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A materialização do processo comunicacional televisivo pode ser observada como sendo a substância da expressão de sua macronarrativa, sendo representada pelas diferentes linguagens visuais e sonoras utilizadas na construção de sua grade e pela organização e ‘amarração’ dos diversos objetos semióticos que a compõem e garantem a sua coesão textual. Duarte (2004) aponta que:

As empresas televisivas, redes e emissoras, constituem-se em um mercado de discursos que oferece, ao consumo dos telespectadores, objetos semióticos complexos, que se expressam impregnando como substância diferentes linguagens sonoras e visuais: articulam o verbal, o musical, a diferentes sistemas de significação visuais – cenários, iluminação, cores, corpos, vestuário, gestos, expressões faciais, etc. (p. 54)

Portanto, os sistemas de significação visuais – cenários, iluminação, cores, corpos, vestuário, gestos, expressões faciais, grafismo –, mobilizados por meio dos planos (enquadramento de cena, local e personagens), aqui considerados a substância da expressão, contribuem para a mobilização da percepção e a metaforização de objetos que compõem a narrativa estabelecendo a relação de interdependência entre os funtivos substância e forma da expressão.

Para fins de análise da substância de expressão televisiva da TV Câmara, destacaremos os objetos semióticos mais comuns ao texto televisivo: vinhetas, trilhas, videografismo, cenografia, som. Alguns desses elementos são expressos de forma combinada nas vinhetas de programas e, ainda, nas vinhetas da emissora.

O grafismo utilizado pela TV Câmara parece-nos buscar um distanciamento do conceito de espetáculo, próprio da TV comercial. O que denominamos de grafismo ou

20Segundo Greimas e Courtés (2008), será denominado narrador implícito o destinador implícito da enunciação ou da comunicação. Dessa forma, o narrador implícito se diferenciará do narrador explícito no discurso.

graphics em televisão são todos os elementos de design gráficos produzidos para gerar unidade e identidade à emissora, ao Canal Televisivo, aos programas e a todos os objetos semióticos que costuram as micronarrativas garantindo fluência e coesão à grade.

Todo o grafismo utilizado no Canal Televisivo terá como base um conceito identitário vinculado ao discurso que rege a sua macronarrativa, que por sua vez é primeiramente expresso na logomarca da emissora. A logomarca da emissora, que se transformará posteriormente em um elemento dinâmico utilizado pelo Canal Televisivo, é o primeiro traço identitário de onde se originam as demais peças produzidas para a TV Câmara. A logomarca, a imagem primeira, estática, já dita o seu teor identitário.

A marca da TV câmara surge como uma derivação da marca utilizada pelo órgão que foi desenvolvida considerando os traços arquitetônicos do Congresso Nacional, cúpula da Câmara dos Deputados, ou seja, o espaço físico do órgão, contemplando elementos angulosos e curvas próprias dos traços do arquiteto Oscar Niemeyer. A cor verde escura, considerada fria, confere a representação de um tom de sobriedade e seriedade. A logomarca possui apenas uma cor, vazada pelo branco, ou seja, uma opção bem diferente das emissoras comerciais que optam pelo uso de diversas cores e de tons vibrantes, conforme ilustra a Figura 5 a seguir:

Figura 5 – Logomarca TV Câmara.

A logomarca da TV Câmara, assim como em todo processo de construção de uma marca, nasce em forma estática bidimensional e é aplicada a toda identidade visual da emissora. Ao ser apresentada no Canal Televisivo ela ganha elementos próprios do texto televisivo, quais sejam: tridimensionalidade, movimento, sons e textos escritos (que podem ser transformados em locuções). Essa versão dinâmica da marca da emissora irá compor diversas vinhetas que possuem funções específicas dentro da narrativa do Canal Televisivo.

