4. EVALUATION OF UNIVERSITY DEPARTMENTS
4.2 UNIVERSITY OF OSLO
4.2.2 N ATURAL H ISTORY M USEUM
Embora a nossa definição inicial quanto ao uso do Translog II como principal suporte à captura das articulações intelectuais empreendidas pelo redator de textos técnicos no pleno exercício da sua atividade, o cenário virtual que deveríamos compatibilizar para praticá-lo demandaria uma alteração na rotina dos próprios atores sociais, ainda que essa rotina estivesse relacionada, exclusivamente, à adesão da interface de um novo programa para a digitação dos seus textos. Ou seja: a esses protagonistas seria necessário interromper temporariamente – apenas durante o período necessário à captura da produção textual de três artigos – a utilização do Word como programa padrão para a escrita dos seus artigos, substituindo-o pelo programa do próprio Translog II, similar ao do Word, mas certamente dotado das suas próprias particularidades.
Testando o Translog II antes de orientar os dois colaboradores desta pesquisa na sua instalação, nós mesmos admitimos certa dificuldade na adaptação a essa mudança, uma vez que também somos usuários do Word para a realização de todas as atividades relacionadas à produção de textos. Além das diferenças de tela, o desafio quanto a identificar (em inglês) os recursos de que necessitávamos para a edição do texto – aos quais recorríamos no Word sabendo exatamente onde localizá-los – impelia-nos ao abandono do software, não bastasse comprometer o tempo dedicado à finalização de um único artigo, dados esses impasses na sua edição.
Assim, tendo em vista que, mesmo com todas as adaptações propostas, a própria aceitação do método da autoconfrontação já gerava algum desconforto nos redatores que aderiram a esta pesquisa, buscamos alternativas para que esse desconforto não fosse ainda mais acentuado a partir da necessidade de “deslocá-los” do uso de um aplicativo para o outro.
Foi, portanto, à procura dessas alternativas que chegamos ao conhecimento do
Spymaster39, um programa desenvolvido pela Syncsoft Softwares, empresa líder no desenvolvimento de aplicativos para monitoramento de PC, focada no desenvolvimento de ferramentas que contribuem para o uso correto e seguro dos recursos de tecnologia da informação (SYNCSOFT, 2015).
Destacando-se pela sua interface amigável e de uso intuitivo, na qual o usuário pode facilmente localizar as opções e as ferramentas de que precisa, o Spymaster promove o monitoramento de diversas ações realizadas no computador, tais como as atividades no Facebook e no Skype, os sites visitados e, de acordo com a sua própria publicidade, todas as teclas que o usuário digita no equipamento – inclusive no Word –, sendo o único cujo sistema não permitiria qualquer perda de dados (SPYMASTER, 2015), conforme se lê no último quadro da ilustração:
Figura 13 – Publicidade do Spymaster a respeito dos monitoramentos que realiza no computador.
Fonte: SPYMASTER, 2015.
39 O nosso agradecimento à indicação de Hélio Ferraz de Oliveira, cuja colaboração nesse sentido foi
Conhecido mais popularmente como um “programa espião”, o Spymaster possui, entre o seu público-alvo, empresários que se interessam por instalá-lo nos computadores utilizados pelos seus funcionários, visando a “monitorar” qual o tempo que, por exemplo, eles despenderiam no acesso a redes sociais, quando se espera que estivessem “concentrados” em assuntos unicamente pertinentes à rotina das suas chamadas “obrigações”. A esse respeito, embora a propaganda do software apele para a possibilidade de que “você veja não só o que os seus filhos e empregados fazem no computador, mas a ordem exata em que eles fazem isso, passo a passo” (SPYMASTER, 2015), a antepenúltima chamada do site apresenta o subtítulo “MONITORAR É ILEGAL?”, admitindo que, embora “[...] a utilização do programa espião para o monitoramento do uso de computadores” seja “[...] cada vez mais comum”, “[...] o monitoramento de conteúdo dos e-mails trocados durante o expediente [...] pode acabar em demissão e ações judiciais movidas por ambas as partes”.
