4. EVALUATION OF UNIVERSITY DEPARTMENTS
4.2 UNIVERSITY OF OSLO
4.2.1 D EPARTMENT OF G EOSCIENCES
Apesar de o próprio método da autoconfrontação atestar que nenhum trabalho é mera execução, tal como já fixou Schwartz (2011), o fato é que, até onde sabemos, a aplicação desse dispositivo metodológico se manteve focada principalmente no estudo de atividades de trabalho que poderíamos classificar como operacionais, a exemplo dos próprios condutores do TGV (Trem de Grande Velocidade) na França, entre os quais essa metodologia foi desenvolvida inicialmente. Já em campo de trabalho de natureza intelectual, obtivemos ciência da mais recente aplicação desse dispositivo no estudo de uma atividade específica, referente ao trabalho de formação de professores surdos (HARRISON; SOUZA-E-SILVA, 2009), em que a utilização da Língua Brasileira de Sinais entre os participantes e as movimentações/interações de interesse da pesquisadora ‒ com destaque para as de natureza gestual/visual ‒ puderam ser capturadas por meio de câmeras.
Para esta pesquisa, entretanto, já na sua concepção verificamos que o uso da sequência de filmagens como principal suporte de observação não nos forneceria o acesso efetivo à prática do redator de textos técnicos em situação de trabalho, uma vez que esta se caracterizaria por corresponder a uma ação essencialmente intelectual, sobre a qual a captura de alguns poucos gestos – tal como a digitação desse protagonista sentado à frente da tela do seu computador – pouco revelaria. Em contrapartida, estimamos que as suas ações empreendidas no computador, sobretudo o passo a passo da elaboração dos seus textos, certamente nos renderiam mais expressivos elementos de análise, tomados como o registro material de um processo criativo por si só não “capturável”.
Partindo dessas ponderações, elaboramos a nossa pesquisa articulando, como primeira adaptação do método da autoconfrontação, uma combinação de suportes para a nossa observação acerca do trabalho realizado pelos nossos atores sociais: paralelamente à câmera filmadora, instalaríamos no computador de cada um deles um
software denominado Translogarítmica-II, que gravaria e estudaria os seus processos de leitura e escrita no equipamento.
O Translog-II, tal como é mais conhecido, foi-nos sugerido como recurso pelos colegas36 do Grupo de Pesquisa Atelier Linguagem e Trabalho durante as primeiras discussões em torno deste estudo, e chegou a ser incluído como suporte para o método da autoconfrontação em outra dissertação37, na qual acabou não se confirmando devido a ajustes no andamento da pesquisa.
Disponibilizado no universo digital, o Translog-II é um dispositivo orientado para o Windows e que possui dois outros programas – um user e um “supervisor” –, cujo funcionamento, neste estudo, ocorreria da seguinte maneira: primeiramente, como “supervisores”, criaríamos um projeto (a exemplo de uma “pasta”) no nosso próprio computador. Na sequência, o nosso ator social o acessaria da sua máquina e passaria a redigir os seus textos dentro do próprio software, que ao final geraria um arquivo contendo todos os dados dos movimentos realizados pelo participante (movimentos relativos ao cursor, às palavras digitadas, às alterações feitas ao longo da digitação, etc.). Além disso, o Translog-II também contaria com um key logger que registraria os sites nos quais o nosso colaborador teria navegado, de modo que, de posse desses materiais, poderíamos passar aos recortes de nosso interesse e, com efeito, ao método da autoconfrontação.
