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7. ENDRINGER I TOTAL KAPITAL SOM FØLGE AV MIGRASJONEN

8.1. R ETNING FOR VIDERE FORSKNING

8.1.1. Avsluttende kommentar

As figuras parentais assumem um papel fundamental no processo de estruturação do sujeito, cuja influência se dá em termos de funções, não desempenhadas necessariamente pelos pais biológicos, a saber: função materna e função paterna (BORGES, 2005; DEGENSZAJN; ROZ; KOTSUBO, 2000; DOR, 1991; FREUD, 1910b; KUPFER, 2007; JUSTO, 2004; NASIO, 1997; WINNICOTT, 2005). Trata-se, portanto, de funções simbólicas (DOLTO, 1984), em um interjogo de fatores conscientes e inconscientes, e apresentam diferentes significados na constituição do psiquismo da criança (BORGES, 2005).

A função materna é proporcionada por alguém capaz de oferecer alívio às ansiedades, de bonificar os sentimentos ruins, de ser o continente de todos os conteúdos psíquicos introjetados, de oferecer a rêverie, de decodificar e antecipar as necessidades do sujeito e de se adaptar a elas, de introduzir o sujeito no campo da linguagem, de apresentar o objeto bom (seio), de holding e handling e de preparar e auxiliar a instauração da função paterna (DOR, 1991; KLEIN, 1921; WINNICOTT, 1975, 1983, 2005). Essa função “suficientemente boa” se inicia ainda antes do nascimento do bebê e prevalece durante a relação eminentemente dual, típica da posição esquizoparanoide, estabelecendo os vínculos iniciais e estruturantes do bebê que, nesse momento, apresenta-se absolutamente dependente psiquicamente da mãe, e só dela (KLEIN, 1946; WINNICOTT, 1993).

À função paterna cabe possibilitar e potencializar que a mãe seja suficientemente boa, na posição primeira (BORGES, 2005), bem como, posteriormente, assumir as rédeas da situação e cortar o gozo dual, interditando essa díade, oferecendo a lei e inserindo a criança na posição depressiva, caracteristicamente triangular e faltosa (BATTAGLIA, 2007; JUSTO, 2004; TEIXEIRA, 2005). Compete ao pai reapresentar o direito que tem sobre a mulher cobiçada (DOR, 1991), proporcionado a ela o falo ao castrar o então incesto simbólico dela com o bebê. Dessa forma, a entrada do pai e a sublimação desse interesse sexual da criança resultam na forma com que ela se colocará diante do conhecimento (COSTA, R., 2008). Isso porque, afinal, é a função paterna que possibilita o aparecimento do desejo nesse sujeito em constituição (SILVA, J., 2007), o qual engloba o desejo de saber.

Portanto, para fins desta pesquisa, fez-se necessário investigar o papel dessas funções na vida de um sujeito que se tornou expert, eis que a pulsão de saber está diretamente relacionada a elas. Foi possível perceber que todos os entrevistados, de acordo com suas falas, receberam aparentemente as devidas funções paterna e materna, desempenhadas pela mãe, pelo pai ou por seus substitutos.

Um pai, por exemplo, era extremamente pragmático, duro, militar, embora bastante afetuoso com o filho, que se identificava com ele muito mais do que com a mãe, que era afetuosa ao extremo – tanto que ele podia sempre contar com o carinho dela, mas, em compensação, nunca conseguia desenvolver uma conversa com ela baseada em acordo ou negociação, justamente por ela ser emotiva em excesso. “O imigrante, pelo que eu pude

