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considerados isoladamente, mas no âmbito do respectivo grupo, se, naturalmente, quisermos ter em conta a totalidade, a etiqueta que integram, pois a compreensão da diegese e a coerência da própria personagem deve-se em grande parte à organização de cadeias de co- -referência44 em que cada marca se reporta a outra, numa relação de interconexão e

interdependência.

Assim sendo, os designadores, representados em designações essenciais e contingentes, são, inequivocamente, traços linguísticos que, numa cadeia de co-referência, constroem a personagem, a sua etiqueta; enfim: que promovem o processo da etiquetagem linguística deste Ser, também ele, inequivocamente linguístico.

Ergo, ao equivalermos a referencialização identificativa das personagens à designação linguística das mesmas, impõe-se, por conseguinte, abandonarmos a sinonímia que se estabelece entre tais termos e a palavra “nomeação”. Na verdade, esta última desenquadra- se da amplitude do objecto pretendido neste estudo, posto que remete univocamente para a palavra que lhe serve de étimo, fixando-se conjuntamente à noção kripkiana do termo “nome” (a do nome próprio)45. A negação da adopção do processo de “nomeação” ao

presente estudo justifica-se, assim, na limitação que esta forma de referencialização lhe poderia conferir, posto que remeteria para a designação exclusiva, mediante o nome próprio, que se aplica individualmente às personagens. Na verdade, os designadores são representados por muitos outros elementos que não apenas aqueles.

Não obstante, não implica que, ao referirmo-nos aos nomes próprios, enquanto designadores rígidos, não deixemos de ponderar a vasta carga semântica que eles têm no senso comum e que Yves Reuter e Pierre Glaudes singularizam quando referem que “Cependant il est un aspect de l’étiquette du personnage auquel tous les analystes accordent leur attention : son nom (prénom, patronyme, surnom…). [sublinhado nosso]”46.

Na verdade, com a palavra “nome”, em termos da designação, não se alude apenas ao prenome — vocábulo ou vocábulos que servem para designar e/ou identificar uma pessoa (ou um grupo) e que antecedem o nome de família. Com esta palavra pode, também, reportar-se: ao prenome composto; ao conjunto prenome(s) e apelido(s); à alcunha (ou anexim), ou, simplesmente, ao nome de família (apelido ou sobrenome). Claro está que a este vocábulo se poderão anexar outros, reportando-se tal agregado a outras variantes significativas (como: o “nome literário”, o “nome de guerra”, o “nome científico”, etc.) ou concatenando-o apenas a categorias de carácter morfossintático (nomes próprios, nomes comuns, nomes concretos, nomes abstractos, nomes colectivos, nomes contáveis e não contáveis, etc.).

44 Pierre Glaudes e Yves Reuter assim designaram a relação de interacção e de dependência que se

estabelece entre os designadores de cada personagem (Cf. Pierre Glaudes e Yves Reuter, Op. Cit., p. 59: “Ils fonctionnent en chaînes de coréférence: ils renvoient les uns aux autres et se raportent au même personnage.”)

45 Cf. Saul Kripke, Op. Cit., p.13: “Nous utiliserons le terme «nom» de façon a ne pas inclure les

descriptions définies de ce genre, mais seulement ce que dans le langage ordinaire on appellerait des

«noms propres» [sublinhado nosso].”

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Importa, então, que distingamos, no âmbito da análise dos designadores47das

personagens, o processo da “nomeação” dos da referencialização ou designação identificativas, apartando-nos do primeiro e adequando, ao presente estudo, as duas últimas denominações.

Todavia, em relação a este processo, visámos, na presente tese, apenas a expressão “referencialização identificativa”. Na verdade, além de esta ter sido consagrada, por Cristina Vieira, nos seus estudos relativos à construção da personagem romanesca, pretendemos com esta terminologia destacar inequivocamente o referente-alvo do nosso estudo — a personagem — e a ponderação que o processo por ela representado tem na sua construção.

2. Os Designadores na Referencialização Identificativa da

Personagem na NFR

A imesurabilidade da importância dos designadores na construção da personagem, no seu processo de “etiquetagem” linguística, no âmbito da sua referencialização identificativa, é, assim, um aspecto inquestionável. Na verdade, os designadores são fundamentais na sua existência ficcional, pois tal como Guides refere «les personnages demeurent inexistants aussi longtemps qu’ils ne sont pas baptisés.»48. Não obstante, não é apenas o limiar da existência

da personagem que se mede pelo facto de esta ser designada. O designador ajuda o leitor a conhecer a personagem, pois que lhe permite, no âmbito da análise da sua construção 

conhecer o seu carácter, a sua postura, a sua densidade ou complexidade e o porquê das suas acções. Possibilita, assim, vivificar a personagem (quando, na verdade, a sua vida já fora conquistada no seu processo de criação) no processo da sua leitura, conhecimento e análise.

Por conseguinte, os designadores, que são representados por elementos de carácter linguístico, merecem um aprofundamento de carácter, também ele, linguístico. A importância dos designadores no processo de etiquetagem linguística das personagens, por parte de Philippe Hamon, e mesmo quando examinada e aprofundada, por Pierre Glaudes e Yves Reuter, na perspectiva da especificação de designações essenciais e designações contingentes, tem, também ela, uma natureza linguística e aponta para um caminho que nos convida à análise dos designadores designadamente sob um ponto de vista morfossintático.

Neste âmbito, e dentre várias tipologias de designadores de carácter morfossintático, merece-nos destaque, pela sua concisão, a de P. E. Cordoba49. Na verdade, segundo este

estudioso, podemos repartir os designadores em três categorias: as denominativas (nome,

47 A partir da presente nota, os designadores rígidos e não rígidos estarão englobados no termo

“designadores”. Apenas no caso de se pretender especificar apenas um deles, se fará uso da terminologia a que dizem respeito.

48 Cf. Guides, Journal des Faux-monnayeurs, citado por Pierre Glaudes e Yves Reuter, Op. Cit., p. 61. 49 P. E. Córdoba, “Prénom Gloria. Pour une Pragmatique du Personnage en Question” in AAVV, Le

Personnage en Question, Toulouse, Presses Universitaires du Mirail, 1984, p. 33, citado por Pierre

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