A contar pela nossa própria experiência nessa área, mas sobretudo a depender das particularidades da produção textual desse protagonista que escreve em nome de outras pessoas (físicas ou jurídicas), os nossos recortes poderiam evidenciar, para os seus comentários, os acessos a sites antes e/ou durante a elaboração dos seus conteúdos – bem como de que modo tais acessos poderiam caracterizar ou não ações de pesquisas relativas aos temas a serem tratados –, a natureza desses sites e a sua possível recorrência a alguns mais específicos, determinadas escolhas lexicais e semânticas que poderiam se repetir ao longo da redação e no decorrer de um conjunto de redações – da mesma forma como a possível repetição de marcadores textuais/discursivos –, a agilidade na construção de um certo parágrafo e a demora na conclusão de outro, as abordagens mais frequentemente adotadas, a sua interrupção da escrita para o acompanhamento de assuntos de outra natureza, a quantidade de vezes em que certos termos (ou parágrafos) foram revisados ou “deletados” e quais seriam eles, entre outras possibilidades. Além disso, com a edição da sequência de filmagem,
36 Destacamos a contribuição da colega Tamires Dártora, a quem agradecemos a indicação do recurso. 37 Referimo-nos à dissertação intitulada “O blog e sua inserção na atividade de trabalho”, da colega
poderíamos observar as expressões faciais desse ator social ao longo do seu exercício (a exemplo de expressões de tranquilidade ou de tensão), as formas como ele poderia – em diferentes momentos – acomodar-se na sua cadeira, as pausas para se levantar da sua mesa – ou, por exemplo, para conversar com os colegas (caso esse profissional atuasse dentro de uma empresa), ou para atender a um familiar (caso esse profissional atuasse em sua própria residência) –, a sua consulta ou não a materiais impressos, etc. Ainda que a captura das imagens nos propiciasse elementos secundários, acreditávamos que, associados aos registros extraídos do exercício no computador e comparados às versões finais das suas redações comentados pelo participante, eles poderiam nos oferecer uma análise ainda mais consistente. E, por meio desses levantamentos e das apreciações feitas pelo próprio redator de textos técnicos, bem como por meio da nossa observação desse ator em situação de trabalho e dos conceitos da Análise do Discurso de linha francesa aplicados ao conjunto das suas redações e da sua fala, pretendíamos finalmente depreender o que configura a sua atividade de trabalho (desde as suas normas/prescrições até as renormalizações concretizadas pelo próprio redator mediante os seus usos de si e o seu debate de
normas internas e valores) e lhe conferir alguma visibilidade, verificando ainda de que maneira todos esses aspectos poderiam vir a “se traduzir” num estilo próprio e regular, a partir do qual fosse possível identificar os seus indícios de autoria38.
Todavia, bastou o esclarecimento quanto a essa metodologia da nossa pesquisa para que, apesar do seu interesse pela nossa proposta e até mesmo da sua identificação com a nossa iniciativa, recebêssemos as primeiras recusas dos 19 potenciais participantes com os quais entramos em contato. O desconforto apontado pela utilização de uma câmera colocada sobre a sua mesa de trabalho foi praticamente unânime por parte dos profissionais aos quais estendemos o convite de colaboração a esta pesquisa, sendo que a razão explicitada por um deles corresponde à justificativa da maioria:
“[...] Na verdade, fico um pouco acanhada com isso, até porque desenvolvo meu trabalho na
intimidade da minha casa [...]”.
Nesse sentido, a única exceção quanto ao incômodo referente a um acanhamento pessoal (reproduzindo o termo empregado pela profissional) e/ou ao fato de que se
estaria atuando dentro da própria casa (haja vista que a grande maioria dos redatores de textos técnicos pelos quais nos interessamos era composta por especialistas que desenvolvem trabalhos sob o formato “freelancer” e “home office”) surgiu do gerente de uma empresa especializada em “assessment”. Segundo ele:
“[...] o pedido não foi autorizado por nossa diretoria. O motivo informado é que nossa unidade
por ser responsável pelo desenvolvimento de novos produtos e serviços, além da produção de conteúdo do grupo [nome do grupo] -não podemos autorizar a presença de pessoas que não façam parte da equipe
- instalar programas ou filmar o ambiente, infelizmente não será possível”.
A propósito das duas respostas anteriormente reproduzidas, cumpre-nos ressaltar, além da inquietação tocante à câmera, outra preocupação comum à maior parte dos nossos convidados: a nossa presença física no seu local de trabalho, especialmente por esse local de trabalho geralmente condizer com a sua própria residência – tal como já informamos –, sendo este o motivo pelo qual, não bastasse a nossa eleição por um novo suporte principal, também reconsideramos a primeira etapa para a aplicação do método da autoconfrontação simples.