Uma vez instalado, o Spymaster fica completamente invisível, diferentemente do que ocorre quando baixamos um aplicativo “comum”, cujo ícone para acesso é naturalmente disponibilizado na área de trabalho ou na sua barra inferior (a exemplo do Skype), ou salvo em alguma pasta específica (como a pasta de Downloads, etc.). Para acessar o software depois de instalado, seja para a sua configuração ou para a consulta às capturas já realizadas, recebemos a orientação (que o próprio programa nos enviou por e-mail, após efetivarmos a sua assinatura) de pressionar a combinação de teclas “CTRL+ALT+P”, a partir da qual a interface do Spymaster abriria na tela do computador. Sem esse dado, portanto, o usuário cujo computador esteja sendo “monitorado” por um terceiro, responsável pela contratação desse produto da Syncsoft, permanecerá alheio a esse evento.
Outro aspecto que favorece esse monitoramento no computador de terceiros consiste no fato de que, aos empresários ou aos pais que estejam empenhados na descoberta das ações que os seus funcionários ou filhos movimentam no computador e na internet, não é necessário acessar diariamente esses equipamentos: uma das opções oferecidas nas configurações dessa solução é, justamente, o envio de relatórios para o e-mail do próprio interessado. Mais especificamente: concluída a instalação do
Spymaster no computador a ser averiguado, quem a fez não precisa manusear esse objeto pelos próximos seis meses a contar da data da sua ativação, pois disporá da
opção de receber relatórios diários (de hora em hora, se assim desejar) das atividades selecionadas (em suma, de todos os monitoramentos do Facebook e do Skype, das capturas de telas e de teclas, ou somente de um deles – Figura 14). Justifica-se, assim, a sua apresentação como “programa espião”.
Figura 14 – Configurações do Spymaster: opções que podem ser selecionadas para o(s) monitoramento(s) e para o envio de relatórios diários por e-mail.
Fonte: SPYMASTER, 2015.
Para o nosso propósito, portanto, a promessa da captura de todas as teclas digitadas no computador, sem qualquer perda de dados, pareceu-nos uma grande
oportunidade, pois até mesmo aquelas palavras digitadas e imediatamente deletadas durante a produção textual do redator nos dariam “pistas” do seu processo de raciocínio, evidenciando a essência de um trabalho do qual, via de regra, extrai-se somente o resultado já materializado linguisticamente.
Rejeitando o sentido de “espionagem” para privilegiar aquilo a que nos propúnhamos visando, verdadeiramente, a um importante monitoramento, consumamos a primeira assinatura do Spymaster (mediante pagamento) para o nosso próprio experimento durante alguns dias. Nesse período, porém, observamos que, apesar da promessa de captura de absolutamente todas as teclas digitadas – foco do nosso interesse –, nem sempre os relatórios recebidos por e-mail retratavam tudo o que registráramos no Word. E, em contato com a empresa, cujo atendimento não satisfez aos nossos pedidos de esclarecimento, fomos induzidos a crer que a não captura das teclas em sua totalidade poderia ter ocorrido devido a alguma questão bastante pontual, que não saberíamos dizer qual. De todo modo, a grande maioria das palavras digitadas constava nos relatórios, e, tanto por essa razão quanto pela impossibilidade de encontrar uma nova solução compatível, bem como pela urgência de avançarmos nesta etapa de definição da pesquisa, demos continuidade à eleição do
Spymaster como o software aplicado na metodologia desta pesquisa.
Compreendendo não apenas o funcionamento dos resultados apresentados pelo
Spymaster, mas ainda a necessidade de que a sua instalação fosse operada pelo próprio ator social no seu respectivo computador, cuidamos de compartilhar com os dois protagonistas todas as informações que adquiríramos acerca do programa, justificando a sua escolha. Deixamos claro que, remotamente, não teríamos qualquer acesso ao seu equipamento de trabalho, cabendo-nos tão somente o pagamento pela assinatura que seria concedida a cada um deles. Mediante esse pagamento, receberíamos em nosso e-mail um código de ativação para esse software, e o encaminharíamos igualmente por e-mail para cada colaborador. A instalação do produto, assim como a inserção do código de ativação para liberar o seu funcionamento, seriam de responsabilidade dos atores sociais, do mesmo modo como a configuração do programa. Ressaltamos ainda que, conquanto empreendêssemos a assinatura e recebêssemos um código para a ativação do Spymaster, esse código seria de uso exclusivo do computador do redator, visto que cada código só poderia ser ativado uma vez. Ou seja: uma vez aplicado no computador do protagonista, ele não funcionaria em qualquer outro equipamento no qual se tentasse inseri-lo. Logo que o
repassássemos ao participante, esse código se tornaria inútil para qualquer uso futuro que cogitássemos em nosso próprio proveito.
