4. EVALUATION OF UNIVERSITY DEPARTMENTS
4.8 THE NORWEGIAN UNIVERSITY OF LIFE SCIENCES (UMB), ÅS
primeiro lugar para o redator
Haja vista o nosso interesse pelo conceito de autoria sob o prisma da Análise do Discurso de tradição francófona e já tendo contado com a oportunidade de conhecer/estudar as três dimensões da noção de autor propostas por Maingueneau (2010a), cumpre-nos, antes de nos determos nessas dimensões, um levantamento acerca das apreciações que o orientaram para essa conclusão. Assim é que, em capítulo dedicado integralmente ao assunto, “Autor: A noção de autor em análise do discurso” (2010a, p. 26), o Professor de Linguística da Faculdade de Língua Francesa da Universidade Paris-Sorbonne inicialmente explicita que, “[...] embora a questão do
autor esteja desde há muito tempo no centro da reflexão em teoria literária, a maior parte dos analistas d o discurso – pelo menos na área francófona – evita a famosa questão posta por Michel Foucault nos fins dos anos 1960: ‘O que é um autor?’ [...]”, conquanto a autoralidade devesse ser uma questão central para a Análise do Discurso no seu esforço em pensar a imbricação recíproca de textos e de lugares sociais para além da oposição texto/contexto. E Maingueneau registra (2010a, p. 26):
[...] a noção de autor é indissociável da noção de texto: em um sentido, pode- se considerar o texto como uma unidade à qual se costuma associar uma posição de autor, mesmo que esta última não tome a forma de um indivíduo único, em carne e osso, dotado de um estado civil. [...] Categoria híbrida, que implica ao mesmo tempo o texto e o mundo do qual este texto participa, o autor é uma instância que enuncia (atribui-se-lhe um ethos e uma responsabilidade de alguns gêneros de textos, em particular os prefácios), mas também certo estatuto social, historicamente variável.
No que concerne à noção de autor ser indissociável da noção de texto, sendo este uma “[...] unidade à qual se costuma associar uma posição de autor” (MAINGUENEAU, 2010a, p. 26), encontramos a própria noção frequentemente utilizada pelo senso comum, segundo a qual se tomaria alguém como a fonte de uma determinada produção verbal escrita, independentemente de se tratar do autor de uma carta, do autor de um e-mail, do autor de um artigo ou do autor de um livro. E, desta perspectiva, não haveria muito mais acerca do que nos aprofundarmos quanto ao redator
de textos técnicos ser o “autor” do produto do seu trabalho, de modo que a nossa discussão provavelmente enveredaria pelos aspectos legais que envolveriam a “transferência” da “autoria” dos seus textos (dos quais eles seriam os “autores originais”) para aqueles que, em pagando pela sua elaboração, tornar-se-iam os seus “autores empossados”, por assim dizer. Contudo, ainda nos faltaria perscrutar os aspectos de nosso maior interesse neste estudo, relativos à análise discursiva da autoria, sobre os quais a noção historicamente variável de autor também não incidiria a contento, tampouco a incontornabilidade da sua figura tal como ela se revela, por exemplo, no discurso literário.
A respeito da figura incontornável do autor em determinados discursos, em especial, Maingueneau (2010a) a aponta como uma das possíveis explicações pelas quais a Análise do Discurso teria evitado refletir sobre ela, priorizando o investimento em “corpora desprezados pelas faculdades de Letras tradicionais” e, por conseguinte, legitimando o seu território de análise. Além disso, o Professor também aventa a possibilidade de que a problemática da polifonia linguística, da heterogeneidade ou da modalização poderia ter sido um outro obstáculo.
À parte as razões que, ao menos por um determinado período, possam ter promovido o desinteresse ou o afastamento dos analistas do discurso a respeito dos estudos relativos à autoria, o fato é que Maingueneau (2010a, p. 28) primeiramente chama atenção para dois funcionamentos referentes ao termo “autor”: um relacional, no qual se estabelece a correspondência entre este e o texto produzido, e um referencial, que “autonomiza sintaticamente o autor”, mas no qual ele não seria “um autor”, no sentido de “causa ou responsável pelo enunciado”. Como exemplo, o especialista acrescenta (2010a, p. 28): “[...] ‘o autor de um panfleto publicitário’ não é, salvo situação excepcional, ‘um autor’, não é mais do que um cobrador de impostos que escreveria muitas cartas aos contribuintes dos quais ele está encarregado”.
O exemplo registrado por Maingueneau instiga-nos algumas elucubrações ao pensarmos, sobretudo, no funcionamento referencial da atividade de trabalho realizada pelo redator de textos técnicos, pois, tal como o “autor de um panfleto publicitário”, o redator sobre o qual nos detemos (e que, de acordo com a CBO 2002, também poderia ser designado como “redator de textos comerciais”) também não corresponde à causa do enunciado nem é por ele responsabilizado, uma vez que não é quem o assina. Todavia, parece-nos que haveria uma diferença bastante significativa entre a função desempenhada por ele e, ainda com base no mesmo exemplo, aquela do cobrador de
impostos, pois, embora a redação de ambos os textos atenda a uma finalidade (na publicidade, mobilizar o potencial cliente a uma ação de adesão; na cobrança, mobilizar o contribuinte a uma ação de pagamento), o principal conhecimento exigido na atuação do cobrador de impostos não consistiria no exercício da escrita em si, mas, sim, nas especificidades em torno de cada tipo de imposto, de como efetuar cada cobrança, etc. No caso do redator, entretanto, espera-se o seu “domínio da língua” e “da linguagem específica do veículo” (CBO 2002), do qual ele se valerá para a articulação de textos que versem sobre os mais diferentes assuntos.
