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...por Nicolas Behr

Brasília, a partir do seu projeto modernista, ousado e singular, foi alvo de grandes expectativas. Nicolas Behr sugere que “Brasília é [mesmo] para ser questionada. Ela foi feita pra ser questionada. Brasília é uma tentativa. Brasília é uma pergunta: é bom morar assim?”

Brasília foi também representada, ainda que no imaginário coletivo, de várias maneiras. Aldo Paviani, ao discorrer sobre a rejeição inicial que o país teve com Brasília – e aqui o autor se refere especificamente ao Rio de Janeiro e a São Paulo que eram os centros do poder político e empresarial da época – sugere que vários dos imaginários construídos à época permaneceram no inconsciente coletivo da população, isto é, Brasília ainda hoje é representada por um imaginário que se estabeleceu ao longo dos anos em que sofria grandes rejeições. Nas palavras desse professor: “Então teve muita coisa que ficou: ilha da fantasia, cidade fria, cidade sem esquinas, ficou desumana, ficou em função desse carimbo vigente há quase 50 anos”.

No entanto, interessa-nos agora pensar a Brasília de hoje. Lembramos, portanto, de Castoriadis (1982) quando sugere que é papel das significações

imaginárias prover respostas a indagações do tipo “o que queremos? o que desejamos? o que nos falta?”

Nova missão Cruls: Reencontrar Brasília

(Nicolas Behr)

Podemos perceber que as significações imaginárias são realmente utilizadas para explicar a cidade. Conceição Freitas, por exemplo, ao sugerir ser necessário que haja uma maior coesão entre as Regiões Administrativas do DF, se refere ao Plano Piloto como uma bolha cuja sacralidade ainda é mantida. Nas palavras de Freitas: “Se o brasiliense começar a entender que o Plano Piloto não é essa sacralidade toda que a gente tem que manter guardadinho, que o Plano Piloto tem que fazer parte (...). Se o brasiliense do Plano Piloto, (...) se dispuser a quebrar essa bolha do Plano Piloto...”.

No entanto, a partir dessa imagem fornecida por Freitas, compreendemos que, no que se refere ao Plano Piloto, ele ainda é “guardado” ou mantido de maneira diferenciada. Sérgio Jatobá corrobora essa colocação da cronista quando declara: “o rigor com relação a manter Brasília [Plano Piloto] como uma cidade limpa, do ponto de vista urbano, é muito maior e houve um zelo (...) com relação a isso, por parte até das políticas governamentais, muito maior do que houve nas cidades satélites”.

Nicolas Behr, mesmo se referindo às áreas verdes e ao adensamento do DF, também defende que deveria haver mais equilíbrio entre o Plano e as cidades satélites: “Devia haver um equilíbrio entre o planejamento (...) paisagístico de Brasília e um adensamento... Taguatinga, Ceilândia.... [as satélites] tem poucas áreas verdes. (...) Lá adensou e aqui pulverizou. (...) mas lá podia ter adensado com mais paisagismo”. Behr chega mesmo a sugerir que o Plano Piloto foi elitizado: “virou um espaço de elite (...) privilegiou-se demais a superquadra e privilegiou-se de menos as cidades satélites, quer dizer... faltou o equilíbrio”.

Para esses entrevistados, portanto, o Plano Piloto é um espaço privilegiado. Barbieri, a esse respeito declara: “o ambiente agradável que o Lúcio Costa criou aqui (...) só é acessível pra 15% da população do DF”. Esse cineasta, no entanto, acredita que isso é apenas mais um dos reflexos do Brasil que se espelham na capital federal.

Para a nossa análise, no entanto, vale ressaltar que a falta de equilíbrio no cuidado com as cidades pode ser facilmente percebida. Compreendemos, portanto, que o imaginário criado de uma capital que deveria ser a vitrine do “novo” Brasil ainda busca sua representação no Plano Piloto: um espaço ordeiro, moderno, asséptico e com uma qualidade de vida insuperável. No entanto, o contrário também é verdade, isto é, a capital federal hoje é vitrine também de um Brasil com uma grande desigualdade social e representa, portanto, as grandes contradições que o Brasil carrega.