observar, em outros, ele tem uma preocupação muito grande com a probidade, se vai ter dinheiro, se vai pagar suas contas, como é que você vai viver. São muito pragmáticos, né? São muito duros, né? E meu pai tinha esse perfil. Meu pai era um homem muito duro. Era um homem brilhante, era um homem que era muito admirável, muito inteligente, mas muito duro, extremamente duro, né? Então... Então eu tive uma educação com esse formato. Meu pai, além de duro, assim, era militar, né? Ele teve a formação de militar. Então era essa mistura [...]. Minha mãe era só coração. Isso até que causou uma rejeição em mim porque eu gostava mais do caminho pragmático. Porque a vantagem da pessoa afetuosa é você contar sempre com o carinho. E a desvantagem é que você nunca vai ter papo, né? Nunca tem acordo, papo. Nunca tem. Nunca tem negociações. Então... Meu pai faleceu muito cedo, mas eu era muito mais apegado ao pai. Me identificava muito mais com ele do que com minha mãe. Com certeza. Então depois da morte do meu pai, acho que eu terminei virando o adulto de casa, com doze anos. Foi um acidente de automóvel. Então eu terminei assumindo um pouco o papel do pragmático, do prático em casa porque a mãe não tinha esse perfil”.

Esse entrevistado parece ter assumido o papel firme do pai, em razão de seu falecimento precoce. Ainda com doze anos, precisou desempenhar atitudes objetivas para balancear a característica emocional predominante da mãe. Ele, inclusive, exalando esses restos paternais, foi o participante que tinha uma missão clara e objetiva com a medicina, à época da escolha: “ganhar dinheiro”, tal como aprendera com o pai pragmático descendente de imigrantes. Nessa família, então, o pai desempenhou a função paterna, com toda a sua objetividade, enquanto a mãe lhe oferecia o caminho do afeto, típico da subjetividade da maternagem.

Segundo outro participante, o pai – o fiscalizador – era mais carinhoso, brincalhão, e a mãe era mais reservada e mais distante, mais rígida. “Minha mãe sempre foi

mais tranquila. Ela era um pouco rígida, mas ela sempre levou mais solto, comparada com o pai. O meu pai não é bravo, assim, mas ele é fiscalizador. Meu pai sempre foi um cara que brincava com a gente o tempo todo. A gente brincava de lutar, de fazer pipa junto, jogar bola de gude junto. Ele ia sair pra jogar futebol e levava a gente. Meu pai sempre foi muito aberto, assim, de brincar. Cobrava, na hora de cobrar, mas brincava. Podia ficar bravo agora e amanhã já tava brincando com a gente normal. Minha mãe, um pouco menos. Ela brincava pouco e não falava muito, tal. Mantinha uma coisa um pouco mais distante. [...] Ela não tinha nem um pouquinho de pena. Nem um pouquinho. Se bobeasse, o meu pai tirava e a mãe colocava de volta [do castigo]. Era bem rígido em casa”. Nesse caso, é possível que a

função paterna de apresentar normas e limites estivesse com a mãe e com o pai, enquanto somente ao pai – mais explicitamente – talvez coubesse a função materna que se desenvolveu pelo carinho da brincadeira e pela presença mais ativa.

Outro entrevistado, em consequência das excessivas ausências do pai trabalhador, acabou recebendo de seu avô paterno essa função, enquanto a mãe e a avó materna desempenhavam positivamente a função materna, sendo carinhosas e protetoras. Essa influência dos avós lhe foram tão importantes, que ele considera ter tido “dois pais e duas mães”. “Não é que o papai era bravo, a gente tinha pouco contato. O papai chegava tarde,

mas era na dele. Ele falava mais forte. Não é que ele era bravo. O jeito dele era bravo. Mas ele era carinhoso, era tranquilo, tal. Mas talvez por ter tido um pouco de... de não ter tido tanta presença paterna. Não, coitado, ele não tinha como. Trabalhava de manhã, à tarde e à noite. Mas nunca deixou faltar nada. Mas talvez isso eu sinta um pouco de falta pra conversar como amigo, pra trocar umas ideias, umas informações. Talvez isso tivesse um pouco em falta. Mas quem supria muito essa falta talvez paterna era o meu avô. Era pai dele, era pai dele. Eu me dava melhor com o meu avô do que ele com o pai. E ele sempre brigava.

