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5. INFORMANTENE

5.2. F EM INFORMANTER SOM HAR VÆRT LENGE I H ONG K ONG

Considerando que o ser humano é, por definição, um ser falante (LACAN, 1964), não há constituição do sujeito sem linguagem. A sua entrada no campo da linguagem se refere ao registro de sua possibilidade de se situar frente aos significantes, de sustentar as relações com o Outro, de fazer circular pela linguagem a demanda e o desejo, de reconhecer a demanda e o desejo dos Outros, de perceber o enigma do enunciado de novas significações, além de produzir essas novas significações (JERUSALINSKY, 2008).

Portanto, para explicar o modo pelo qual se constitui o sujeito, é necessário considerar o campo do qual ele é efeito, a saber, o campo da linguagem (ELIA, 2007). Trata- se de uma linguagem não do campo da linguística, mas do campo do inconsciente, sendo ela, segundo Longo (2006), a única possibilidade de subjetividade.

Assim sendo, segundo Lacan (1955-56, 1964), o inconsciente é tecido da linguagem, ou seja, o sujeito do inconsciente – eu(Je) –, constituído conforme suas marcas psíquicas, é formado pela linguagem, sendo a mãe, por seu meio linguajeiro, que o constitui psiquicamente, antes mesmo do nascimento do filho. Isso porque o mundo que lhe acolhe é um mundo de linguagem, em que já falam sobre ele antes mesmo de nascer, em uma família que já possui marcas de sua própria história (BERNARDINO, 2006). O sujeito é, consequentemente, “um ato de resposta, uma resposta dada em ato” (ELIA, 2007, p. 41).

Destarte, a função materna é que introduz a criança no mundo da linguagem (LICHT, 2006), pela postura primeira da mãe em relação ao bebê, fornecendo-lhe as imagens primordiais dele mesmo, dizendo-lhe quem ele é e o que ele está sentindo. Funciona como a sua tradutora, decifrando, inicialmente, os enigmas dele próprio e do mundo (DUPAS, 2008; JUSTO, 2004). Para Bernardino (2006), portanto, o bebê é falado, antes mesmo de falar de si próprio, sendo um sujeito assujeitado à fala (COSTA, T., 2007). Por tal razão, de acordo com Checchinato (2007), é fundamental conversar com o bebê, mesmo que ainda no útero, de modo a lhe enviar contínuas mensagens de afeto, amor e informação. Dessa forma, segundo Sordi (2005), a criança se anuncia a partir do Outro e só posteriormente consegue chegar na forma do eu – por exemplo, primeiramente diz que “Maria quer”, para só depois dizer “eu quero”.

Desse modo, segundo Justo (2004), são as imagens decorrentes da reação da mãe que construirão para o bebê as primeiras representações de suas próprias necessidades, sentimentos e ações. Justo, pois, entender que enquanto não encontra seu próprio sentido, resta-lhe corresponder ao sentido que lhe dão, já que não o herda junto com sua carga genética (BERNARDINO, 2006). Portanto, Vorcaro (1999) afirma que o sujeito não pré-existe à linguagem, sendo essa última, para Prado (1999), condição necessária para a existência do inconsciente. Para a psicanálise, em suma, o eu(Je) se constitui na e pela linguagem, por ser ela a própria trama constituinte do sujeito (COSTA, T., 2007; LACAN, 1998; KUPFER, 2006).

O inconsciente, então, é marcado por um vazio primordial, que vai se enchendo pelas marcas da linguagem e construindo sua cadeia de significantes, que é, como tal, constituinte do sujeito (BERNARDINO, 2006; JUSTO, 2004; LACAN, 1960-61, 1998). Esses significantes, por sua vez, produzem significações que se constroem a partir da articulação com outros significantes que também compõem a cadeia – e, portanto, nunca estão isolados (LACAN, 1998; VIVIANI, 2000).

Considerando que as produções do inconsciente estão sempre referidas a um Outro, bem como cunhadas pela presença desse Outro no discurso (MEDEIROS; MARIOTTO, 2006), não há um inconsciente propriamente individual, pois ele não está nem no indivíduo, nem fora dele, mas exatamente no espaço da relação que se estabelece entre o eu e o Outro (JUSTO, 2004). Tal afirmação explica, porquanto, o porquê de os Outros serem classificados por Lacan (1964) como “tesouro de significantes”.

Contudo, cada sujeito apreende os frutos de seu próprio inconsciente e desenvolve aquilo que Lacan (1972-73) conceituou de lalangue (alíngua), que é a linguagem

individual do próprio sujeito, iniciada do zero e recebida originariamente pela função maternante. É aquela construída a partir do que é escutado por cada um em sua particularidade (OLIVEIRA, E., 2006). É a língua imperfeita do sujeito, que permite que se fale sem nada dizer, dizer o que não se sabe e não dizer senão imperfeitamente o que se sabe (COSTA-MOURA, 2005).

Cabe à criança, então, segundo Bernardino (2006), recalcar as marcas primordiais da linguagem das relações que a marcaram, tornando-as inconscientes, para ter acesso à sua própria fala e poder se tornar dona de sua própria linguagem, de suas palavras. Essas, por conseguinte, outorgam a capacidade da criança de se constituir psiquicamente em um ser de enunciado (discurso do inconsciente) e enunciação (discurso do eu, consciente) (OLIVEIRA, V., 2008).

