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NORWEGIAN WATER RESOURCES AND ENERGY DIRECTORATE (NVE)

5. EVALUATION OF RESEARCH INSTITUTES

5.2 NORWEGIAN WATER RESOURCES AND ENERGY DIRECTORATE (NVE)

Em capítulo intitulado “Indícios de Autoria”, Sírio Possenti (2009b, p. 104) introduz:

Tem-se falado cada vez mais em autoria. De alguma forma, pode-se dizer que os conceitos levados em conta para conferir alguma substância a essa noção ‒ para objetivá-la de alguma forma ‒ têm a ver com os conceitos de locutor (expressão que designa o ‘falante’ enquanto responsável pelo que diz) e com o de singularidade (na medida em que, de algum modo, chama atenção para uma forma um tanto peculiar de o autor estar presente no texto; talvez uma noção revitalizada de estilo fosse aqui necessária). [...]

Na sequência imediata, o Professor da Unicamp (2009b, p. 104) pondera que, embora o conceito de autoria não seja uniformemente empregado e talvez nem tenha sido objetivamente definido, trata-se de uma noção de interesse e talvez ainda “intuitiva”.

Visando a tornar essa noção um pouco objetiva ‒ até mesmo para que pudesse/possa ser criticada ‒, Possenti, a exemplo de Maingueneau (item 3.2.1), também retoma nesse capítulo a clássica questão de Foucault (1969) (a quem correspondia uma noção de autor discursiva e outra noção sobre os autores como “fundadores de discursividades”) para considerar que, em relação ao seu projeto de analisar a autoria em textos escolares, ou já se propunha o declínio dessa discussão ‒ tendo em vista que, ainda que tivessem uma obra, os alunos não seriam por ela avaliados na ocasião de uma prova ‒, ou se descobria aí uma abertura para introduzir no campo uma nova noção de autoria ‒ “[...] nova em relação a essa, de Foucault”, ressalva o linguista (POSSENTI, 2009b, p. 105).

Foi ainda mais particularmente nesse registro de Possenti que, já identificado que nos encontrávamos sobretudo com o seu propósito de ressignificar a noção de

autoria, vislumbramos, sem mais hesitações, a possibilidade de levar a efeito um estudo em que fosse possível engendrar alguma associação teórica entre a autoria e a prática da atividade de trabalho do redator de textos técnicos, numa articulação entre a Análise do Discurso de vertente francesa e a Ergologia. Isto porque, além de, em capítulo anterior (POSSENTI, 2009b, p. 94), o Professor já ter antecipado que o tratamento que Foucault dispensara ao tema deixara completamente em aberto a questão da autoria quando se tratava de outros espaços que não fossem os de uma obra ou de uma discursividade (bem como que esse tratamento poderia apagar a questão em definitivo, somando-se aí o fato de os seguidores de Foucault pensarem que não poderiam contemplar a noção nesses outros espaços), neste capítulo Possenti fora ainda mais enfático quanto ao seu objetivo de descobrir uma abertura ainda inexistente, e foi nesse seu objetivo que logramos o sustento do nosso.

Tal como o aluno que, ainda que tivesse uma obra, não seria por ela avaliado na ocasião de uma prova envolvendo a redação escolar, o redator de textos técnicos não seria avaliado pelo seu contratante a partir de um conjunto de textos ligados ao seu nome (como, por exemplo, na condição de redator-escritor, redator-poeta, etc.), ainda que ele a tivesse. Mesmo que esse profissional da palavra apresentasse esse conjunto de textos em seu próprio nome, independentemente dos critérios aos quais ele atenderia ou

não, a atuação do redator não seria avaliada por esse conjunto, já que não se trata de saber enunciar as suas próprias ideias nem de enunciá-las da posição em que se inscreve, e sim de assumir as demandas textuais alheias, emprestar-lhes a sua própria voz e, para tanto, deslocar-se do seu próprio lugar a fim de assumir outros pontos de vista (ou, ao menos, esforçar-se o máximo possível para fazê-lo). Assim, não fosse a iniciativa de Possenti, poderíamos, talvez, analisar a perspectiva discursiva da atividade de trabalho do redator a partir de elementos de coesão, coerência e, possivelmente, de

estilo, tal como o linguista aventou para si mesmo, no caso de declinar do seu propósito. Contudo, entre encerrar a discussão e descobrir uma brecha para contribuir com uma nova noção de autoria, Possenti se interessou pela segunda alternativa, e esta pesquisa se beneficiou da sua escolha55.