Além dos funcionamentos relacional e referencial, outro aspecto sobre o qual Maingueneau (2010a, p. 29) se detém, oportunamente, consiste na definição que privilegia os produtores de literatura, muito embora o termo também possa ser empregado em posição de complemento do nome, a exemplo de “filme de um autor”. É a partir daí que, para além do critério de qualidade que se poderia evocar, o especialista nos leva a pensar acerca de duas acepções de “autor” que parecem colocadas em jogo, sendo uma delas referente a um estatuto social e, a outra, uma avaliação independente
de todo estatuto social. Na primeira, alguém cuja produção de textos não seja o essencial da sua atividade, tal como um político, não poderá ser classificado como um “autor”, exceto quando empregado em posição de complemento do nome; na segunda, a
autoria remeteria, naturalmente, àqueles “verdadeiros” autores como correlatos de
“criadores singulares, originais”. Ainda neste segundo caso, Maingueneau retoma o segmento literário para explanar que, quando se trata de se referir a um estatuto social, pode-se compreender o porquê dos autores de textos literários beneficiarem-se de um privilégio, uma vez que “[...] eles se caracterizam pelo fato de que sua atividade deriva unicamente da produção de textos”. Aí, porém, tal como nas definições publicadas pela CBO 2002 a respeito da Família dos Profissionais da Escrita, nota-se que o privilégio se estabeleceria muito mais pela valorização da produção do gênero literário em si do que pela exclusividade da atividade destinada à escrita, posto que o redator de textos técnicos também é um profissional cujo trabalho se articula, unicamente, nesse exercício.
Explicitadas essas ponderações iniciais, nelas é que Maingueneau se apoiará para estabelecer o que designou como “as três dimensões da noção de autor” (2010a, p. 30): o autor-responsável, o autor-ator e o auctor.
O primeiro, como o próprio nome sugere, equivaleria àquele que responde por um texto – o que tanto pode se dar por meio do nome de uma pessoa física quanto de
uma pessoa jurídica (uma agência, uma associação, uma marca, etc.). Neste caso, o próprio anonimato constitutivo da atividade do redator sobre o qual nos debruçamos nos impediria de lhe conferir o estatuto de autor-responsável, haja vista a assinatura dos seus textos pertencer aos contratantes do seu trabalho, que se responsabilizam pelo envio, compartilhamento publicação e/ou divulgação desses textos, independentemente do gênero discursivo ao qual eles pertençam.
Já a segunda dimensão, referente ao autor-ator, diz respeito àquele que organiza a sua existência e gere a sua trajetória em torno da produção textual, sem que, necessariamente, isto corresponda a uma profissão – o que se alinharia, por exemplo, à definição que a CBO 2002 publica acerca das condições gerais de exercício da Família dos Profissionais da Escrita, segundo as quais tais profissionais “trabalham geralmente como autônomos, podendo exercer outras atividades de forma concomitante à escrita”. Neste caso, em particular, Maingueneau (2010a, p. 30) registra, por exemplo, a possibilidade de que, paralelamente ao seu trabalho de engenheiro, alguém publique uma coletânea de poesias, elucidando ainda que tal estatuto varia consideravelmente segundo os lugares, as épocas e os posicionamentos dos interessados, de modo que a palavra “autor” possa entrar em concorrência com outras, como “escritor”, “homem de letras”, “literato”, “artista”, “intelectual”, etc. E, no caso do redator de textos técnicos, a sua classificação como um autor-ator também não se justificaria, em razão da sua atividade não obter na própria publicação o seu objetivo maior, conquanto ela se organize em torno da produção de textos.
Por fim, é sob a rubrica de auctor que Maingueneau apresenta o autor como correlato de uma obra (um “Opus”) que exprime a sua personalidade singular, e não “uma sequência contingente de textos dispersos” – o que melhor representaria a coletânea de todos os textos elaborados pelo redator a que nos reportamos. Nesta última dimensão, numa evidente associação com aquele autor a que Foucault (1969) chamou de “fundador de discursividade”, Maingueneau distingue o auctor efetivo como aquela fonte de autoridade sobre a qual os terceiros comentam, dotada de uma “imagem de autor” e que atinge o estatuto de auctor maior quando o seu prestígio é tamanho que dele se publicam textos originalmente não destinados a ser publicados, como rascunhos, correspondências privadas, diários íntimos, etc. (MAINGUENEAU, 2010a, p. 32)
É, portanto, em face de tais perspectivas que, de acordo com o que já antecipáramos nas Considerações Iniciais, não lograríamos encontrar em nenhuma dessas três dimensões da noção de autor uma articulação possível entre o trabalho
engendrado pelo redator de textos técnicos e aquele desenvolvido por um autor, tomado como um profissional a quem, para além de uma responsabilidade penal (que a esse redator não se adequaria imputar, dado enunciar as vozes de outros locutores), vincular- se-ia certa singularidade na escrita, por meio da qual se poderia, quiçá, identificar a expressão da sua própria natureza subjetiva.
