outros70, quer através de algumas declarações acerca dele feitas, por Pedro Sarapintado71 —
uma tensão sexual que sugere a prática de assédio aos colegas. Insinua-se, por conseguinte, nesta personagem, a existência de uma obscuridade, de carácter psicológico, repulsiva. Adélio representa, por conseguinte, um Ser prepotente que, com a força física a escudar uma não menos forte — a psicológica — na interacção com os outros, força a consecução das suas ambições.
No concernente ao Rui, este representa o fruto de uma relação inaceitável aos olhos da sociedade vigente, sendo por isso negado pela família de seu pai, João. Na verdade, este último representava um jovem oriundo de uma família com posses económicas e com um estrato social elevado que se juntara a uma jovem pobre, que até o ter conhecido teria sido meretriz.
A primeira intervenção de Rui na acção é feita precisamente perante seu avô Martinho Trigueiros naqueles que são considerados os últimos momentos da sua vida, no IV volume de A Velha Casa. Curiosamente, é referencializado quando apresentado pelo seu pai com outro nome — Martinho — pois que João achara esta uma forma de homenagear o seu pai, demonstrar-lhe afecto e admiração e fazê-lo (consciente ou inconscientemente? 72)
aceitar, em vida, aquele que tinha sido fruto de uma relação proibida. No entanto, após esta apresentação — em que “O rapazito, que se chamava Rui, levantou para o pai os grandes olhos perplexos, precoces e interrogativos; mas não disse nada”73, abdicando da sua
verdadeira identidade e rendendo-se, sem claras argumentações — pouco nos é dado a conhecer da mesma, se bem que um aspecto ininteligível apontador da sua densidade psicológica se começa, assim, a desenredar. Verdadeiramente, já neste episódio breve, se denota ser detentora de uma certa complexidade, pois que representa uma criança de oito anos74 retratada numa reserva própria de um adulto. Na verdade, é de estranhar tal atitude
silenciosa num petiz, de quem se esperaria uma pronta resposta inocente, verdadeira e desconcertadora.
Posteriormente, Rui — referencializado de forma vaga no diálogo estabelecido entre Lèlito, seu tio, e João, seu pai — denota ser, também ele, vago, tangendo o mistério do que é desconhecido. Aparentemente, com a alusão imprecisa à realidade desta personagem pretende sublinhar-se a conservação da relação sigilosa e pouco conveniente de seus pais. Não obstante, esta isenção suspeita que tanto caracteriza esta personagem começa a desnudar-se no volume V e nos Rascunhos para o 6º, pois que Rui crescera e o seu carácter tornara-se emblematicamente misterioso; como o próprio João acusa:
70 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 18-19, 42-43 e 56-58. 71 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 70-71.
72 “Logo quereria, mal a pronunciou, engolir essa mentira aduladora, que lhe viera como nos vem um
obscuro impulso que a nós próprios nos surpreende. O rapazito, que se chamava Rui, levantou para o pai os grandes olhos perplexos, precoces e interrogativos; mas não disse nada.” (Cf. José Régio, Obras
Completas: A Velha Casa IV — As Monstruosidades Vulgares, 3ª ed., Lisboa, Brasília Editora, 1985, p.
52).
73 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 52. 74 Cf. José Régio, Ibidem.
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“Rui vinha às vezes visitar o pai. Mas debalde procurava o pai arrancar-lhe quaisquer confidências, conseguir com ele uma comunicação ou camaradagem que lhe permitisse conhecê- lo um pouco, chegar a uma hipótese sobre o seu futuro. Ou o Rui não tinha ainda nada que dizer, vegetando naquela espécie de limbo que é a vida dos adolescentes não despertos ainda para as inquietações, as dúvidas, os sonhos, as ansiedades... ou (o que lhe parecia mais provável) se fechava precisamente ao sentir as desajeitadas tentativas do pai, — como um caracol ou um bichinho-de-conta quando lhe tocam. João sabia como é difícil a verdadeira camaradagem dos jovens com quem represente para eles a autoridade do mais velho. Em especial, dum filho com o pai. Também era possível que Rui fosse reservado; ou suspeitoso, ou tímido, ou pudico… ou orgulhoso e duro, pois também a Lèlito, mais próximo pela idade, opunha uma idêntica resistência — até uma frieza maior — disfarçada em aparências de cortesia.”75
Na verdade, a conduta enigmática desta personagem clarifica-se após a morte de seu pai, no âmbito de uma conversa com o seu tio, Lèlito. Rui não mais queria do que, perante uma família que não considerava ser verdadeiramente a sua, cumprir com a obrigação social de visitar os tios, respeitar as suas ideias, nunca os confrontando com as dele. Minado pela existência interior da angústia, consciente de ser fruto de uma relação proibida e rejeitada, Rui revela-se um ser revoltado que calculadamente convive com os seus familiares sem com eles estabelecer laços afectivos; cariz declarado ao leitor pelo narrador quando nos expõe que:
“Subitamente, Lèlito lembrou-se das circunstâncias do seu nascimento: Sua mãe nunca entrara naquela casa, ele fora gerado antes de os pais serem casados, e esse casamento nunca chegara a ser aprovado pelo velho, o chefe de então — Martinho Trigueiros. Rui podia ter recebido alguma informação destas circunstâncias. Quem sabe o que a propósito ruminara? Quem sabe se não principiara a sentir-se marcado, ferido? Aquele «rapazinho» já não era simples, — tinha porventura um peso na vida.”76.
Por fim, como personagem secundária referencializada unicamente pelo prenome simples em A Velha Casa, destacamos Marciano. Este é-nos apresentado no âmbito do “cenário” social e intelectual dos amigos de Olegário, em Lisboa (A Velha Casa, volume IV), e manifesta-se como um Ser que vive de forma transparente, sem artifícios, nem acessórios: um homem economicamente abastado e exuberante pois que “«Vive com aisance»”77 e com uma
vida pessoal e afectiva exaltada e promíscua78. Pouco mais nos é dado a conhecer, excepto a
transparência, a autenticidade com que esta personagem vive, sem recatos, nem barreiras morais e sociais.
No V volume de A Velha Casa, não obstante esta personagem representar ainda um homem economicamente abastado, com uma vida pessoal e social mundana, apresenta-se,
75 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa V — Vidas São Vidas, 3ª ed. aumentada com os
Rascunhos para o 6º Volume de A Velha Casa, Lisboa, Brasília Editora, 1985, p. 372.
76 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 428.
77 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa IV – As Monstruosidades Vulgares, p. 284.
78“O Marciano e a mulher são um casal moderno. Bons amigos, que às vezes se crivam de madrigais
cruéis. E, desde que haja uma certa discrição… quero dizer: um certo resguardo, em público, das aparências, cada qual vive particularmente a sua vida sentimental…” (Cf. José Régio, Op. Cit., p. 290.)