4. EVALUATION OF UNIVERSITY DEPARTMENTS
4.1 UNIVERSITY OF BERGEN
4.1.2 G EOPHYSICAL I NSTITUTE (GFI)
Pensado como forma de aproximar pesquisadores e trabalhadores da atividade de trabalho, o método da autoconfrontação, tal como proposto e desenvolvido pelo linguista Daniel Faïta (VIEIRA; FAÏTA, 2003), é um dispositivo metodológico de análise de situações de trabalho por meio do qual se busca compreender o processo de produção, reflexão e transformação da atividade, de tal forma que, valendo-se de uma sequência de filmagens da atividade de trabalho em plena realização, tomada como o principal suporte das suas observações, ao analista cabe a tarefa de organizar a confrontação dos protagonistas consigo mesmos (autoconfrontação denominada
simples) e/ou com os outros do grupo de atividade a que pertencem (autoconfrontação
cruzada).
Mais especificamente, a autoconfrontação corresponde a um dispositivo metodológico que, mais do que a observação do pesquisador, privilegia a experiência que o próprio trabalhador expressa em palavras, tendo em vista que “[...] é pela linguagem que a pessoa se constrói como sujeito de sua própria ação” e que “[...] somente a linguagem permite a formalização e a recuperação daquilo que sabemos” (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007, p. 182-184) – muito embora nos caiba lembrar que, mesmo num contexto em que possa ser largamente manifestada, essa linguagem permanecerá constitutivamente sujeita a uma série de coerções, bem como que aquele que a articula continuará, obviamente, não sendo capaz de antecipar uma outra série de situações que se incorporará ao trabalho e ao seu exercício, modificando-o constantemente. De todo modo, torna-se imperioso recorrer à linguagem para
34 Conforme será explicitado oportunamente no item 2.1.5, este estudo contemplava, originalmente, a
participação de dois atores sociais. Contudo, por razões que também serão especificadas no referido item, dedicamo-nos à análise da atividade de trabalho de uma única protagonista.
descrever, analisar, compreender o que configura uma atividade, sendo esta uma iniciativa para a qual, muitas vezes, se contaria unicamente com a observação do pesquisador a respeito do trabalho do outro. Todavia – e conforme Faïta oportunamente adverte (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007, p. 185) –, neste caso o pesquisador construiria um ponto de vista externo acerca do seu objeto, ponto de vista este que poderia sofrer a influência de critérios de julgamento próprios, convertendo- se numa análise que relevaria os seus pareceres a respeito de um modo de fazer, mas ainda careceriam de um aprofundamento sobre todos os aspectos que constituem um
modo de fazer sempre muito singularizado e sobre o qual somente aquele que faz poderia lhe dar a saber.
Diante disso, e a despeito do fato de que “[...] só podemos captar o que o outro/trabalhador diz a partir do posicionamento de cada um de nós pesquisadores” (SOUZA-E-SILVA, 2011), Faïta considera:
Esse método – que já utilizei muito – permite dar um passo suplementar, mantendo o posicionamento daquele que vai construir o discurso, que vai tomar a palavra sobre a atividade; ao mesmo tempo estando à distância dessa atividade, mas, por um lado, sem estar verdadeiramente ameaçado por esses critérios exteriores à atividade de trabalho (e que podem induzir julgamentos) ou, por outro lado, sem ceder ao risco de se submeter de novo a esses critérios (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007, p. 185).
É, portanto, desta perspectiva que, dedicando-se a colocar em palavras aquilo que – inicialmente – é do campo de ação, privilegiando as práticas discursivas como modo de acesso à compreensão de uma dada atividade de trabalho (HARRISON; SOUZA-E-SILVA, 2009), o método da autoconfrontação enseja ao trabalhador a possibilidade de se assenhorear das suas expectativas e da sua condição de intervir na realização da própria atividade de trabalho, haja vista que
[...] uma das mais efetivas garantias do método residirá na capacidade de manter o movimento dialógico35 em torno do que os protagonistas enxergam do que eles fazem. O analista-participante busca permanentemente concentrar o debate sobre a atividade. Não se trata de reduzir, de abrandar a expressão, mas ao contrário de discernir, com o máximo de chance de sucesso, as dimensões compostas de significações concretas, feitas de associação de enunciados produzidos e do que revela suas relações efetivas ao que eles referem (VIEIRA; FAÏTA, 2003, p. 35).
35 Acerca das “relações dialógicas”, particularmente, Vieira e Faïta (2003, p. 29) esclarecem se tratar das
noções originárias dos “círculos de Bakhtin”, nas quais se toma o enunciado concreto como “[...] a base do material das análises das situações, de atos e pensamentos humanos, fornecendo às ciências humanas um novo objeto: as relações dialógicas, situadas na fronteira entre discurso e atividade”.
Para que os atores sociais examinem e comentem a sua própria atuação em
situação de trabalho, desde aquilo que devem fazer até a maneira como realmente o fazem, é-lhes apresentada uma sequência de imagens na qual eles próprios aparecem praticando a sua atividade. Por essa razão é que, segundo assinalamos na introdução deste item, o registro em vídeo da atividade é tomado como o principal suporte das observações desse método.
Tanto a autoconfrontação simples (em que o trabalhador se confronta unicamente com o registro da sua própria atividade) quanto a autoconfrontação
cruzada (em que, além da sua respectiva atividade, pares de trabalhadores também apreciam o exercício dos próprios colegas, visando a uma reflexão coletiva sobre o trabalho) se propõem como um “[...] caminho que institui o que chamamos de um espaço-tempo, no qual os protagonistas têm a possibilidade de mobilizar, ou de restabelecer, o seu ‘poder de agir’ em contraponto às ações expostas pelo registro filmado” (VIEIRA; FAÏTA, 2003, p. 29). Para esta pesquisa, no entanto, seguimos com o método da autoconfrontação simples, uma vez que os redatores de textos técnicos que colaborariam com esta pesquisa seriam independentes, no sentido de não pertencerem a um grupo de trabalho e/ou empresa em comum.
Em síntese, as fases alusivas ao método da autoconfrontação simples são três: a primeira diz respeito à constituição de um grupo de análise, na qual o pesquisador deve observar atentamente as situações e os meios profissionais a fim de produzir concepções compartilhadas com os trabalhadores que participarão da sua pesquisa; a segunda é referente à realização da filmagem e, por conseguinte, à edição desse filme, cujo recorte deverá estar de acordo com as necessidades de cada projeto; por fim, a terceira fase corresponde à autoconfrontação propriamente dita, em que cada protagonista assiste à edição do seu respectivo filme e o comenta na presença do pesquisador, sendo que a este último caberá pontuar o discurso do trabalhador e levá- lo à compreensão da observação da atividade realizada como um recurso de acesso à sua atividade real (HARRISON; SOUZA-E-SILVA, 2009). Contudo, não obstante o nosso conhecimento acerca das etapas pertinentes a esse dispositivo, para atender aos nossos propósitos foi necessário repensar a suficiência do principal suporte de observação nele utilizado e, em face dos desafios envolvendo o progresso desta pesquisa, adaptar não apenas o seu principal suporte, como também a aplicação da sua primeira etapa.
2.1.3 Por trás das câmeras: o desafio à captação do trabalho, o desconforto dos