à forma familiar e carinhosa como era referencializada pelos frequentadores da sua taberna, não obstante a denotação do seu aspecto físico: uma mulher forte. Esta alcunha alusiva à monstruosidade física da personagem vai servir de ligação à empatia que o príncipe irá sentir por ela pois, tal como esta, Leonel considera-se, também, um monstro:
“«Meu Deus!» pensou consigo o príncipe Leonel «porque dará monstros a natureza? Por que haverá monstros no mundo? Tantos monstros? E eu sou um deles, como a Zizi; como o Roão Rebolão! Eu sou um deles…»209
“Pedro Sarapintado” é assim referencializado em quase toda210 a sequela romanesca
de A Velha Casa, embora de forma alternada com outros designadores. Na verdade, a característica física que marca a génese dessa alcunha é um estigma que perpetuamente o acompanha que, descrito sempre do mesmo modo, pelo narrador, respeita, todavia, diferentes fases etárias da personagem. Assim, jovem rapaz, no colégio, é caracterizado fisicamente por aspectos como “O seu nariz e o alto das faces pareciam sujos, de pintalgados de sardas Sublinhado nosso”211 e, quando já adulto, “Era um rosto escavado, descarnado, com
rugas que se adivinhava não serem da idade, e que parecia sujo, à custa de sardas, no nariz e em volta Sublinhado nosso.”212
Todavia, conotativamente esta alcunha assume outros contornos. Efectivamente, quando esta personagem é assim alcunhada, no volume I, denuncia-se o seu papel de chefia e rebeldia, pois que, marcada fisicamente, se destaca das outras, sendo que este cargo de comando acaba por ser mesmo salientado ao longo da diegese213. Quando em adulto, e
designadamente nos volumes IV e V, esta marca física representa um estigma, um fado: o de um passado e de um presente infelizes, que nem o pseudónimo “André das Cautelas” conseguira camuflar e conter:
“Já Pedro Sarapintado, ou André das Cautelas, definitivamente se estava convencendo de que a sua estrela era privilegiada mas no infortúnio. Porque, no fim de contas, não singravam tantos outros onde ele sempre encalhava? Qualquer secreto defeito nele havia, pelo qual toda a sua vida soava a rachado! Mas que fizera a natureza, contra as Forças Ocultas, contra os espíritos que jogam com os homens, contra Deus ou contra o Diabo, que assim era incompreensivelmente punido? Como se comportara noutras hipotéticas vidas, — pois na actual nada fizera, nada fazia, que lhe parecesse merecer tal perseguição? Não era simplesmente um homem imperfeito como todos, um indivíduo normal que aspirava a um pouco de felicidade? No André das Cautelas doente ressurgia a imaginação de Pedro Sarapintado: mas agora com sinal contrário; agora devaneando
209 Cf. José Régio, O Príncipe com Orelhas de Burro, p. 177.
210 À excepção dos Rascunhos para o 6ª Volume de A Velha Casa, em que é apenas referencializado pelo
prenome simples (Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa V — Vidas São Vidas, p. 403.)
211 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa I — Gota de Sangue, p. 14.
212 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa IV — As Monstruosidades Vulgares, p. 274
213 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa I — Gota de Sangue: “Pedro Sarapintado ficava-lhe à
direita, o Adélio à esquerda. Um terceiro chefe, Julião le Gros, (era apelido que apanhara na aula de francês) pusera-se à cabeceira.” (p. 19); “(…) Pedro Sarapintado, e os demais chefes do recreio dos maiores” (p. 36); “Outros, porém, ficaram calados; e estes eram do bando de Pedro.” (p. 41); “o bando de Pedro” (pp. 41 e 47).
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sobre perseguições extraordinárias, como outrora devaneara sobre extraordinárias protecções. Até que devagar, subtilmente, por cansaço extremo, já todas as fantasias, ilusões, invenções, mitologias de Pedro Sarapintado o iam abandonando, as de sinal optimista como as de sinal pessimista, e ele ficava só e vazio, indiferente, pronto a morrer e suportando estupidamente aquele precoce fim de vida.”214
Outra personagem alcunhada mediante a mesma especificidade morfológica das anteriores — nome próprio seguido de adjectivo —, mas sintacticamente diferente, pois que o segundo termo assume a função de aposto é, no âmbito dos grupos de rapazes que frequentavam o colégio do Porto em que estivera Lèlito: “Um terceiro chefe, Julião le Gros,
Sublinhado nosso — era apelido que apanhara na aula de francês — (…)”215. Esta alcunha
denota que o seu portador se evidencia como um sujeito fisicamente grande e corpulento e, por conseguinte, conota o facto de ser violento:
“O que o tornava respeitado era a sua corpulência, o seu feitio violento mas, ao cabo, afável, e a facilidade com que entrava em todas as brincadeiras, prestando-se um pouco a tudo, sem, afinal, se especializar em nada.”216
Consecutivamente, esta feição física demarca referencialmente o destaque e o respeito social que esta personagem tem no ambiente que o rodeia.
Como alcunhas de foro psicológico ou comportamental217, destacamos: “Beatriz
Malandra” (“Menina Olímpia e a sua Criada Belarmina”, Histórias de Mulheres); “Rosa Brava” (“História de Rosa Brava”, Histórias de Mulheres); “Porfírio Moinante” e “Josefa Marcada” (“Maria do Ahú”, Histórias de Mulheres) e “Chico Torto” (Jogo da Cabra Cega).
Deste modo, “Beatriz Malandra” representa uma personagem feminina que vivia no mesmo bairro que a Menina Olímpia e a sua criada, a velha Belarmina. Representante de um carácter leviano pois “que tem filhos de vários pais: inclusive do marido”218, faz-se valer da
desgraça dos outros para ir vivendo:
“Verdade se diga que também dessas coisas foram algumas vendidas, mais tarde, à Beatriz Malandra, que faz negócio de roupas usadas, trastes velhos, objectos em segunda mão.”219
No que concerne a “Rosa Brava”, esta é assim referencializada pois que:
“O caso é que desde tenra idade se revelara Rosa, a filha segunda, uma espécie de monstro na família: um ser anormal, uma criatura incompreensível e agreste, um bicho maligno ou espírito ruim.”220
Efectivamente, é uma personagem que retrata, na alcunha que a referencializa, a insubmissão, a rebeldia que, de acordo com a sociedade circundante, nestes traços
214 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa V — Vidas São Vidas, pp. 17-18. 215 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa I — Gota de Sangue, p. 19. 216 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 47.
217 Cf. Francisco Martins Ramos e Carlos Alberto da Silva, Op. Cit., p. 20.
218 Cf. José Régio, Obras Completas: Histórias de Mulheres — Conto e Novela, p. 132. 219 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 137.