Ainda no que se refere ao imaginário que tem permeado Brasília desde sua concepção, Ricardo Farret sugere que uma das propostas jogadas no imaginário coletivo para justificar a construção de Brasília era que essa nova capital – do novo Brasil que começava a se libertar de sua colonização – ia conseguir apagar os vestígios da cultura portuguesa que se estabelecera no país. Esse arquiteto define assim sua posição:

Num inconsciente coletivo (...) [existia] essa ideia de que enquanto a cidade estivesse na Costa, ela estaria sempre atrelada a certos valores introduzidos pela colonização portuguesa, e que aqui estava o grande desconhecido, o grande vazio que daria para começar do zero. (...) [mas] era jogar muito nas costas da cidade. A cidade não tinha condições de ela sozinha apagar os vestígios da cultura portuguesa.

Esse mesmo entrevistado sugere que quando os primeiros problemas de cunho espacial começaram a surgir, as soluções governamentais se reportaram à era medieval:

Quando a cidade começou a ser implantada e os problemas começaram a se tornar, vamos colocar entre aspas, “permanentes”, ou seja, favelas... (...) então, quando o governo começou a tirar essa população daí, aí ele construiu a famosa cidade medieval. [o governo] Estabeleceu esse cinturão porque ele começou a jogar... fazer novas cidades satélites a quarenta, cinqüenta quilômetros do Plano Piloto.

O que queremos demonstrar, ao apresentarmos essa fala de Farret, é menos uma reflexão do aspecto segregador da cidade – já que essa temática foi abordada anteriormente – do que destacar a representação da cidade hoje. Assim, entendemos que a cidade se fundou a partir de um imaginário – a igualdade social, a ordem, a vitrine do Brasil etc. – e que na busca de se representar essa imagem, buscou-se soluções em um modelo bastante antigo: o modelo segregador de

socialização. E essa é a imagem do Plano Piloto hoje. Uma imagem que comunica, que espelha e que retrata um país que é permeado por injustiças sociais.

Algumas coisas em Brasília são de dar desgosto Esse nosso complexo de corte, por exemplo Somos sede de nobreza tupiniquim,

endereço da família real

E de seu séquito de nobres e vassalos (...)

um sem-fim de nostalgia da família real portuguesa e dos nossos quase quatro séculos

de experiência nobiliárquica

(Conceição Freitas)

Começamos, portanto, a entender a cidade. Conceição Freitas, ao discorrer sobre os questionamentos que a cidade nos impõe, declara: “todo dia ela [Brasília] me provoca e me faz querer aprender mais sobre ela”. Nicolas Behr, no mesmo viés de pensamento, diz que Brasília, para ele, ainda é uma cidade enigmática. Esse poeta chega mesmo a utilizar a imagem da esfinge de Gizé14 para ilustrar o sentimento que tem para com a cidade: “[Brasília] significa desafio e uma vontade de dialogar com ela (...). Uma cidade que me causou muito estranhamento... quem é você? [é como] aquela esfinge: decifra-me ou te devoro”.

Portanto, diante da pergunta “o que nos falta em Brasília?” muitas coisas poderiam ser ditas: “falta um maior adensamento”, sugere Behr; falta a possibilidade de uma maior convivência entre os diferentes estratos sociais, enfatiza Rômulo; falta calçada, diz Conceição Freitas: “Essa cidade não tem calçadas (...)”; para Farret, “faltam espaços de convergências” e falta também um pouco de caos: “falta às vezes essa desorganização, que eu acho que dá vida também à cidade” etc. No entanto, compreendemos que as imagens usadas para descrever e para refletir sobre a cidade – ou as significações imaginárias, como coloca Castoriadis (1982) – apontam para o desafio de, primeiramente, entender Brasília.