Em geral, as empresas de televisão contam com três versões diferentes do mesmo logo: a versão mais longa abre e fecha a programação, no começo e no final de cada jornada diária; a versão intermediária anuncia o início de um novo programa; finalmente a versão mais breve apenas separa os blocos e anuncia a volta de um programa depois de um break comercial. (MACHADO, 2005, p. 200)

Na TV Câmara, as vinhetas utilizadas fogem um pouco ao padrão daquelas comumente encontradas nas TVs comerciais, ainda demonstrando a intenção de distanciamento do tom de espetáculo utilizado para vender produtos. A TV Câmara trabalha com vinhetas de abertura de programas, vinhetas que anunciam o início de um novo programa, vinhetas que anunciam datas e horários de exibição futura de programas e, ainda, vinhetas institucionais simples.

As variações da logomarca da TV Câmara, bem como as vinhetas de seus programas, mantêm o padrão sóbrio proposto pela emissora. São utilizados recursos gráficos simples, imagens bidimensionais, elementos sonoros suaves, sempre instrumentais, e tons frios e sóbrios de cores, optando-se muito mais por tons análogos em contraposição ao uso de contrates. Ainda, as opções ilustrativas de composição estão sempre ligadas a um conjunto de elementos gráficos que remetem à geometria da arquitetura da capital brasileira. Conforme ilustra a Figura 6 a seguir:

Figura 6 – Vinhetas TV Câmara.

Fonte: TV Câmara.

Verifica-se que tais vinhetas utilizam tipografia padrão para os seus textos e elementos gráficos compostos por traços minimalistas. Em sua maioria, parecem seguir uma estética iconográfica, mas também admitem imagens manipuladas para alcançarem certo grau de simplicidade em sua forma e cores. A logomarca da emissora compõe todas as vinhetas sendo que aquela puramente institucional (4) é utilizada com menor frequência. Os elementos sonoros que arranjam tais vinhetas também mantêm um padrão sóbrio e institucional. As trilhas surgem por meio de composições instrumentais apenas, ou acompanhadas por locuções, em alguns casos.

Além das vinhetas que ‘costuram’ os diversos programas que constituem o seu fluxo, a TV Câmara utiliza vinhetas mais elaboradas (com um número maior de movimentos) na abertura de seus programas. Para ilustrar tais movimentos, congelamos uma sequência de imagens que compõem a abertura de dois de seus principais programas, o Câmara Hoje e Câmara Agora, conforme a Figura 7:

Figura 7 – Vinheta de abertura Câmara Hoje.

Fonte: TV Câmara.

Figura 8 – Vinheta de abertura Câmara Agora.

Fonte: TV Câmara.

Nesses elementos semióticos (Figura 8) também observamos a opção pela utilização de formas gráficas geométricas e minimalistas. A trilha também é instrumental e não há locução. Parte-se, dessa forma, diretamente para a voz do apresentador, ou âncora.

Quanto à cenografia, nos reportando aos programas que formam a base da programação – transmissões ao vivo do plenário e telejornais a elas ancorados –, encontraremos como cenário principal o próprio espaço do plenário, os corredores da Câmara dos Deputados e cenários externos que buscam mostrar o cidadão no seu lugar de fala, no seu cotidiano, ou contextualizar um fato ou problema. Além disso, o estúdio do telejornal, no caso do Câmara Hoje, também é levado em conta na concepção dos cenários. Verifica-se, dessa

forma, três personagens centrais em cena, o parlamentar, o cidadão e o mediador (repórter ou âncora), e em complemento é retratado o problema, como demonstra a Figura 9 a seguir.

Figura 9 – Cenografia TV Câmara.

As imagens também evidenciam as escalas de planos mais utilizadas para compor as cenas. Verificamos nas duas últimas imagens, por exemplo, um plano geral – ou plano de localização, descritivo – que mostra um problema social, nesse caso, o uso de drogas nas ruas e também a utilização de máquina de cartão de crédito no comércio. Parlamentares e âncoras são sempre apresentados em planos de expressão, como ilustra a imagem do telejornal na primeira imagem, enquadrada em plano médio; ou o parlamentar enquadrado em primeiro plano. Temos aqui, então, duas características singulares relacionadas à história central do Canal Televisivo, planos de localização ou descritivos que remetem a um problema ou tema; planos de expressão que denotam as diversas vozes, os diversos pontos de vista. Os planos servem, então, à composição da forma da expressão do Canal Televisivo, sobre a qual passaremos a descrever a seguir.