E com ele [o avô] ia ao cinema, com meu pai eu nunca fui em cinema. Com ele eu sempre viajava. Com meu pai a gente sempre viajava no fim de semana pro sítio, mas com ele ia pra o Rio de Janeiro, eu fui de avião pela primeira vez. Então é uma coisa que ele conseguiu suprir muitas vezes talvez da ausência do meu pai. Nunca vi meu pai sentado, brincando de joguinho, em festa de criança, você entendeu? Mas, em compensação, eu tive essa sorte porque eu tive um avô que funcionou nessa parte de pai, que era o pai dele. Então eu me dava super bem com os dois, mas os dois sempre brigavam. Eu agradeço a Deus porque eu tive dois pais e duas mães, que eram minhas avós e meus avôs, então isso foi muito gratificante”.

A ausência desse pai, inclusive, tenta ser justificada em razão de seu trabalho: ‘ele trabalhava muito e, por tal razão, nunca deixou de faltar nada’, ‘coitado, ele não tinha como’. Fica implícita a necessidade de afirmação do entrevistado em perceber que a ausência do pai era em função dos filhos, para lhes proporcionar o melhor. Contudo, apesar dessa justificativa formal, a ausência não deixa de ser marcante. Tanto assim, que houve uma procura por alguém que lhe oferecesse a tal função paterna que lhe faltava, o contato paterno, a possibilidade de viajar de avião e de ir ao cinema. Para Dor (1991), é possível sim um substituto desempenhar uma função parental de qualidade no caso da ausência de um dos pais. Frisa-se, porém, que esse avô não desempenhou totalmente a função paterna, eis que o pai também o fazia, apesar da ausência excessiva. O avô apenas (e não somente) serviu para cobrir as hiâncias deixadas pelo pai.

A mãe dele, por sua vez, pareceu não falhar em absoluto na sua função materna, inclusive porque contou com a participação saudável também de sua própria mãe. “A minha

mãe era carinho. A mamãe era sempre a protetora. A minha mãe sempre olha o lado bom das coisas. Ela nunca olha o lado negativo. Ele pode pegar o pior bandido, que ela vai ver o lado bom do cara. É impressionante. A humildade, eu aprendi com a mãe, assim como ajudar as pessoas. A minha mãe agora ta voluntária no hospital, em favela. Eu tive o exemplo e a influência dela. Ela tem dó de todo mundo. Na verdade, eu tive duas mães. Eu tive uma mãe e a minha avó que morava no apartamento do lado. Então, eu cresci com elas duas, e elas são super protetoras, sabe, pessoas boas, carinhosas. Então, o ambiente familiar era super tranquilo. Tive infância maravilhosa”. Com dois pais e duas mães, que se complementavam,

é fácil entender a razão disso.

Esse entrevistado, ainda, procurou enfatizar a necessidade de ‘ajudar as pessoas’, destacando a própria formação que recebera de sua mãe solidária. Na verdade, para Andrade (2004), a medicina é e sempre será sentimento e arte. Sentimento porque nasce do

indissociável compromisso de solidariedade com o homem; e arte, porque aflora da sensação de que o conhecimento científico não encerra em si toda a natureza do ofício. Portanto, para o autor, a medicina transcende ao óbvio tecnicismo, por ser um sonho de transformação – e a ajuda ao próximo é capaz de transformar.

De acordo com a fala de outro participante, o pai era bravo, mas não era autoritário. “O bravo era o meu pai. Ele era talvez o bravo, assim. Apanhei. Isso eu me

lembro de apanhar. Eu, meu irmão. Meu pai já bateu. Bateu mais no irmão, em mim diminuiu e nas minhas irmãs não bateu mais. Não guardei, eu acho, ao longo da vida, enquanto o pai foi vivo também, nenhuma lembrança ruim disso. Quando eu lembro do que aconteceu, eu respeitei que aquilo talvez tivesse que ter acontecido. Era a forma que ele tinha de tentar corrigir. Autoritarismo não tinha. Ele era o líder da casa. Minha mãe respeitava ele assim. Todos nós respeitávamos. Mas ele não precisa gritar com a gente pra gente saber que aquilo... né? A gente tinha medo do meu pai, eu tinha medo. Tinha medo também de fazer as coisas erradas. Ele não era de fazer ameaças. Ele era mais bravo, sim”.