A propósito do que caracteriza a noção de autor-responsável, cumpre destacar ainda as considerações em que Maingueneau (2010a, p. 34) inclui a autoria de uma marca comercial – marca esta assinalada como “[...] uma entidade constituída em torno de um nome próprio e que se coloca como fonte e garantia de um conjunto coerente de textos considerados como a expressão de sua ‘personalidade’, estabilizada por meio de um ethos identificável” – e a autoria do conselheiro político que escreveria muitos dos discursos de Nicolas Sarkozy. Referindo-se à natureza das entidades suscetíveis de serem chamadas de auctoras, o Professor menciona primeiramente a marca comercial a fim de abordar a dificuldade quanto a se tomá-la como uma “autora”. E, pautando-se na premissa de auctor como a instância do autor na condição de correlato de uma obra que exprimiria a sua personalidade singular, o especialista refuta a suscetibilidade a esse tipo de autoria a começar pelo próprio fato de que os empregados responsáveis pela comunicação dessa marca gerenciariam uma imagem independente da sua identidade pessoal, isto sem contar que, via de regra, a produtora efetiva dos textos que propagam uma marca tende a ser uma agência de publicidade. E, precisamente a essa altura, Maingueneau acrescenta:
[...] na verdade, pode-se tratar até de diversas agências, em função de contatos que são regularmente renegociados. Essa agência de publicidade pode utilizar produtores muito diversos para trabalhar na mesma marca. Se não há dúvida de que tal agência pode ser designada como o autor- responsável por tal série de textos publicitários, ela não será, por causa disso, seu auctor (MAINGUENEAU, 2010a, p. 34).
Aqui, não resta dúvida de que nem à marca comercial nem à agência de publicidade se conformariam as premissas que elevam um autor ao estatuto de auctor; todavia, o que sentimos a necessidade de problematizar consiste na constatação de que, se à agência de publicidade caberia a classificação de “autora-responsável”, uma vez que é ela quem responde à marca contratante pela elaboração e entrega dos textos, aos diversos produtores de que ela se utiliza, entre os quais os redatores (lembrando novamente que, de acordo com a CBO 2002, os redatores de textos técnicos também
podem ser referenciados como redatores de textos comerciais), faltaria alguma outra dimensão de autoralidade que, segundo nos parece, também lhes competiria. O mesmo se aplica àqueles profissionais que, entre outros gêneros textuais a que se dedicam, atuam na produção de discursos políticos, e que Maingueneau (2010a, p. 34) registra serem motivo de hesitação entre os jornalistas quando se trata de categorizá-los no exercício da sua função.
Já nas Considerações Iniciais, quando aludimos ao “redator dos discursos do Obama”, assinalamos que, nos Estados Unidos e na França, ele recebe o nome de “ghost writer”; é ele quem efetua as operações mentais e físicas que fazem o discurso possível. No entanto, a exemplo do que ocorre em relação a Henri Guaino, a quem se atribui a redação de muitos dos discursos de Sarkozy (com a ressalva de que ele não é, por assim dizer, um profissional voltado unicamente à produção de textos, tal como o redator), dificilmente poderíamos considerá-lo um “autor-responsável”, já que a responsabilidade por aquilo que profere oralmente ou que assina (no caso do texto escrito) cabe justamente ao político. De todo modo, não seria o caso de se ponderar se, ainda que a dimensão de “autor-responsável” não se lhe aplique (tampouco a instância de “auctor”, cujas características, por si só, não nos permitiriam propor um paralelo minimamente coerente entre um e outro), a um redator que formule discursos políticos e/ou uma série de outros textos a serem assumidos por outros nomes também não se reservasse algum grau de autoralidade? Por que o emprego de “autor” se acomodaria tão somente àquele que responde pelo texto, desprezando aquele que, com efeito, teria efetuado as operações mentais e físicas das quais esse texto resultaria?
Assim é que, sem rejeitar toda a abordagem ricamente empreendida por Maingueneau ‒ e independentemente de ele mesmo qualificá-la como “muito limitada” (MAINGUENEAU, 2010a, p. 46), ‒ mas, antes, ancorando-nos nela como ponto de partida para esta pesquisa, foi que revisamos o nosso objetivo de investigar se à atividade de trabalho do redator de textos técnicos também se ajustaria uma função de “autor” segundo a Análise do Discurso de origem francófona e finalmente passamos às considerações em torno do estilo e dos indícios de autoria elucubrados por Sírio Possenti (2009), que tanto parte dos conceitos elaborados por Foucault (1969) quanto das reflexões de Maingueneau (2010a; 2010b) para redefinir a noção de autoria.