Outro acréscimo que deve ser feito nesse mesmo sentido, do qual também nos beneficiamos e no qual muito nos inspiramos ‒ e que também se efetivou, entre outras contribuições teóricas, a partir dos estudos de Possenti sobre a autoria ‒, corresponde à

obra de Luciana Salgado, intitulada “Ritos genéticos editoriais: autoria e textualização”. Conforme o Professor nos dá a saber, nas suas próprias palavras:

[...] neste lugar que o trabalho de Luciana se liga àquele meu projetinho da época em que nos encontramos pela primeira vez está a qualidade do texto, e os diversos efeitos que ele produz sendo ‘redigido’ assim ou assado’, conforme seu ritmo, a ordem de suas partes, o léxico selecionado mais ou menos conscientemente, etc. (SALGADO, 2011, p. 13).

Para, então, começar a conferir à noção de autoria alguma objetividade, o especialista da Unicamp assegura que, “como condição mínima”, “[...] é impossível pensar na noção de autor sem considerar de alguma forma a noção de singularidade, que, por sua vez, não poderia escapar de uma aproximação ‒ bem feita ‒ com a questão do estilo” (POSSENTI, 2009b, p. 107). Todavia, Possenti tem ciência de que a intenção de conferir objetividade à noção ‒ descritível em traços/indícios ‒ poderia ser

55 Embora aqui não estejamos analisando o discurso de Possenti, achamos oportuno nos valer da sua

assertiva para aplicá-la à escolha que o próprio linguista fez, quanto a descobrir uma brecha para introduzir no campo uma nova noção de autoria, sendo que outra possibilidade seria renunciar a essa questão. A própria escolha do linguista não seria aí “não um ato de liberdade, mas o efeito da sua inscrição”? Lembramos ainda que, para ele, a escolha não pode ser “[...] definida como um gesto que decorre simplesmente de uma avaliação do peso das alternativas por parte de um sujeito autor onisciente e todo-poderoso, livre de qualquer amarra institucional” (POSSENTI, 2009a, p. 93). Ora, para além do universo discursivo, essa noção de escolha não se estenderia à própria atividade humana e de trabalho (tal como ocorreu a Possenti), sendo promovida a partir de um debate de normas e valores, tal como prescreve Schwartz (2011, p. 141) ao assegurar que “nenhuma escolha é o produto do aleatório” e que “toda escolha se dá em nome daquilo que, mais ou menos, é ‘preferível’”?

assimilada, equivocadamente, como uma tentativa de limitá-la à enumeração de traços necessários e suficientes à sua aplicação. Cumpre, portanto, salientar que, a exemplo do próprio Professor, buscaremos nos apropriar de critérios que, embora nos forneçam as condições sobre como identificar a presença do autor nos textos que nos dedicaremos a analisar, não têm qualquer intenção de esgotar possibilidades.

Antes ainda de passarmos em definitivo a esses critérios, é preciso destacar que, à parte as avaliações que podem ‒ e costumam ‒ ser feitas a partir de categorias gramaticais e textuais, a Possenti (2009b, p. 106) interessa a avaliação do texto em

termos discursivos ‒ na verdade, a única avaliação possível para ele. Isto implica,

portanto, que “[...] a questão da qualidade do texto passa necessariamente pela questão da subjetividade” (e, aqui, talvez caiba a retomada de que, apesar da ausência da publicação de informações que embasassem essa definição, a CBO 2002 já antecipara que, a respeito das condições gerais do exercício dos profissionais da escrita e, por extensão, do redator de textos técnicos, o seu trabalho é “[...] intelectual e subjetivo, tanto no conteúdo como na forma de organizá-lo e desenvolvê-lo”) e que passa também pela sua “[...] consequente inserção num quadro histórico ‒ ou seja, num discurso ‒ que lhe dê sentido” (POSSENTI, 2009b, p. 106). Em síntese, a qualidade do texto contemplaria tanto a singularidade quanto a tomada de posição.

Especificamente no que diz respeito à tomada de posição, Possenti (2009b, p. 107) pretende afastar o analista do discurso de “interpretações maléficas” acerca da noção de subjetividade (sendo que a subjetividade não se coaduna aí com a perspectiva da estética romântica), estabelecendo mais precisamente que o analista

[...] pode mostrar, ao mesmo tempo como, assumindo uma posição que é histórica e que representa uma ideologia, um sujeito pode ser ele mesmo, ou seja, não ser igual a outro que esteja na mesma posição ‒ sendo que o que os distingue é exatamente da ordem do como. Ou seja, um certo estilo não é incompatível com a assunção ‒ necessária ‒ de que o sujeito sempre enuncia a partir de posições historicamente dadas num aparelho discursivo institucionalizado e prévio.

