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5.5 Other Factors

5.5.1 Students’ family background

Behr:

As pessoas acham que Brasília fracassou porque achavam que a linha ia reger a sociedade. Então, isso... criar uma cidade socialista num país capitalista né, deu no que deu né, Brasília, né, quer dizer.... é, é... mas eu acho que muitas vezes as pessoas criaram a expectativa de uma cidade utópica, onde todos vão ser felizes e vão morar... o endereço não vai dizer o estado social né... e, da pessoa né, etc. Mas é... mas ela... os caras, eles não, eles foram generosos demais né? O... bem generosos, o Lúcio Costa, o Oscar Niemeyer, os criadores e não imaginavam.. a bola de cristal deles... eles não imaginavam que a cidade ia explodir como explodiu né, e hoje nós estamos passando, hoje, em 2010, nós estamos passando por um processo muito claro de metropolização né... Brasília metrópole mesmo né? E nós vemos Águas Claras, nós vemos outras pistas, nós vemos em Brasília o processo de metropolização muito violento, muito claro né.

Carla:

Mas nesse sonho que permeava a nação, em relação à construção da nova capital, vinha aí junto atrelado o sonho de uma nova maneira de se sociabilizar?

Behr:

É, vinha, vinha. Mas fracassou né. Essa... eles queriam sair daquela bagunça do Rio de Janeiro né... traziam o Rio de Janeiro como se fosse uma Babilônia né, e criar uma cidade organizada, uma cidade ordeira, uma cidade né... é... eu adoro, o Rio... a cidade que eu mais gosto depois de Brasília é o Rio de Janeiro. Eu gosto desse contraste sabe? Eu gosto daquela... aquela bagunça mesmo né. Mas então, havia essa expectativa né. Mas uma expectativa assim... por isso que eu digo que Brasília foi uma bela tentativa sabe? Foi uma tentativa... foi uma... foi um passo adiante sabe? Foi um passo adiante. Esse... havia essa expectativa, que não aconteceu, porque no mundo real, é... no mundo real nada resiste ao mundo real né, à realidade do mundo real, do mercado, de tudo né.

Carla:

Existe em Brasília uma segregação social que advém do seu próprio traçado urbanístico? Ou seja, Brasília é uma cidade que corrobora para esse acirramento das diferenças sociais?

Behr:

Mas Brasília é o espelho do Brasil, né, também, o Brasil... as pessoas acham que em Recife é diferente ou em São Paulo é diferente ou em Belém é diferente e eu acho que na... lá talvez, é... nessas outras cidades que eu citei, talvez a, a interação entre classe seja maior né, quer dizer.. dentro de um bairro rico de Recife, do lado tem uma favela, ou, ou assim né... mas... eu acho que Brasília é o espelho do Brasil, do nosso modelo econômico, né, então a culpa não é tanto de Brasília. Mas eles tentaram, os primeiros que aqui chegaram, Lúcio Costa, ele tentou aquele coisa né, no mesmo prédio morar o motorista e a secretaria e o ministro né. Quer dizer... e em alguns prédios parece que isso chegou a acontecer, mas logo veio a especulação imobiliária e tudo, e, e segregou... essas pessoas foram... foi construído um bairro pra eles, que era, foi o Cruzeiro né, foi o primeiro bairro a ser construído para os funcionários públicos do segundo ou terceiro escalão pra Brasília, mas... eu acho que essa, essa segregação ai não é culpa tanto de Brasília, mais do nosso modelo econômico né.

Carla:

Agora, várias criticas são dirigidas à Brasília. No entanto, um de seus maiores estigmas parece ter sido o de ilha da fantasia e que você chama de arquipélago da imaginação. Você concorda com essa representação da cidade de Brasília? E em que aspectos Brasília já foi ou é ou essa ilha da fantasia ou esse arquipélago da imaginação?

Behr:

Pra muita gente Brasília ainda é uma ilha da fantasia, pra gente... eu vejo gente que nunca foi à Ceilandia, nunca foi em Taguatinga sabe? Que vai do Lago Sul a asa sul; asa sul, às vezes não vem nem na asa norte e, e, e, vai pra praça dos três

poderes, ou trabalha nos ministérios, quer dizer, pra muita gente é, é uma ilha da fantasia sabe? Pra muita gente né... é... que não interage socialmente com outros segmentos sociais né, e... e Brasília é uma cidade de castas mesmo, por exemplo, no funcionalismo público, a gente vê aí uma faixa do funcionalismo público que é uma aristocracia funcional, que é uma casta mesmo.

Carla:

Em seu livro “Braxília Revisitada” o senhor faz algumas considerações ou críticas sobre Brasília, como por exemplo: Brasília é o fracasso mais bem planejado de todos os tempos; Brasília é a incapacidade do contado afetivo entre a lage e o concreto; Brasília é maquete, modelo reduzido do nosso fracasso. O senhor ainda pensa assim?

