7. ENDRINGER I TOTAL KAPITAL SOM FØLGE AV MIGRASJONEN
7.3. T RANSFORMASJON AV KAPITAL I MIGRASJONSFORLØPET
Um aspecto importante sobre expertise a ser analisado se refere ao prazer do
expert em se manter enlaçado a um domínio específico. Afinal, não é à toa que ele se dedica
tantos anos a um objeto de conhecimento de modo a sequer se imaginar sem ele. Enfim, o prazer do expert está em quê?
Em relação aos estudos, um dos entrevistados (aquele que não fora estudioso na escola) declarou que não sente prazer algum em estudar, e sim, em saber. “Não [tenho prazer
em estudar, tenho] prazer de saber. Estudar é sempre um sacrifício. Estudar é chato. É mentira, não existe prazer em estudar. O que dá prazer é a compensação do conhecimento, é a aquisição do conhecimento, é a curiosidade, é a possibilidade de antever alguma coisa, é a possibilidade de criar alguma coisa, né? É a percepção que você está na borda do
conhecimento e antevendo e caminhando e arrastando pra uma coisa melhor, de criar coisas melhores. Acho que o vício é de pensar. Acho que o prazer é em pensar. O prazer é um processo da vida em inteligir alguma coisa, isso deve gerar hormônios, isso deve gerar uma sensação de satisfação muito grande. Mas eu acho que o prazer está todo em viver no intelecto, em viver no mundo intelectual. Saber é uma compulsão”.
Estudar é um sacrifício. A fala remete ao juízo do estudo deliberado como algo desprazeroso. De fato, a literatura em expertise dominantemente professa essa ideia (ERICSSON, 1996b; ERICSSON; TESCH-RÖMER; KRAMPE, 1993; GALVÃO, 2000; HALLAM, 1997; SLOBODA et al., 1996; SOSNIAK, 1985, 1990). Se o estudo em si é maçante, aparece, em seguida, subjacente a explicação: o prazer não está em estudar, e sim em saber. A fala remete uma imagem de pulsão de saber em compulsão em saber, segundo ele. Essa pulsão chega a ser vinculada a hormônios, o que pode ser pensado como um prazer que vem do corpo, que vem de dentro. Nota-se interessante essa articulação em relação ao corpo, eis que ele é o meio por onde passa a aprendizagem, desde a mais tenra idade; afinal, os sentimentos e os pensamentos são justamente transmitidos a partir desse corpo e, portanto, o conhecimento também é adquirido e fornecido a partir de dele (LEMOS, 2007). Tudo isso ocorre porque a pulsão é algo entre o físico e o psíquico, ou seja, originada no corpo e desenrolada pelo psiquismo (FREUD, 1905).
Enfim, o estudo – ou a aquisição do conhecimento por meio do estudo – gera prazer e satisfação àqueles que possuem desenvolvida a pulsão de saber. Além do mais, não é possível desconsiderar que, se o objetivo de toda pulsão é a satisfação, o saber é justamente a satisfação que ela busca.
Ademais, há naquela fala um desejo por estar na borda do conhecimento, ou seja, um desejo de saber aquilo que é novo, de antever aquilo que ainda não se sabe, de criar algo que ainda não existe. O trabalho de inteligência se nutre justamente do desejo de conhecer, da insatisfação, da falta, da necessidade de antecipar e de explicar os porquês (FERNÁNDEZ, 2001a). Assim, há neste participante uma necessidade de estar à frente do outros, de buscar a completude que nunca virá, eis que não está satisfeito com aquilo que tem. Precisa mais e por isso é curioso. Há uma falta nítida que precisa ser preenchida, e que nunca será. Essa falta, por conseguinte, é exatamente aquela que possibilita o desejo pela busca, que caracteriza a sua pulsão de saber.
Além disso, mostrou-se clara, novamente, a ineficiência da escola nos idos tempos de Ensino Básico, que não conseguiu despertar nesse aluno a sua curiosidade pelos conteúdos curriculares, diferentemente do que ocorreu na faculdade.
Os outros participantes, por sua vez, não falam em estudo como algo desprazeroso. Pelo contrário, conforme os fragmentos de fala apresentados a seguir, vinculam os estudos a uma grande satisfação. Percebe-se, muitas vezes, que a busca pelo prazer não é guiada por uma obrigação, mas por um desejo (obviamente interno), conduzido por uma ‘curiosidade’, por uma ‘mente tranquila’, por uma ‘vontade de querer aprender’.
“Continuo [estudando muito], por prazer, por curiosidade”.
