5.4 Factors influencing the education about, in and for the environment
5.4.4 Teachers
Brasília isso é mais forte, ou seja, se Brasília corrobora com essa diferença, se mostra mais essa diferença, porque de repente Brasília foi sonhada pra um novo tipo de socialidade... Então, Brasília, ela corrobora com a diferença? Andrade
Olha, eu acho injusto se cobrar isso de Brasília sabe, eu acho que não, é como as outras cidades. O que se frustrou assim, de certa maneira, é que se propõe uma coisa diferente, e que as pessoas mesmo, o sistema econômico não permitiu.
Entrevistado: Nicolas Behr (Poeta)
Carla:
Na sua opinião, Brasília ainda é uma cidade que causa estranhamento? Por que?
Behr:
No meu caso, cada vez menos. Não causa mais tanto. Já causou muito né, quando eu cheguei, que causa de toda a minha produção poética é esse estranhamento. Quer dizer, tudo começou com esse estranhamento, que foi muito grande. Eu vim de uma cidade não planejada, uma cidade assim, que cresceu naturalmente. Cuiabá né. Então eu saí do mato para cair na maquete. Então o estranhamento meu com essa cidade foi muito grande, porque era uma cidade estranha né, artificial, setorizada, autoritária, diferente né... então, a minha poesia ela nasceu dessa tentativa de diálogo com essa cidade para sobreviver a ela e sobreviver nela. Quer dizer, foi uma coisa muito forte né, e a poesia foi uma forma de diminuir esse estranhamento, dialogar com a cidade né, tentar entendê-la, mas ainda me causa estranhamento. Mas cada vez menos, infelizmente, porque a minha poesia vem do estranhamento né, então, do conflito, então... é... eu to... tenho quatro livros sobre Brasília, e o próximo meu chama “Escombros de Brasilíada”, que é o fim de uma... de um jeito de falar de Brasília. Assim, a minha produção poética sobre Brasília eu quero encerrar. Eu quero encerrar... mas é, o jeito que eu comecei a escrever para Brasília eu não quero mais continuar escrevendo desse jeito. Para mim não é que eu disso tudo, porque não existe limite para a criação intelectual, não existe limite para a criação, mas o jeito que eu falo de Brasília, com aqueles versinhos, aqueles poemas, eu não quero mais sabe? Eu quero entrar em crise. To achando que eu to entrando.
Carla:
Mas causa estranhamento ainda para outros, você acha? Behr:
Para muitos, talvez. Mas cada vez menos, também acho que Brasília hoje é uma cidade mais orgânica. Quando eu cheguei aqui a cidade não era arborizada. Eu cheguei em 74, a arborização era muito pequena, né. Quer dizer, a cidade... eu acho que a cidade vai se humanizando cada vez mais, a maquete vai se humanizando com as pessoas, com as árvores, né. A cidade é uma ser orgânico e esse estranhamento é cada vez menor. É cada vez menor, mas ele existe. Brasília é uma cidade diferente, é uma proposta, é uma ideia né, então quer dizer... eu quando eu cheguei aqui foi... isso aqui não é uma cidade, é uma ideia né. Morar dentro de uma ideia. E eu achei estranho e fascinante por outro lado né, eu achei isso fascinante, achei uma oportunidade de falar de uma cidade da qual pouco se falou. Mas esse estranhamento eu acho que eu, se eu chegasse hoje aqui a Brasília com quinze anos, não iria ser... eu não posso afirmar isso tão seguramente, mas eu acho que o impacto não seria tão grande. O estranhamento seria menor.
Carla:
Interessante você falar de uma cidade humana ou desumana, porque existe todo o imaginário no qual Brasília é tida como uma cidade fria e desumana. Eu
quero justamente perguntar se você concorda com essa representação da cidade.