      

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A esfinge de Gizé é considerada a escultura mais enigmática do mundo. Ela está localizada perto da Grande Pirâmide (Quéops), na extremidade do planalto de Gizé, no norte do Egito. Na tragédia de Sófocles, a esfinge surge para impedir que alguém saia ou entre em Tebas, no período em que essa cidade fora assolada por uma peste. A esfinge não é provocadora da peste, ela apenas se direciona aos locais onde surge a peste com a finalidade de postar à entrada da cidade para assim devorar aqueles que não conseguissem decifrar o seu enigma. Disponível em: www.portaldascuriosidades.com/forum/index.php?topic=25645.0. Acesso em: 29 jan. 2011.

No que se refere à ambiência com a cidade, cabe ressaltar ainda que o sentimento que envolve os moradores da cidade é um sentimento ambíguo: “eu diria que eu tenho um caso de amor não resolvido com essa cidade. (...) nesse sentido assim... eu não saio daqui, gosto daqui, mas se você me perguntar ‘ela é completa pra você? ela te completa?’ eu diria que não”, declara Farret; “ela tem milhões de defeitos mas, se você ama, não importa. Pra quem ama, (...) é até uma disposição de querer entender e entendendo você passa a gostar. (...) é sempre uma luta contínua”, sugere Conceição Freitas; “eu aprendi a gostar dela, quer dizer, aprendi a lê-la de fato, a entendê-la, e a amá-la, mesmo com suas mazelas, com seus problemas todos, com toda essa (...) imagem errada da cidade” diz Jatobá; “é difícil amar Brasília... um amor para poucos”, declara Behr.

Assim, nessa busca de averiguar e de delinear o processo da construção identitária desta nova capital, que é tão recheada de imaginários e de representações, entendemos que o brasiliense é, antes de tudo, um questionador desse espaço urbano que foi planejado, mas que também propõe uma série de indagações e dúvidas: “como é morar nesse espaço tão inusitado e tão singular?”

Apresentamos aqui a posição de Neiva (2008), que ao discorrer sobre o processo de transformação vivido pela cidade, declara: “o Distrito Federal (...) presente como “futuro” nos mapas antigos, e Brasília, capital brasileira, (...) vão aparecendo com suas faces em construção, com seus habitantes e suas paisagens que se transformam ao longo do tempo” (p. 167).

É interessante notarmos ainda como Neiva (2008) sugere que o imaginário – que se faz presente na cidade desde seus primórdios – é também um imaginário vivo. Aqui, Neiva se reporta à Freitag quando diz que Brasília foi “cidade imaginária”, criada para ser capital e que mesmo seu projeto continua a ser, em parte, apenas um imaginário já que o plano não se concretizou na íntegra – houve mudanças – mas, principalmente, pelas transformações que os habitantes foram inventando para a cidade. Nesse contexto, Neiva explora a temática do imaginário:

Suas imagens, nomes e limites itinerantes expressam um imaginário também vivo, mesclado e em transformação. (...) Nessas alterações, transformações e apropriações de Brasília por seus moradores e pelos brasileiros que a têm como capital, podemos encontrar pistas desse imaginário sobre Brasília que se expressa quando se pensa nela como “cidade de muitas cidades”, ou associada ao inteiro Distrito Federal que a abriga (NEIVA, 2008, p. 167-168).

Brasília, portanto, se mostra como uma cidade viva, dinâmica, que se transforma ao compasso do tempo. De imaginário invisível – apenas um plano, um sonho ou um devaneio, como aponta Bachelard (2008) – a uma imagem concreta – Brasília, capital federal do Brasil.

Mas o imaginário continua presente na cidade assim como as itinerâncias de suas representações cotidianas: cidade-maquete, ilha da fantasia, cidade sem esquina, um não-lugar.

No entanto, é no (com)partilhamento cotidiano dos que vivem este espaço urbano – com as marcas de um traçado singular – que a cidade se transforma em lugar de vida. Cabe lembrar que, em Augé, nós encontramos o não-lugar como lugar na medida em que a história, as identidades e as relações aí se recompõem. É, em Brasília, que a história acontece e se faz presente, as relações são desenvolvidas e sua identidade vem sendo forjada através dos anos. É o brasiliense ocupando a cidade.