Nesse sentido, particularmente, entrevemos outra aproximação possível entre a assertiva de Sírio Possenti e a abordagem ergológica. Isto porque, da mesma forma como o analista pode mostrar como é que, “[...] assumindo uma posição que é histórica e que representa uma ideologia, um sujeito pode ser ele mesmo, ou seja, não ser igual a outro que esteja na mesma posição” (POSSENTI, 2009b, p. 107), o ergólogo pode demonstrar como, (i) assumindo um lugar num aparelho institucionalizado (e, por que

não, ideológico), (ii) compreendendo-se submetido às mesmas condições de produção que os demais, (iii) dispondo dos mesmos recursos disponibilizados ao coletivo para o desempenho da sua tarefa e (iv) orientado pelos mesmos prescritos a respeito do como

fazer, um trabalhador “[...] pode ser ele mesmo, ou seja, não ser igual a outro que esteja

na mesma posição”, tal como preconiza Possenti. (Para Duraffourg (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007, p. 70), “[...] todo ato, mesmo o mais simples, é num primeiro momento um uso de si por si mesmo, e este uso é sempre absolutamente singular. Não existem duas pessoas, não existem dois momentos, para uma mesma pessoa, em que o uso de si por si seja idêntico. [...]”.) Supor o contrário seria, sob o entendimento da AD de origem francófona, admitir um sujeito fadado ao assujeitamento (o que já rejeitamos no item 3.2.2), da mesma forma como, sob o olhar da Ergologia, seria admitir o equívoco quanto à legitimidade da renormalização como um fator universal. Seria, como já registramos anteriormente, admitir que a história se fizesse por si, e não por um incomensurável conjunto de indivíduos em que cada qual empenha na sua atividade o próprio exercício da sua singularidade, não importa o quanto se trate de uma atividade em comum. Conforme Schwartz (2007, p. 255), seria admitir que a pessoa estivesse fora do jogo e, a história, olhada como uma mecânica. Seria, por fim, admitir ainda que os redatores de textos técnicos que partilhassem de uma mesma posição desenvolveriam um mesmo tema de redação de maneira idêntica, sem imprimir ao texto o seu uso de si

mesmo, definido por Duraffourg (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007, p. 70) como o “[...]

uso de seu corpo, de sua inteligência, de sua história, de sua sensibilidade, de seus gostos”.

Ainda a propósito da singularidade e da tomada de posição, Possenti (2009b, p. 107) propõe uma comparação com o que acontece no mundo esportivo:

[...] não está impedida, por exemplo, a relativa improvisação de um jogador de futebol ou de basquete, que, não obstante, segue um esquema de jogo. Um bom técnico e um bom jogador sabem que pode fazer parte do esquema exatamente que determinado atleta esteja autorizado, durante uma partida, a ser ele mesmo, a ousar ‒ e o atleta diferenciado é aquele que sabe quando pode fazer isso. [...]

Sem enveredar pelos pressupostos ergológicos, é possível dizer que, na verdade, no exemplo do excerto anterior, o linguista estaria contemplando o que tange ao debate

de valores e normas internas e à gestão dos usos de si, conquanto não os conhecesse –

atenção para que o analista do discurso não se deixe conduzir por interpretações maléficas acerca das noções de subjetividade e de posicionamento, o especialista da Unicamp estaria em conformidade com a seguinte assertiva de Yves Schwartz (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007, p. 31):

[...] Estamos cegos para aquilo que a pessoa recria da história, alguma coisa do meio no qual ela vive. Mutilamos aquilo que ela traz de contribuição à vida dos homens e das mulheres, porque ela traz uma contribuição, mesmo se ela é minúscula. Nós ficamos cegos para aquilo em que ela é a matriz de transformações possíveis dentro dessa criação permanente. [...]