“Não, em nenhum momento [o estudo foi desprazeroso]. A gente cansa, tal, mas
eu tenho a mente tranquila, eu dou muita risada, conto muita piada. Eu sou um cara feliz”.
“É um prazer [estudar medicina]. É um prazer”.
“Era [estudar era uma coisa gostosa]. Sempre foi. Nunca foi uma coisa
negativa”.
“Durante a cardiologia, durante a clínica, eu estudava, mas não era uma coisa
sofrida, assim, sabe? Não foi sofrido pra mim. Eu estudava por curiosidade, por vontade de querer aprender, né?”
Um dos entrevistados, ainda, especificou o prazer em estudar apenas matérias de seu agrado. “É, é gostoso [estudar], desde que daquilo que eu goste. Eu faço muito aquilo que
eu gosto. Então, óbvio, tem coisas que não são gostosas. Me pergunta se eu vou estudar bioquímica ou alguma coisa assim. Mas aquilo que é direcionado pra minha área, aí é prazeroso.” Outro, mesmo nessas situações pouco agradáveis, coloca-se em uma posição
otimista e positiva em relação ao estudo: “Então sempre que você tem que estudar, tem que
fazer um trabalho, tal, eu vou com alegria, eu faço com prazer e vendo o lado bom das coisas. Mas nunca... Lógico, você vai estudar parasitologia, era uma coisa horrível, mas tinha que estudar, tinha que saber, mas tudo passa, né? As coisas boas infelizmente passam, mas felizmente as coisas ruins também passam”.
Outro participante aponta uma dedicação de cunho profissional que não lhe é a essencial, mas que lhe agrada. “Eu não preciso fazer pesquisa. Pra viver, eu não preciso fazer
pesquisa. Não preciso ficar escrevendo artigo, tentando publicar, orientando aluno, eu não preciso disso. Aí você acaba fazendo porque é um negócio que dá prazer”. Esse entrevistado,
portanto, extrapola as exigências que considera prioritárias e se envolve em algo mais, que também lhe gera prazer. Aliás, apesar dos outros não terem citado explicitamente esse mesmo envolvimento “extra”, é possível inferir que se entrelaçam da mesma maneira com a medicina, justamente porque, pelo disposto em seu curriculum lattes, todos possuem publicações diversas e recentes, bem como desenvolvem pesquisas.
Nesse caso, há referência a um envolvimento maior por prazer, o que está para além de mera atualização. Porém, mesmo essa última também foi citada como algo prazeroso, tal como nos seguintes fragmentos de fala:
“A velocidade do conhecimento é muito grande e, para eu estar nessa posição
que eu to dentro da medicina, se eu não acompanhar isso, a medicina deixa de ter esse prazer pra mim”.
“Eu me mantenho atualizado também porque é um prazer...”
“Continuo [estudando muito]. Não só pela atualização que a profissão exige,
mas por prazer, por curiosidade. Leio todo dia”.
“Sempre [continuo estudando], faz parte e acredito que sempre vou continuar
estudando. Queria estudar mais. Se você fica uma semana sem ler, você está desatualizado.”
“Não estou tratando de estar atualizado, do prazer de estar atualizado, é muito
mais o prazer das novas descobertas, de você entender sob uma perspectiva diferente, de você tentar realmente compreender o que está acontecendo, realmente olhar e entender o que está acontecendo, intervir de forma mais adequada”.
“De prazer, ah, eu acho que sim [prazer pessoal, além da necessidade de
atualização]. Algumas coisas sim. Eu acho assim, mesmo sendo obrigação, de vez em quando, pegar uma coisa nova que tá saindo, ler, se inteirar, principalmente coisa que você não faz, de tecnologia, por exemplo. É de interesse mesmo”.
Nota-se, de fato, que o prazer não está na atualização em si e no estudar propriamente dito, e sim em apreender o conteúdo. Há um prazer pessoal que prevalece à necessidade de atualização. Emerge de novo, então, a noção de estudo vinculado a prazer, a satisfação em saber, em aprender. Parece que o saber em questão é algo sempre para além. Talvez como a linha do horizonte, que se consegue visualizar, mas que de fato nunca se alcança. É interessante perceber que nesse momento do texto eles não falam na relação estudo e saber vinculado a um domínio de conhecimento, como normalmente acontece com experts. Eles falam de estudo em geral, tal como se apresenta nas falas:
“Não é a medicina em si, é pessoal. É um interesse pessoal”.
“É de interesse mesmo. E adoro ler, por exemplo, não medicina. Principalmente
não medicina, adoro ler não medicina”.
“De muitos assuntos [tenho curiosidade]. Não só da medicina”.