Behr:
Não, não, mas aí eu tenho até um poeminha meu que diz assim: “se Brasília é uma cidade fria eu não sou”. né, quer dizer, o... a proposta modernista ela é muito ousada, ela é muito radical né, de transformar a rua numa super-quadra né, ela tem umas coisas radicais né, mas essa... ela... eu entendo quando as pessoas falam que ela é desumana e tudo, porque ela é uma cidade imposta né, ela foi uma cidade imposta, planejada, o arquiteto quer que você more assim e nós dizemos: não, nós queremos morar assim. Então, eu acho que Brasília há esse eterno conflito entre o que foi planejado e o que as pessoas querem. E logo no país o jeitinho né, que Brasília foi criada. Mas se ela é desumana... não, não. Eu acho que ela é uma proposta nova que ela, ela requer das pessoas muito mais do que uma cidade como outra qualquer, não planejada. Quer dizer, você vir para Brasília ela te exige mais. É uma cidade que exige da pessoa. Exige em todos os sentidos né. Exige uma adaptação, exige um estudo, exige... ela tem essa, essa característica dessa exigência.
Carla:
A escrita Simone de Beauvoir, em sua primeira visita a Brasília, na década de 60, disse que se tratava de uma maquete em tamanho natural e que esta falta de humanidade da cidade saltava aos olhos. Você também fala da maquete. Você diz que Brasília é maquete, é modelo reduzido do nosso fracasso. Agora, hoje, você ainda pensa assim? Você concorda com os dizeres dessa autora? Behr:
Não. ela diz também que Brasília é uma cidade que nunca vai ter alma. Mas aí tem uma coisinha que talvez é... tem uma invejazinha porque Brasília não foi construída nem na Europa, nem nos Estados Unidos, nem no Japão e foi no nosso cerrado. Eu acho que dessa intelectual francesa que veio aqui com Sartre, de carro do Rio de Janeiro né, ela talvez tenha um pingo de inveja assim.... E realmente Brasília, quando foi construída né, quando ela chegou aqui, realmente era uma maquete viva sabe? Era uma maquete viva. Era uma maquete que não tão viva quanto hoje mas... é.. porque tudo começou com uma maquete. Então, eu acho que tirar os tapumes da maquete, ta, humanizar a maquete né... quer dizer... eu acho que Brasília é um modelo a ser melhorado. Eu acho que é um modelo, é uma proposta ta. É um fruto da carta de Atenas, como você sabe, e, e tal. É um modelo a ser melhorado. Mas essa coisa da maquete... porque tudo começou na maquete né. Brasília foi maquete né. Então tem até um poema que eu vou te mostrar ai: “Cidade, Mito, Maquete. Cidade, Mata, Maquete” que eu fiz né. Tudo começou com maquete. E o grande sonho nosso é destruir a maquete. Destruir a maquete no sentido que ela desapareça, aquela cidade não maquete. Que a cidade não seja uma maquete. Porque ela começou assim.
Carla:
E isso ta acontecendo? A maquete ta desaparecendo? Behr:
Ta desaparecendo. As árvores estão fazendo a maquete sumir. Eu quando sobrevôo Brasília ou quando ando pela cidade sabe, quer dizer, eu vejo um poder muito grande na vegetação, nas árvores sabe? E as pessoas também vão intervindo aqui e ali, né, e positivamente, eu acho que tem intervenções positivas que... mas eu acho que o, o... a fôrma é a maquete, então... é... tudo, o objetivo maior é... não é destruir bem ou fazer desaparecer, é humanizar essa maquete, sabe?
Carla:
Um outro imaginário sobre Brasília é que ela é uma cidade que induz ao isolamento, principalmente por causa de sua forma arquitetônica e urbanística. Qual que é a sua opinião sobre este aspecto da cidade?