Yves Schwartz aí se refere ao polo das dramáticas da atividade, às dramáticas

do uso de si, à subjetividade, à singularidade que, Possenti, por sua vez, também vislumbraria e evidenciaria num texto escrito, quando este ultrapassa as exigências de ordem gramatical e textual e revela entidades, ações, eventos e coisas que, efetivamente, têm sentido. E, tanto nos usos de si que distinguirão um e outro trabalhador quanto na

singularidade que permitirá os indícios de uma autoria, estamos nos reportando à “ordem do como”, como bem asseverou Possenti (2009b, p. 107). É o que ‒ para finalizar essa associação ‒, Duraffourg (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007, p. 70, grifos nossos) pode ter resumido bastante satisfatoriamente ao postular o exercício da

singularidade ‒ que, na esfera discursiva, pode corresponder ao fato de que, mesmo

enunciando a partir de posições historicamente dadas num aparelho discursivo institucionalizado e prévio, um sujeito pode ser ele mesmo:

[...] em todo uso de si há uma parte irredutível, não formalizável, que depende da maneira singular de fazer uso deste patrimônio [...] Se trabalhar [...] é sempre aplicar um protocolo, ao mesmo tempo é sempre aplicá-lo de uma maneira singular, diferente daquela do vizinho e mesmo diferente de um momento a outro [...] Isto é a história em construção!

Proposta essa articulação decorrente do alerta dado por Possenti ao analista do discurso (e que, aqui, ganhou/ganha ainda mais evidência para um analista do discurso que seja também ergólogo), passamos, então, ao “como” da elaboração textual que permitirá discriminar textos com autoria de textos sem autoria. Para o Professor (2009b, p. 107-108), é preciso “[...] evitar que certas marcas sejam consideradas automaticamente definidoras da presença ou da ausência de autoria”, dado que marcas não são mais do que indícios de autoria, sendo necessário, portanto, avaliar os indícios, e não simplesmente ler as marcas. E é nesse contexto que o linguista afirma serem

necessárias algumas afirmações mais ou menos categóricas, a começar pela insuficiência de que um texto satisfaça às exigências de ordem gramatical e de ordem textual. Isto porque, conforme ele mesmo, existem textos que, conquanto obedeçam perfeitamente às exigências de ortografia, morfologia e sintaxe, permanecem desprovidos de sentido, do mesmo modo que, conquanto existam textos que obedecem às exigências de coesão e coerência, permanecem desprovidos de qualquer posicionamento ‒ o que não permitiria a sua aproximação daqueles textos já legitimados como bons, nos quais se identifica um “autor”. Por essa razão é que, para o Professor no Departamento de Linguística da Unicamp (2009b, p. 110), “[...] as verdadeiras marcas de autoria são da ordem do discurso, não dos textos ou da gramática”, e “[...] pode-se dizer que alguém se torna autor quando assume (sabendo ou não disso) fundamentalmente algumas atitudes”.

As atitudes (conscientes ou inconscientes) estudadas por Possenti como indícios

de autoria correspondem a, pelo menos, três aspectos essenciais, aos quais nesta pesquisa também nos referimos como critérios para a nossa análise: 1. dar voz a outros

enunciadores; 2. manter distância em relação ao próprio texto; e 3. evitar a mesmice. Em relação ao primeiro aspecto, “dar voz a outros enunciadores”, Possenti (2009b, p. 111) recorre a alguns excertos de um texto escrito por Luís Fernando Veríssimo para demonstrar como, num único parágrafo, o autor introduz não apenas o seu ponto de vista, mas ainda cinco outros pontos de vista que retomam opiniões correntes e se misturam a fim de produzir efeitos de humor ‒ quando, na verdade, Veríssimo poderia ter se limitado a uma única afirmação generalizante. Para o linguista, trata-se de uma estratégia que leva a crer que Veríssimo não estivesse se reportando a qualquer leitor, mas a um coenunciador com traços específicos, com o qual o autor compartilhasse uma cultura em comum. E arremata: “[...] Eis, de fato, dois indícios de autoria: dar voz a outros e incorporar ao texto discursos correntes, fazendo ao mesmo tempo uma aposta a respeito do leitor” (POSSENTI, 2009b, p. 111).

Ainda em relação a “dar voz a outros enunciadores”, o Professor da Unicamp acrescenta a possibilidade de mencionar outros discursos paralelamente a uma avaliação do autor sobre eles, o que tanto pode ser operado de forma mais explícita como por meio de uma aparente neutralidade. Trata-se, portanto, da ordem do como ‒ o que, numa possível aplicação dos pressupostos ergológicos à Análise do Discurso, talvez pudesse contemplar de que forma (o como) a apropriação de diferentes pontos de vista (fosse

para ratificá-los ou refutá-los) movimentaria um debate de valores que, durante a articulação das ideias na elaboração de um texto, revelaria os usos de si.