Outro aspecto que deve ser mencionado diz respeito à sua configuração e ao envio dos relatórios. Para a configuração, orientamos40 o redator a selecionar, prioritariamente, a opção “capturar teclas digitadas”. Se possível, vislumbrando que poderíamos tecer uma análise em torno de todo o trabalho de pesquisa investido pelo redator para dar conta de elaborar o seu texto, também sugeríamos a seleção da opção “monitorar sites visitados”. Quanto aos relatórios, dado que todo o uso do Spymaster seria controlado pelo ator social, explicamos que eles deveriam ser enviados diretamente para o seu próprio e-mail e, a partir dele, encaminhados para o nosso. Desta forma, caso o protagonista tivesse, por sua própria motivação, selecionado outra opção de monitoramento ‒ que, por conseguinte, geraria a relação de um relatório específico, como, por exemplo, relativo às suas ações no Facebook ou às ações de outra pessoa com a qual dividisse o acesso ao computador ‒, ele teria a oportunidade de compartilhar conosco somente aquilo que nos competia.
Por fim, também comunicamos aos atores sociais que, conforme já mencionamos, a validade da assinatura do Spymaster se estenderia por seis meses, a contar da data da sua ativação. Logo, concluídas as capturas relacionadas à produção dos três textos que já acordáramos, cada redator poderia decidir entre continuar utilizando o software para fins pessoais no seu próprio computador, ou, então, simplesmente desinstalá-lo.
Quanto à produção dos relatórios, nos quais nós mesmos já não tínhamos contemplado a íntegra de todas as teclas digitadas ao longo de um determinado intervalo de tempo, é preciso antecipar que a dificuldade persistiu. Superadas a necessidade de dispensar a participação de um ator social com o qual já havíamos adiantado a etapa do registro da atividade por meio do Spymaster e a dificuldade enfrentada com a atora social que ficou incomunicável por um período significativo ao andamento desta pesquisa (item 2.1.5), soubemos da protagonista com quem pudemos contar em definitivo ‒ Aline Veingartner ‒ que os relatórios chegavam a apresentar um intervalo de até 10 minutos entre uma captura de teclas e outra. Comparando os registros dos relatórios com o que se lembrava do seu próprio
processo de produção, a redatora notava a ausência de muitos fragmentos, muito embora, em sua esmagadora maioria, eles estivessem ali contemplados.
Cientes desse problema, que contrariava a própria publicidade feita pela
Syncsoft acerca do seu produto, entramos em contato com a empresa para novamente solicitar esclarecimentos. Gostaríamos de saber se haveria um intervalo mínimo ou máximo de tempo entre uma captura de teclas e outra, ou alguma limitação do próprio
software para dar conta do registro de um expressivo número de teclas digitadas no decorrer de um curto período, bem como o porquê de muitos relatórios não serem automaticamente enviados ao e-mail da Aline nos horários especificados por ela durante a configuração do programa. Contudo, as respostas que nos foram dadas seguiram insistindo na ideia de que o Spymaster capturaria, “sem perda de dados”, todas as teclas digitadas no computador e que, quanto aos relatórios, era recomendável que a usuária do produto criasse e-mail num outro provedor.
Como não era nossa intenção criar outros impasses para a redatora, seguimos com o material gerado pelo Spymaster durante a elaboração dos três artigos produzidos por ela e, muito embora a frustração causada pela publicidade em oposição à realidade, acreditamos não ter sofrido grandes prejuízos para a constituição do corpus para a nossa análise.
2.1.5 Os atores da atividade: da gestão de imprevistos à definição de uma única