Assim, uma vez que (i) nenhum dos redatores de textos técnicos aos quais vínhamos nos reportando desenvolvia a sua atividade em conjunto com o outro, que (ii) 17 deles a desempenhavam no espaço privativo do próprio lar e que (iii), em decorrência do nosso exercício profissional nos últimos 11 anos, nós mesmos já dispúnhamos de um conhecimento partilhado com esses trabalhadores, a segunda adaptação do método da autoconfrontação consistiu na substituição da observação desses protagonistas em situação de trabalho por um questionário composto por 9 questões, ao qual aludiremos mais adiante (item 2.1.6). Com essa iniciativa de não os observarmos atuando no seu espaço físico, acreditávamos ter sido capazes de suprimir um dos inconvenientes já manifestados por um número significativo de redatores aos quais visávamos (8) e, mais do que isso, conquistar a adesão daqueles aos quais ainda apresentaríamos o objetivo desta dissertação. Porém, não foi isso o que efetivamente sucedeu.
Considerando que não mais propúnhamos a nossa presença física na residência dos possíveis atores sociais, mantivemos a utilização da câmera filmadora como um suporte complementar ao nosso dispositivo metodológico, mas a menção quanto ao seu uso só serviu para que continuássemos a angariar a desaprovação por parte dos nossos
potenciais protagonistas. Um deles, mediante a nossa argumentação de que poderia ser preferível a filmagem à observação presencial do pesquisador, e que por isso mesmo modificáramos essa primeira fase da metodologia, registrou:
“Entendi [...] Mas, não me sinto à vontade mesmo sendo filmado [...]”.
Apenas posteriormente a tais negativas foi que, a esse respeito, encontramos a seguinte análise de Faïta (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007, p. 186):
[...] as reações podem ser muito diversas. Pode acontecer uma recusa pura e simples. Tomar a imagem de alguém já é difícil, mais difícil ainda é colocá-la diante de seus olhos. É uma verdadeira prova. É compreensível que as pessoas se recusem a se submeter a isso. Algumas se submetem pela metade. [...] Em todo caso, é a demonstração de uma coisa muito importante: não há rigorosamente nada que produza um efeito neutro quando se trabalha com alguém a respeito de seu trabalho, quando se disseca sua própria atividade. [...] É muito importante saber isso.
Já mais esclarecidos acerca dessa “verdadeira prova”, ainda empreendemos novas tentativas juntamente a mais oito profissionais que se classificariam como redatores de textos técnicos; contudo, em nenhuma delas obtivemos êxito. E, em tendo o compromisso de dar continuidade ao desenvolvimento da nossa pesquisa sem mais delongas, concluímos que a desobrigação da filmagem, nossa terceira e última adaptação do método da autoconfrontação, provavelmente nos auxiliaria em relação aos nossos últimos contatos e, o mais importante, sem o comprometimento do material que priorizáramos como base para a nossa análise. Desta forma, ainda que valorizássemos o registro das movimentações dos nossos atores sociais na sua mesa de trabalho, preservaríamos a captura de nosso principal interesse, referente às suas ações no computador.
Desta vez, alcançamos o resultado esperado, e passamos a contar com a colaboração de dois protagonistas, acerca dos quais falaremos no item 2.1.5.
Por fim, é preciso contemplar uma modificação que não configurou uma nova adaptação à nossa metodologia, mas, sim, uma revisão da primeira adaptação que relatamos, concernente à escolha do software por meio do qual extrairíamos a parte material do processo criativo do redator de textos técnicos em situação de trabalho. Isto é, da definição inicial quanto à utilização do Translog II, passamos a uma nova pesquisa
em torno de outros softwares que atendessem mais facilmente ao nosso propósito, e foi então que chegamos ao conhecimento do Spymaster.
No mais, conquanto as adaptações necessárias, seguimos nos referindo a essa metodologia como sendo a da autoconfrontação, uma vez que o propósito da confrontação entre o nosso ator social e a captura do seu modo de fazer o próprio trabalho foi mantido.