No que diz respeito ao segundo critério, “manter distância em relação ao próprio texto”, Possenti (2009b, p. 112-113) esclarece:

Locutores/enunciadores constituem-se como autores em boa medida por marcarem sua posição em relação ao que dizem e em relação a seus interlocutores. [...] Também é bastante frequente que enunciadores explicitem em que sentido estão empregando certas palavras, ou que se voltem sobre o que disseram para resumir, retomar, etc. [...] Trata-se, a rigor, de uma exigência do próprio discurso, decorrente do fato de que o sujeito sempre enuncia de uma posição, mas a língua não é um código que sirva a cada posição de forma transparente. [...]

No excerto da Folha de São Paulo analisado por Possenti (2009b, p. 113), o Professor verifica, por exemplo, de que forma Cláudio Weber Abramo e Gabriel Garcia Marques definem certas expressões ou avaliam a linguagem utilizada, sublinhando

intervenções de um autor: “[...] isso é verdadeiro tanto no sentido histórico, na medida

em que não se trata de uma invenção individual, mas também no sentido de

singularidade, de originalidade, na medida em que não se trata de uma intervenção de todos os sujeitos que estão na mesma posição” ‒ o que, numa articulação com a Ergologia, mais uma vez remonta aos usos de si e a Duraffourg (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007, p. 68), para quem “[...] por trás dos gestos os mais simples, há sensibilidade, estratégia, inteligência, todo um saber-fazer” absolutamente único!

Por fim, em relação ao critério “evitar a mesmice”, o Doutor em Linguística retoma o primeiro aspecto ‒ “dar voz a outros enunciadores” ‒ para considerar que, no que diz respeito a “evitar a mesmice”, trata-se de como dar voz aos outros, agregando- se uma coisa à outra.

[...] Em princípio, como regra, pode-se sugerir ‘nada de mesmice’, nada de empregar (se se trata de introduzir outros discursos) apenas o verbo ‘colocar’ ou o menos marcado ‘dizer’. A variação é um indício favorável à autoria. Mas não se trata de variar por variar, de organizar uma lista de verbos dicendi e prometer-se não empregar o mesmo verbo mais de uma vez em cada texto. A variação só é interessante quando obedece a tomadas de posição ou se faz sentido de alguma outra forma [...] (POSSENTI, 2009, p. 114-115).

Por meio de alguns exemplos, entre os quais constam excertos de Nelson Rodrigues, Sírio Possenti (2009b, p. 115-116) demonstra como, por meio dos verbos que os autores utilizam para introduzir as vozes de outros enunciadores, eles os

estariam/estão qualificando. Não se trata, portanto, do emprego de verbos para que as repetições sejam evitadas (ou, exclusivamente, para que as repetições sejam evitadas), mas de uma absoluta adequação ao contexto, que colabora para torná-lo mais denso. Para o linguista, trata-se, afinal de uma intervenção do sujeito, que não deixa ao leitor a tarefa de julgar as posições enunciativas ‒ intervenção esta que, segundo Possenti (2009b, p. 116-117) insiste, não deve ser entendida como sendo automaticamente positiva, pois “[...] é num jogo bastante sutil entre expor-se e retirar-se da cena, deixando espaço para o leitor, que se constrói o bom texto”. Além disso, numa aproximação com a abordagem ergológica, também podemos aventar que, se por um lado a escolha desses verbos configura uma qualificação do autor a respeito das vozes enunciadas, por outro lado é possível que denote também o seu universo de valores, sendo que, para Schwartz (SCHWARTZ; DURRIVE, 2007, p. 71), os valores tanto atravessam o micro da atividade quanto toda a sociedade.

Assim, é em consonância com esses três critérios que, na análise dos artigos redigidos pela nossa atora social, buscaremos identificar esses indícios de autoria que, se para o Professor da Unicamp podem estar presentes em textos escolares, desvelando o estilo/a singularidade e a tomada de posição daqueles que não fazem da produção textual a sua principal atividade, para nós também podem estar presentes ‒ e, quiçá, ainda mais acentuadamente ‒ nas redações produzidas por aqueles que delas extraem a sua principal fonte de remuneração, que a elas podem vir a imprimir os seus próprios valores e que através delas podem vir a exprimir os seus usos de si, deixando emergir, ainda que “enigmaticamente”, o uso do seu corpo, da sua inteligência, da sua história,