Behr:
É... Mas a cidade, por um lado, ela isola também. Por um lado ela isola. Mas isola menos porque antes os funcionários públicos do Banco do Brasil trabalhavam no Banco do Brasil, moravam numa quadra do banco do Brasil, iam no clube do Banco do Brasil. Quer dizer né... no início... Hoje, com a venda dos apartamentos funcionais eu acho que isso aí se dispersou. Mas que Brasília é uma cidade ainda um pouco fechada, assim de feudos, eu ainda acho que é. E eu vejo, eu vejo... aí a gente poderia entrar numa discussão... quem é mais feliz? Quem mora numa cidade satélite ou quem mora aqui? Porque eu tenho andado nas cidades satélites e Brasília é o não adensamento né. Aquela coisa porosa, bem porosa né. E eu morei muito tempo em super-quadra, agora moro aqui no lago norte, mas tenho saudade de super-quadra. E eu vejo, é.... que as pessoas querem ficar perto... então, eu vou muito à Taguatinga, vou muito à Ceilandia, vou ao guará, vou sempre ao guará e... sair do meu nichozinho né, e as vezes eu acho que esse... a super-quadra ela isola as pessoas, quer dizer... é um modelo isolador, quer dizer, mas é Brasília é pra ser questionada. Ela foi feita para ser questionada. Brasília é uma tentativa. Brasília é uma pergunta: é bom morar assim? Mas aí eu vejo uma coisa, o exagero que foi em Brasília em áreas verdes e o exagero que foi nas satélites: o adensamento. A dificuldade do equilíbrio. Devia haver um equilíbrio entre o planejamento verde de Brasília, o planejamento paisagístico de Brasília, e um adensamento, quer dizer... Taguatinga, Ceilândia.... tem poucas áreas verdes, sabe? O adensamento assim... adensou mesmo. Lá é aquela coisa: falta do equilíbrio. Lá adensou e aqui pulverizou, né, quer dizer.... é... mas lá podia ter adensado com mais paisagismo. Eu acho que as pessoas são... se conhecem mais lá, tem contato mais lá e interagem muito mais nas cidades satélites, que agora não pode mais chamar de cidades satélites, mas regiões administrativas. Mas eu ainda continuo chamando de cidades satélites, todo mundo continua chamando né. É... eu acho que lá... eu acho que as pessoas... que as pessoas acham que felicidade é poder de compra, muitas vezes né, e não tem nada a ver qualidade de vida com poder de compra né. Então, eu acho que esse modelo de super quadra, eu acho que ele pode ser questionado e deve ser questionado e eu questiono, porque eu acho que ele devia ser um pouco mais adensado, sabe? Sem perder a qualidade do verde. Eu acho que o adensamento.. mas não sei se o adensamento... se é o modelo de prédio, porque Taguatinga não tem tanto prédio... tem mais ruas, com casas... mas eu fico em conflito nisso, sabe? Não tenho ainda uma resposta assim, mas... o brasiliense carece de locais de encontro né, carece...
Essa é a minha pergunta, se esse isolamento não seria por causa da falta dos locais de encontro, principalmente locais públicos? A gente tem clubes privados... mas a falta da praça, a falta da rua, pra pessoa caminhar... será que isso induz ao isolamento?
Behr:
É, mas a cidade começa a reagir. Nós temos aí, por exemplo, um parque ‘Olhos d’agua’ que pegou né, que as pessoas vão sempre lá... as pessoas gostam de se encontrar, gostam de ver gente né? As pessoas... tem um evento aí... os encontros de ‘T-bone’ na 312, que ele fecha a quadra... quer dizer.. eu acho que há uma carência por espaço público, eu acho que toda super-quadra deveria ter um anfiteatro, um pequeno anfiteatro, mas eu não sei se tivesse um anfiteatro se as pessoas desceriam para se congraçarem lá. Mas eu acho que falta realmente um espaço publico mais aberto como todo mundo fala que é a praia, que é um espaço democrático... em Brasília os clubes são fechados, né... isso contribui para o isolamento.
