produtividade e alcance de metas organizacionais. Os mitos listados são de certa forma confirmados pelos folclores, uma vez que a gestão requer o envolvimento não só de gestores, bem como exige habilidades técnicas, humanas e sociais. Os gestores ou gerentes não são super-heróis dotados de poderes superiores para que possam fazer gestão com base apenas nas relações hierárquicas ou nas suas experiências técnicas

França Filho (2004, p.122) faz uma análise sobre o que se faz e o que se pensa em administração, tendo um olhar epistemológico, para a partir daí buscar definições. Sugere assim três conjuntos de conhecimentos nessa área de conhecimento. O primeiro deles é o das “técnicas e modelos gerenciais” que dizem respeito “ao conjunto de idéias voltadas ao auxílio do trabalho do gerente, num sentido muito prático e aplicado”. Estes foram concebidos no âmbito empresarial sendo transpostos para as instituições públicas, ONGs e outras organizações. Baseiam-se na definição da eficiência e eficácia gerencial dentro de parâmetros clássicos de racionalidade instrumental ou funcional e do utilitarismo. O foco é nos resultados econômicos da organização. Fazem parte desse rol o taylorismo, o

Quadro 1- Mitos/folclores e fatos reais sobre a gestão

MITO (WEINBACH, 1994) /

FOLCLORE (MINTZBERG, 2010) CORREÇÃO / FATO REAL