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sociais de natureza oposta: o dos amigos de Olegário do Café Brasileira e o do grupo de Eulália. Na verdade, a convivência com estes dois grupos reflecte, por consequência, o trato calculado e calculista com dois tipos de cultura — a intelectual e filosófica vs a mundana e aérea — e a existência de uma personagem que criva uma densidade psicológica superior que ultrapassa a esfera do artificialismo social de conviver e sobreviver, adaptando-se a circunstâncias divergentes.

Não menos importantes são outras duas personagens de A Velha Casa (nos, respectivamente, volumes III e V) que se apresentam como figurantes e que são referencializadas exclusivamente com o prenome simples. Ester, a filha mais velha de Tò- Carocha, “uma desaforada”80 aérea, é uma personagem feminina que fatalmente rumara para

maus caminhos81, em virtude do seu parco acompanhamento parental e educacional. Após a

morte da sua pequena e doente irmã, esta personagem assume o papel de rapariga serena e sensata (em oposição à tristeza histérica de sua mãe, Tò-Carocha), prometendo-se a profundidade de uma personagem82 sem papel interventivo na acção e que serve apenas a

ilustração do ambiente social da rua em que habitava Lèlito quando estudava em Coimbra. Arlindo, o outro figurante, constitui uma personagem anónima que adquire alguma projecção no grupo político de João, em Lisboa, uma vez que redige um artigo no jornal clandestino O Combate, alvejando esta última personagem como “traidor”. A profundidade desta personagem, a autenticidade e genuinidade são visíveis, tanto no seu papel interventivo, como no seu entusiasmo político, sem receios, nem artifícios, aplaudidos por Vicente Calha (1) e Ângelo (2).

(1) “Bem… João Trigueiros: Aplicado a você, também a mim me choca o termo traidor. Creio que sei quem escreveu esse artigo. Deve ter sido um moço que é tipógrafo. Excelente camarada, em todos os sentidos; mas sem educação literária senão a dum autodidacta jovem. Lê tudo que pode, principalmente os nossos. Nem sempre compreende. Está mas é cheio de entusiasmo! Talvez, até de ilusões e risonhos mal-entendidos que terá de perder… e perderá… para verdadeiramente ser o revolucionário que ainda não é: o homem novo a que aspira. Aposto que, se o João Trigueiros o conhecesse, gostava dele…”83

(2) “— O Arlindo, não é? Coitado! nem sempre pesa bem o que diz, como neste caso; ou talvez nem sempre distinga bem o significado dos termos que emprega, e se deixe influenciar por sugestões de uns certos… Mas excelente moço; e um carácter!, conheço poucos. Às vezes

79 “(…) a vida que Marciano levava de homem rico, mais culto, e mesmo o seu espírito suficientemente

cáustico e ágil para elegantemente se defender (…)” (Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa V –

Vidas São Vidas, p. 152.)

80 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa III — Os Avisos do Destino, 3ª ed., Lisboa, Brasília

Editora, 1980, p. 95.

81 “Dizia-se que já andava metida pelas repúblicas dos estudantes. Desde impúbere, aliás, que se

desconfiava dela; — no que podiam ter muita culpa esses tais grandes olhos húmidos, um pouco salientes, viciosos já antes da experiência do vício.” (Cf. José Régio, Op. Cit., p. 93).

82 “E, agora, debalde a Ester a procurava sossegar, pensando consigo que até para a pobre doente fora

uma graça chamá-la Deus a si”, (Cf. José Régio, Op. Cit., p. 353).

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violento, porque mal pode compreender que nem todos os homens de boa vontade compartilhem dos seus sonhos… dos nossos sonhos…”84

Não obstante a circunscrição e a nitidez da intencionalidade subjacente ao processo de referencialização exclusiva do designador em causa, não devemos menorizar a importância que desempenha o uso do prenome simples de forma alternada — ou seja, assume-se a sua existência sem carácter exclusivo, interpolada com outros designadores —, para destacar, além da genuinidade, alguma característica excelsa de algumas personagens na NFR. Destaquemos, por exemplo, em “O Fundo do Espelho” (Há Mais Mundos), o protagonista- -narrador, José, singularmente referencializado com prenome simples uma única vez, no início da diegese. Serve, deste modo, este designador de gatilho para conectar esta personagem à alienação da loucura, do sonho demente por ele vivenciado:

“Às vezes, já tarde, a cabeça pesa-me baloiçando. Fecho os olhos; fico assim um pedaço. Abro-os devagar. E olho do fundo do meu aniquilamento feliz, sentindo-me transportado a outras regiões. Como um navio, a mesa de trabalho em que deito o rosto ensaia a correr para a direita. E lentamente, oscilando, pesado, como um navio muito maior que nos contenha, todo o quarto cheio de fumo se desloca para a esquerda. Já tudo roda em volta de mim. Vejo-me o eixo da terra, e novamente fecho os olhos. Quando os reabro, descubro que entrei.

— José! — chama ao fundo dos meus ouvidos, muito dentro do meu crânio, uma voz conhecida.”85

A referencialização de Amância, personagem principal do conto “Os Namorados de Amância” (Contos Dispersos) processa-se logo na primeira frase do mesmo da seguinte forma: “Sim, um pouco ridículo, este adocicado nome de Amância sublinhado nosso, nesta velha solteirona entregue a obras de caridade e festas de beneficência”86. Reportando-se esta

afirmação a um presente — o de uma pessoa idosa —, remete, também ela, para um passado: o de um prenome dado à nascença que em si transporta traços semânticos de doçura, da paixão e do sonho, e que etimologicamente auspicia a mulher na relação amorosa, no papel de amante. Não obstante, condensa-se, com este designador, logo no início desta diegese, uma informação basilar no descortinar da complexidade desta personagem: estabelece-se a vivência plena de um passado amoroso matizado e a esperança, pouco provável, do prolongamento do mesmo num presente.

O uso do prenome simples Rosa em “História de Rosa Brava” (Histórias de Mulheres) serve para enquadrar a personagem na diegese, apontá-la como a protagonista, situá-la numa família. Na verdade, referencializa-se esta personagem de forma a destacá-la como se de uma flor se tratasse no seio de uma vasta paisagem — a sua família — pois que “Passados dois anos, nasceu a Rosa da nossa história.”87. Na verdade, serve este designador para indiciar a

excepcionalidade de uma personagem que, tal como a flor que lhe serve de referente, se

84 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 250.

85 Cf. José Régio, Obras Completas: Há Mais Mundos — Contos, 2ª ed., Lisboa, Portugália Editora, 1962,

p. 59.

86 Cf. José Régio, Obra Completa: Contos e Novelas, p. 361.

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