da monstruosidade que lhe merece respeito porque partilhada:
“À lembrança de que Roão Rebolão não ficara ali senão para o espiar, para não perder qualquer oportunidade que porventura se lhe oferecesse de o surpreender, um violento referver de raiva cachoou dentro do nosso príncipe: Leonel sabia agora que desde sempre o monstro pressentira nele um mistério vergonhoso — farejara nele aquela sua ou qualquer outra monstruosidade que os irmanava — isto quando toda a gente o julgava a própria perfeição encarnada… e ele próprio se julgava tal.”239
“— Pois amor é que é! — gritou Roão Rebolão, chegando ofegante — Mas quem pode amar um ser perfeito? Há algum ser humano perfeito? Ou não é humano, ou é um simulador… Detesto!, detesto a tua falsa perfeição…
— Quem te diz que é falsa?
— Os monstros adivinham-se uns aos outros!”240
“Froilão”, ironicamente referencializado também como “o ilustre Froilão”241, figura
como um elemento da corte claramente caracterizado pela sua devassidão. Representa, por conseguinte, uma personagem que não é detentora do melhor perfil para ser o aio do príncipe:
“O povo mais ou menos os conhecia a todos: muitas vezes fora sua gasta passadeira. Por isso se regalava com os ver preteridos, e murmurava: «Qualquer um será melhor do que estes! Quem sabe? Pode ser que o rei tenha acertado…» E nas mesas das bodegas, nos mictórios, na cal dos muros, apareceram vivos e sujos epigramas que envolviam ou sugeriam os nomes do
ilustre Froilão [sublinhado nosso], do sábio Filinto, do notável Rolando, do discreto Marçal, do
proficiente Rosendo…”242
“Tò-Carocha” representava uma viúva adúltera e uma mãe negligente: “E não só a Tò-Carocha com o amigo polícia, uma filha paralítica minada dos ossos, a outra prostituindo- se quase desde a infância.”243
É referencializada através deste designador, sugerindo-se uma certa ridicularização da mesma, pois que conotava também feições de uma bruxa — acepção pertencente ao vocábulo “Carocha”244 — ao apresentar-se como uma figura feminina assustadora, pois que
histérica e teatral:
“Faziam um teatro dos pitorescos desesperos da Tò-Carocha. Corrido, furioso mas temendo-se do escândalo, o polícia escapulia-se cosido às paredes. Nem por isso deixavam de o perseguir as chufas dos caloiros e bichos, — inimigos natos da autoridade. Às vezes, ficava semanas sem voltar. Mas sempre o tornavam a ver, mais cedo ou mais tarde.
239 Cf. José Régio, O Príncipe com Orelhas de Burro, p. 123. 240 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 241-242.
241 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 57, 58, 96, 271 e 300. 242 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 57.
243 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa III — Os Avisos do Destino, p. 102.
244 “mulher velha e/ou feiticeira; bruxa” (Cf. Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar (Coord.) E Instituto
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Mal dobrava ele a esquina da rua, logo, das tais janelas em frente, havia um mais desapiedado ou garoto que se punha a aperreá-la:
— Tò…, Carocha! Tò…, Carocha!
Acabava por ser um pequeno coro. Assim se compraziam em elevar ao rubro o desespero da pobre mulher. Ela atirava-lhes com a porta do postigo na cara. Ou também desafogava sobre eles:
(…)
Desfeiteados, redobravam: — “Tò…, Carocha! Tò…, Carocha! Já era um largo coro.”245
“Chu-chu” representa a mãe de Jaime Franco. O redobro silábico com valor musical com que é pontualmente referencializada serve de ridicularização a uma figura feminina elegante, casada, dedicada a um filho — que a sociedade circundante consideraria perfeita —, que foge ao socialmente correcto e pratica o adultério, na busca de algum afecto que em casa afinal não tinha.
Deste modo, extraordinárias pois que a referencialização mediante os anexins compostos assim o deixa transparecer, todas estas personagens destacam-se independentemente do seu papel na acção. Efectivamente, a genuinidade dos seus caracteres e condutas é manifestamente explorada, aprofundada e clarificada no processo de composição destes designadores.
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III. O Artifício Social e Colectivo
1. Os Apelidos, os Axiónimos e os Diminutivos: Estigmas do Oco
e da Afectação Social
A negar a autenticidade, a genuinidade dos portadores do agregado nominal de designadores compostos por prenomes, diminutivos e alcunhas, existem, ainda, as formas de tratamento de cariz social e profissional que designam personagens regidas pela aparência e representantes da falsidade, da ligeireza, da futilidade; enfim, do vazio. Personagens secundárias ou figurantes, estas sinalizam um “cenário”, uma ambiência social, por vezes até uma colectividade, que se opõe à singularidade, à genuinidade individual e até anti-social, na medida em que original, de determinados Seres ficcionais.
Assim, destacamos um grupo de personagens caracterizadas pela ausência da genuinidade e pela presença do artifício; pela fuga à individualidade germinadora e pela escolha da colectividade castradora; pela parca excepcionalidade e pela profícua mediocridade. Estas personagens sofrem uma referencialização específica mediante designadores de carácter, também ele nominal, representados exclusivamente pelos apelidos ou apenas pelos nomes próprios enquanto conjunto que contempla os prenomes e os apelidos e pelos axiónimos e formas de tratamento sociofamiliares e socioprofissionais que acompanham os designadores anteriores. Efectivamente, estes designadores enriquecem a referencialização destas personagens, no sentido em que representam máscaras que sofrem um processo de incorporação perene, eclipsando a autenticidade, a genuinidade, a originalidade destes Seres ficcionais.
A acrescentar, este agregado é constituído por personagens referencializadas por outro grupo de designadores já abordado anteriormente: os diminutivos. Todavia, e desta feita, sustentamos que, neste âmbito, têm uma intencionalidade acentuada, claramente vincada no redobro silábico dos truncamentos: a da fina ironia e da ridicularização da futilidade. Constituem, assim, os designadores identificativos, representantes por excelência da grave forma superior da frivolidade, mundanidade e vazio social.
“O apelido, ou sobrenome, identifica o indivíduo. Junto com o nome próprio forma um todo que permite distingui-lo no seio de uma sociedade organizada.”