Carla:
Mas a cidade ta reagindo? Está abrasileirando, como você diz? Behr:
É, não envelheceu, abrasileirou-se, está se abrasileirando. Ela vai encontrando seus... ela vai se abrasileirando né, sem perder suas características, eu espero... Carla:
O antropólogo Marc Augé, ele diz que é possível ler a identidade de um lugar. Agora Brasília é uma cidade que recebeu gente de todas as regiões do Brasil. Na sua opinião, o brasiliense hoje, ele já tem uma identidade específica? Será que é possível ler Brasília pela sua identidade?
Behr:
Eu tento ver a parte da identidade cultural. A identidade cultural de Brasília é do contra. Eu acho que ela é basicamente rebelde, do contra, tanto que o maior movimento autóctone que surgiu na cidade foi um movimento de rock. E era um rock rebelde, um rock forte, um rock muito forte né, agressivo, não era “vamos a La praia meu benzinho” né, Quer dizer, eu acredito que essa... que a rebeldia é uma, uma rebeldia... o não à linha, o não à burocracia, o não ao poder, o não à linha reta, o não à setorização. Quer dizer, eu.. eu vejo Brasília muito a... a identidade assim cultural. Não identidade do brasiliense. Eu não sei... porque por outro lado tem o grande sonho de todo mundo que é fazer um concurso público. O que não é nada rebelde. Quer dizer... eu vejo dois tipos de identidades. Uma identidade cultural e uma identidade brasiliense. A identidade cultural ela é rebelde. Rebelde assim.. ela... ela é do contra, ela quer melhorar a maquete mas, por outro lado... porque Brasília não tem pra onde correr, nós somos a capital administrativa. Mas isso me deixa as vezes maio chateado assim, quer dizer, como se o grande ideal olímpico do brasiliense é ser funcionário público, que eu não tenho nada contra, pode ser... cada um faz da sua vida o que quiser, mas, que.... falta do empreendedorismo... todo mundo quer ficar as vezes pendurado em um emprego público e abrir mão da sua vida, dos seus ideais, dos seus sonhos né?
Carla:
Você considera que Brasília tenha sido realmente um sonho dos brasileiros como nação? E, que expectativas o povo brasileiro tinha em relação à nova capital?
Behr:
Olha, Brasília é a ideia mais antiga do Brasil. Quer dizer, começou lá na colônia, passou pelos inconfidentes... essa ideia de interiorização da capital, ela é antiga, muito antiga.
Carla:
Foi sendo construída? Behr:
Foi sendo construída no imaginário.. ela tinha que acontecer, e aconteceu com um homem maravilhoso, que é o JK né, quer dizer, o homem certo na hora certa, né, quer dizer... ela estava um pouco predestinada a acontecer, e o JK ele pegou a coisa muito já mastigada. As pessoas acham que tudo começou com ele, não... quando ele estava lá em Jataí dizendo: “Oh, sim se...” aquele acara o Toninho, o Toniquinho fez a pergunta pra ele, nessa mesma semana tava sendo decidido que o melhor local para fazer a capital era o sítio castanho, o nosso sítio aqui onde nós estamos. Então, é... na mesma semana de Abril, de 56... ele ainda era candidato, não sei... eu sei que é no mês de Abril. Ele era candidato e, então quer dizer... e quando ele chegou a coisa tava bem adiantada né? A coisa tava bem adiantada. Mas eu acho que havia uma predestinação e se.. mas Brasília era pra ser uma cidade administrativa e virou um pólo de desenvolvimento. Eles imaginavam uma cidade pequena, de burocratas e funcionários públicos, tanto que o Lúcio Costa achava que as cidades satélites iam aparecer 10 anos depois né, e apareceram dois anos antes né, quer dizer... então, Brasília é a capital de esperança até hoje. Até hoje, a eterna capital... eu sou migrante, vim pra cá em 74 com a família, e é uma cidade que a migração teve um papel grande né, quer dizer, esse mix, essa mistura né, Brasília é uma mistura, né?
Carla:
E, em relação a esses sonhos, essas expectativas, capital da esperança... será