De todo modo, o sujeito jamais será dono totalmente de suas próprias palavras. Prova disso são os atos falhos – ou parapraxias –, também forma de linguagem, em que uma palavra, uma frase, um pensamento “escapole” não intencionalmente à verbalidade. Para Freud, ato falho é um fenômeno que possui um significado e intenção, apesar de aparentemente involuntário (LONGO, 2006). Lacan (1972-73) corrobora ao afirmar que é um ato de sucesso que permite que a verdade do sujeito se revele, ainda que contra a sua autorização. Não é à toa, pois, que os psicanalistas se interessam pela linguagem, mais precisamente pelo limite em que a linguagem tropeça e a fala derrapa (NASIO, 1993).

Assim sendo, o inconsciente, segundo Garcia-Roza (2004), não é o que se oferece benevolamente a sua escuta, mas o que teima em se ocultar e que se apresenta distorcidamente. Ou seja, há verdades no inconsciente não transpassadas à consciência, a não ser por disfarces (chamadas de formações do inconsciente), tais como os atos falhos, chistes, sonhos, sintomas, associação livre de ideias, o brincar e outros (D’AGORD, 2002; GARCIA- ROZA, 2004; RODRIGUES et al., 2005; VIOLANTE, 2000; VIVIANI, 2000) – o que é permitido inferir que o sujeito não tem acesso a todo o saber presente em seu inconsciente.

Por tal razão, Lacan (1964, 1975-76) afirma que o inconsciente é o saber que não se sabe e que nunca será sabido totalmente. Analogicamente, considerando que ele é uma forma de linguagem, então o saber (que não se sabe) é uma forma de linguagem. Logo, a linguagem pode se dar pelo saber, pela busca pelo saber ou pelo saber que se tem, mas que não se sabe que tem. Isso inclui as expressões escrita, oral e facial, o não dito, o gestual, o desmentido, o silêncio, as entrelinhas e demais formas de comunicação. Dessa forma, o inconsciente é alusivo àquilo que no ser falante resta por dizer, que permanece nas

entrelinhas, no não dito, e não como simploriamente um lugar determinado no interior do aparelho psíquico (JUSTO, 2004).

A verdade, pois, só se funda pelo fato de que a palavra, mesmo mentirosa, a reclama e a suscita (LACAN, 1964). Uma fala constitui, enquanto tal, a verdade do sujeito, ou seja, seu dizer deve ser integrado ao discurso do inconsciente. A palavra é o que opera a transmissão do desejo, não importando a sua função de informação, mas sua função de verdade, de verdade do inconsciente (GARCIA-ROZA, 2004).

Portanto, para se estruturar como sujeito, a criança depende irremediavelmente de um Outro sustentado por um agente de linguagem, personagem que lhe nutrirá o desejo, dirigindo-lhe demandas e propiciando seu desenvolvimento (PETRI, 2008). Dessa combinação, segundo Bernardino (2006), resultará um produto: sua subjetividade, seu próprio desejo.

Isso posto, não há como separar a linguagem formadora do inconsciente do processo epistêmico, pois esse último implica em uma (re)construção de algo anteriormente edificado por Outro sujeito, bem como também implica em (re)construir o conhecimento do outro para si mesmo, tomando-o como seu e articulando-o com suas próprias marcas simbólicas (BENDINI, 2006).

É justamente o não saber inicial do sujeito que propiciará um saber ilimitado a ser construído ao longo de sua história, a partir das construções de linguagem oferecidas pelo Outro. Dessa forma, será justamente a falta de um saber pronto sobre sua existência que o lançará à busca desenfreada do conhecimento (JUSTO, 2004). Trata-se, portanto, segundo Justo (2004), de um não saber que diz respeito não apenas ao mundo externo, mas principalmente, ao seu próprio desejo.

Assim, Jorge (2002, p. 13) afirma, citando a teoria lacaniana, que “toda investigação humana está sempre presa no interior do cinturão criado inarredavelmente pela linguagem”. Essa linguagem, facilitadora do saber, então, não se refere a um mero instrumento de comunicação (KUPFER, 2006), de palavras, mas de construções simboligênicas oferecidas primeiramente pela mãe.

Logo, confirma-se no campo da linguagem também, então, a fundamental importância das funções materna e paterna durante todas as posições vivenciadas pela criança. Dolto (1984), afirmando a importância das sucessivas castrações simbolígenas para o acesso à simbolização, aponta as seguintes: a castração umbilical, que é o nascimento; a castração oral, o desmame; a castração anal, a aquisição da autonomia motora; o espelho, a castração primária, que é a assunção da criança de seu sexo; e a castração edípica, interdito do incesto

(BOUKOBZA, 2006). Portanto, todas essas castrações participantes das fases do desenvolvimento da criança são formas de linguagem tão importantes que deixam marcas indeléveis.

A linguagem é, portanto, o elemento constitutivo fundamental do homem e do seu mundo, haja vista que o sujeito aparece na e pela linguagem, bem como a rede de relações na qual está inserido é, ela própria, também estruturada como linguagem, tal como o inconsciente e assim por diante (JUSTO, 2004).

Em suma, Cesarotto (2007) resume todos os postulados das articulações lacanianas, a saber: 1) o inconsciente está estruturado como uma linguagem; 2) a linguagem é condição do inconsciente; 3) o inconsciente é o discurso do Outro; e 4) o desejo do homem é o desejo do Outro.