Behr:

Isso tudo é uma provocação né, é uma provocação. É, as pessoas é, ficam falando e tal, eu falo, mas eu adoro Brasília sabe? Mas eu acho que o modelo pode ser melhorado, é só isso. É uma tentativa de melhorar o modelo e... porque eu vejo, as vezes, um amor desmedido né e um ódio desmedido. Um amor assim acima de todas as coisas e um ódio assim.. e eu quero fazer um amor crítico, eu quero um amor... digamos... meu amor é difícil né, mas um irascível né, um amor difícil com Brasília né. Mas, eu ainda penso... eu acho que ainda tem muita coisa a ser melhorada, eu acho que vai ser melhorada e aos poucos a gente vai melhorando né, a cidade, mas eu acho que essa crítica é para balançar, para acordar, para chacoalhar. Quer dizer... mas eu sempre digo que eu adoro Brasília e eu tenho um poeminha meu lá que a última coisa que eu quero fazer em Brasília é morrer né... Carla:

Um de seus poemas também diz o seguinte, voltando à questão do planejamento urbanístico e arquitetônico, seu poema diz: Assim nós queremos viver, nós dissemos, assim nós queremos que vocês vivam, disse o arquiteto. Behr:

É esse eterno conflito... Carla:

E hoje eu pergunto pro senhor, a nossa vida é realmente ditada pelo arquiteto, pelo que o arquiteto propôs, ou a população conseguiu driblar a imposição arquitetônica dos arquitetos?

Behr:

Eu acho que esse ‘não’ que Brasília deu ao Oscar Niemeyer que queria botar ali na praça... ali é sintomático, ali é uma coisa histórica que daqui a uns 20 anos o primeiro não que Brasília deu ao Niemeyer de querer construir ali em frente a... entre a rodoviária e aquele fosso da L2 uma grande plataforma né, porque a cidade ficou muito assustada com o que aconteceu ali no Museu da República, quer dizer... opa, opa... outro cimentão? Não.

Carla:

Behr:

Mais concreto, não tem árvore. Eu acho também que ali esse Museu da República ali podia ser um lugar mais humanizado sabe? Logo o Oscar Niemeyer, que é um arquiteto comunista e não sei o que, quer dizer... como que o ser humano ali é, é... não existe né. Mas eu acho que a cidade começa... essa reação ao Niemeyer, ao, àquele negocio lá dos 50 anos que ele queria fazer, que é uma, que é uma... aquele unicórnio dele que é uma imitação lá de moscou, da, da praça aos astronautas Russos, é muito parecido né... pelo menos eu vi uma maquete que ele fez e me mostraram fotos ai de... né, mas a cidade começa a reagir eu acho, a esse autoritarismo...

Carla:

É o que você falou, está reagindo.. é uma forma de driblar? Behr:

Ta reagindo... driblar... reagir e de não receber essa imposição assim da linha que aqui agora aqui assim, quer dizer... eu acho que a luta... essa identidade toda nossa está se formando muito na base do contra sabe? O poder quer isso mas nós queremos isso. O poder quer isso, nós queremos isso. E eu acho que esse embate, nesse embate é que vai se formar a nossa identidade.

Carla:

Então é essa a leitura que você faz de Brasília. Porque isso é o que eu ia te perguntar: o que a cidade comunica para você hoje?

Behr:

Ah, a cidade comunica uma coisa diferente. Uma, uma coisa diferente. Uma cidade é... como é que se diz... diferente no sentido assim: é uma cidade nova, é uma cidade.. tudo o que eu sou eu devo a Brasília. Assim, eu cheguei aqui com 15 anos né, aqui que eu me criei, me fiz, eu tenho raízes muito fortes aqui em Brasília. Raízes profundas aqui em Brasília. O Que que ela significa pra mim? Ah, significa desafio e uma vontade de dialogar com ela e.. e... e dialogar né, dialogar bastante e fazer as pazes com ela sabe? Eu acho que eu... a minha vida assim vai em um processo de fazer as pazes com ela sabe? Uma cidade que me causou muito estranhamento: quem é você? Aquela esfinge né: me decifra ou te devoro. Então, eu acho que o processo é... mas eu, na verdade esse processo ele não pode ser muito rápido, se não acaba. Ele tem que ser um processo longo, duradouro, que não vai ter fim, porque no dia que fizer as pazes com Brasília, definitivas, a minha poesia acaba também sabe? A minha poesia ela é muito fruto desse conflito, que eu tenho, que era muito forte, hoje já tá mais domesticado, a minha relação com Brasília, porque eu vivo a cidade para cima e para baixo né, quer dizer, ocupo os espaços né, então... não causa mais tanto estranhamento, mas ainda há um pouquinho, e eu acho que vai haver sempre né.

Carla:

Em um de seus poemas você pergunta: quando será inaugurada em mim esta cidade? E hoje eu te pergunto: a cidade foi inaugurada em você?