A mãe desse entrevistado “também era brava”, e, segundo ele, seguindo a sua tradição árabe, “ela não era a cabeça, mas o pescoço”, pois “fazia meu pai ir para onde ele

tinha que ir”, o que demonstra um casal em sintonia. “Eu acho, sinceramente, que nenhum dos dois era carinhoso nas suas expressões táteis, nas suas expressões de fala. Eu acho que eles tinham um carinho, eu acho que eles tinham um amor, que transcendia a isso. Isso a gente sentia. Mas, por exemplo, se você me perguntar se o meu pai ia lá me beijar na cama, não. Minha mãe não fazia. Você entendeu? Não, de jeito nenhum [deixava de sentir o carinho deles]. A proteção, você entendeu? O respeito aos filhos”.

O pai desse participante, portanto, era o líder da casa e por isso respeitado, inclusive por sua mãe, que também impunha limites. Parecia ser o dono das balizas, das normas e das regras, apesar de não precisar apelar aos gritos. Entretanto, embora o discurso tenha negado o autoritarismo, apresentou referência ao medo em relação ao pai e, ao mesmo tempo, a uma necessidade de entendê-lo e de justificá-lo. Talvez houvesse uma obediência paterna conquistada, sim, por meio do autoritarismo – tanto que desenvolveu o medo –, mas, mesmo assim, esse autoritarismo não impediu que a lei paterna fosse internalizada a ponto de conquistar o respeito pelo pai, que inclui defender suas atitudes. Frisa-se, no entanto, que a braveza de ambos não excluía o carinho que sentiam pelos filhos, o qual, certamente, era demonstrado de outros meios, ainda que implícitos. Assim, apesar de não haver beijo na cama, o filho parecia receber essa mesma mensagem de afeto de outras formas.

Outro participante também citou a braveza do pai. “O pai [era o bravo]. Eu

apanhei muito. O pai era muito bravo, muito mais do que você pensar. Nossa [tinha a questão da autoridade]. Meu pai era fora do comum, eu acho. Era muito, os três [filhos] acham. A gente apanhava muito, de varinha. Sabe o que é varinha? Revoltado... Tinha [motivo] também, é óbvio, né? Eu taquei fogo no cinema, eu fiz algumas coisas assim”. Há

uma indicação de que a braveza do pai era exagerada, embora, em determinados momentos, justificada. Mais uma vez aparece no discurso uma necessidade de entender as atitudes paternas, mesmo aquelas que trazem sentimentos ambivalentes, como a revolta. A mãe, em contrapartida, era “mais calorosa, mais carinhosa, mais presente”.

Vale destacar que pai bravo não é função paterna na medida em que ele se apresente como onipresente e invasivo (SANTI, 2004). Afinal, não é por braveza que a lei estruturante ocorrerá. É papel da função paterna sim impor limites e normas sociais e psíquicas, mas sem tirania. Segundo Costa, R. (2008), “a função paterna, muito antes de autoritária, deve sustentar a lei do desejo”. Cabe, portanto, aqui, analisar o grau de braveza recebida pelos entrevistados. Ora, houve tirania? Se houvesse, não haveria função paterna satisfatória, e eles não seriam experts. Pode-se intuir, então, que os pais bravos eram autoridades, não autoritários.

Em síntese, apesar da braveza declarada por alguns, foi possível notar que todos os entrevistados foram marcados claramente pela função paterna e materna que receberam e que foi, aparentemente, bem sucedida. Isso implica dizer que todos entraram no campo triangular do desejo, que possibilita o saber, ou seja, saíram do gozo que, segundo Vidal E. (1999) e Vidal M. (1999), exclui o saber. Todos eles, portanto, tiveram despertada a curiosidade epistemofílica à época oportuna da infância, em razão da falta gerada pela castração, a qual, para Costa, R. (2008), possui profunda relação com o desejo de saber.