“Eu acho que todo o saber resulta em saber que nada sabemos. Então eu leio
Saber sobre o ‘não saber’. Esse participante deu justamente o exemplo de sublimação citada por Nasio (1997): é a curiosidade sublimada em desejo de saber – de saber o que falta, de saber o que não sabe. Ademais, essa fala se refere também à própria definição de inconsciente formulada por Lacan (1964, 1975-76), que é o saber que não se sabe e que nunca será sabido totalmente. Assim, há uma busca constante pelo conhecimento (científico ou psíquico) que nunca é atingido em sua completude, justamente por ser inalcançável. Para Justo (2004), será exatamente a falta de um saber pronto sobre sua existência que lançará o sujeito à caçada desenfreada por conhecimento. Trata-se, segundo o autor, de um não saber que diz respeito não apenas ao mundo externo, mas principalmente, ao seu próprio desejo. Ou seja, a busca é pela compreensão de algo interno. A atividade do expert pode ser considerada como um processo de sublimação de suas pulsões, que descobriu na maneira incessante e particular de lidar com um conhecimento a sua configuração enquanto sujeito (GOMES, 2008).
Além do mais, Gomes (2008) aponta, em conclusão à sua pesquisa, que, por meio do processo de sublimação, o prazer identificado pelos experts é parecido com aquele das relações primordiais do bebê com a mãe, ao buscarem em seu objeto de conhecimento a sua satisfação pessoal. Tal apontamento remete novamente à ideia de que o objeto de desejo é sempre vinculado a algo que nunca será satisfeito completamente, eis que aquela díade primeira jamais voltará a ocorrer para o sujeito faltoso.
Essa busca prazerosa, incessante e insatisfatória pelo saber é tão característica do
expert, que todos os entrevistados declararam que continuam estudando diariamente – até
porque, o estudo deliberado não se refere apenas à aquisição da expertise, e sim também à permanência dela (ANDERSON, 1990; ERICSSON, 2003; ERICSSON; SMITH, 1991; ERICSSON; TESCH-RÖMER; KRAMPE, 1993; KRAMPE; CHARNESS, 2006; KRAMPE; ERICSSON, 1996; WALSH; HERSHEY, 1993).
“Leio todo dia. É raro o dia que não estudo. Não estudo com a mesma
intensidade que eu acho que eu deveria por conta de tempo, de outras atividades, mas eu leio todo dia. O conhecimento hoje tá muito fácil, né, ta muito na sua mão a qualquer momento. Então, todo dia eu tô lendo alguma coisa”.
“Continuo [estudando muito]”.
“Sempre [continuarei estudando]. Faz parte da minha rotina, da minha vida.
Sempre foi assim. Sempre gostei de ler, sempre gostei de estudar”.
“Sempre [continuo estudando], faz parte e acredito que sempre vou continuar
“Não [nunca parei de estudar]”.
“Sim, isso [continuar estudando] faz parte da profissão da gente, né?”
Faz-se relevante esclarecer que a Resolução CNE/CES nº 4, de 7 de novembro de 2001 (BRASIL, 2001), que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina, em seu artigo 4º, entre outros, dispõe que os profissionais médicos devem ser capazes de aprender continuamente, tanto na sua formação, quando na sua prática, o que faz, segundo Marco (2009), que a formação médica seja interminável. Portanto, é necessário reconhecer que a formação durante a graduação é apenas o começo do aprendizado que deverá se desenvolver ao longo de toda a vida do médico (LIMA-GONÇALVES, 2002). Em tese, o próprio interessado em cursar medicina já tem ciência de que terá que estudar ‘para sempre’, embora nem todos, por razões diversas, consigam manter tal interesse, disciplina e dedicação, como os experts.
Assim, o estudo dedicado pelos participantes foge à mera exigência do ofício, pois se percebe claramente que para eles o ato de estudar gera algo que lhes oferece grande prazer, razão pela qual nem cogitam a possibilidade de deixar de fazê-lo – tanto que todos apresentam uma visão enlaçada do estudo de que ele faz e fará sempre parte de sua vida, como componente de seu cotidiano. Esse posicionamento corrobora com a Teoria do Flow, que defende que as pessoas conseguem sustentar durante muitos anos o estudo ou a prática deliberada porque a atividade em si é extremamente compensatória e causadora de grande prazer, ou seja, a atividade é por si só gratificante (LACORTE; GALVÃO, 2007). Evidentemente que isso, segundo Lacorte e Galvão (2007), corresponde justamente à instância necessária ao estudo deliberado capaz de transformar alguém em expert.