prenome simples — demarca-se assim um traço áureo que transpõe o parco papel interventivo que possam ter na acção e as ilumina, as destaca, exacerbando a sua excepcionalidade.
2.3. A Densidade dos Prenomes Compostos
Conquanto exista um predomínio de referencialização mediante o uso de prenomes simples (antecedidos ou não de adjectivo), é de salientar, também, um número pequeno, mas expressivo, de prenomes compostos95. Na verdade, o facto de se adicionar um prenome
simples a outro distingue estes designadores, pois que os enriquece, fazendo com que estes somem, também, algo às suas personagens; enfim: que enriqueçam a sua construção; que estabeleçam uma ainda maior genuinidade e complexidade, uma notável densidade.
Como personagens da NFR referencializadas pelo prenome composto, presentificam- se: Maria Felícia (“As Historietas dum Coleccionador de Antiguidades”, Há Mais Mundos); Rosa Maria (“Davam Grandes Passeios aos Domingos…”, Histórias de Mulheres); Maria Helena (“Sorriso Triste”, Histórias de Mulheres); Maria Eugénia (“O Vestido Cor de Fogo”, Histórias de Mulheres); Maria Teresa; Maria Clara, filha de Maria Teresa e Martinho Trigueiros; Maria Clara, a tia Clarinha; Carlos Frederico; Maria de Jesus e Maria Balbina (A Velha Casa). Todas estas personagens são dotadas de distintas singularidades; de feições particulares que apontam para uma complexidade acutilante, independentemente do seu papel interventivo na acção.
Por exemplo, Maria Clara, a tia Clarinha, a única figurante deste grupo, é envolta num mistério, numa conduta que deixa mesmo transparecer tais semblantes. Deste modo, representa a irmã mais nova de Madrinha Libânia. Morrera precocemente e louca e deixara, numa velha gaveta, um objecto que a personificaria e que iria desenvolver, em Angelina, a partir do momento em que o descobre, uma alienação idêntica.
“Dentro da caixa havia botões de vidro, uma agulha ainda enfiada em retrós, dois carrinhos de linhas, uma tesoura, e um pequeno livro que visivelmente fora encadernado pela própria possuidora: encadernado em veludo verde cosido por pontos de agulha à capa de papelão. Angelina abriu-o: Era manuscrito numa tinta já deslavada, em linhas muito desiguais, (pois o papel não tinha linhas) e numa caligrafia irregular. Certas palavras ressaltavam em caracteres maiores, seguidas de reticências e exclamações repetidas. À frente de outras, havia sinais desconhecidos. Outras, finalmente, estavam escritas numa tinta dum róseo amarelecido, e destacavam-se das mais por grandes espaços claros. Ao acaso, sem querer, Angelina leu algumas destas: Eram datas por extenso. Antes dessas datas, quase logo no princípio do volumezinho, estava escrito em tinta ordinária:
«Vou escrever com o meu sangue o Dia da Graça.»
95 Na NFR, das 135 personagens referencializadas com prenomes (de forma exclusiva e alternada com
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Angelina não compreendeu; mas balbuciou qualquer coisa, nem ela sabia quê, e teve uma pequena exclamação. Com avidez, leu ao acaso outras palavras do manuscrito: (…)”96
Enigmático, o misticismo anunciado nesse livrito, deixa, entre linhas, adivinhar uma mente insana vergada por alguma realidade que a traumatizara (quiçá?) e confessa a densidade de uma personagem que, embora figurante e pontualmente mencionada, se subentende assídua, através de Angelina, ao longo de toda a diegese, na sequela romanesca de A Velha Casa.
Deveras, se salientarmos, também, no âmbito da riqueza e da acuidade da referencialização mediante os prenomes compostos, Rosa Maria (“Davam Grandes Passeios aos Domingos…”) e Maria Eugénia (“O Vestido Cor de Fogo”), não nos é alheio o facto de, também elas, serem consideradas dois dos Seres ficcionais femininos mais complexos e ricos da novelística regiana. Pertencentes ao universo de personagens femininas da colectânea de novelas e contos Histórias de Mulheres, fazem parte de um grupo assinalado por uma densidade de carácter sublime pois que, segundo Maria Aliete Galhoz, “(…) todas elas, psicologias mais complicadas, mais estranhas, evoluindo em ambientes rasamente carecentes ou comodamente cumpridores de códigos taxativos que têm muito que ver com estratificações tranquilizadoras e medíocres.”97
Deste modo, Rosa Maria, cuja referencialização se faz mediante o uso exclusivo do prenome composto, é a protagonista de uma novela regiana emblemática considerada por Eugénio Lisboa, como “(…) admirável pela variedade, minúcia e profundidade dos registos (novela psicológica, de sátira social, de análise de costumes, de sondagem subtil ao pathos feminino — um compacto de riquezas cristalizadas com mestria no espaço exíguo de cem páginas) (…)”98. Esta personagem começa por se apresentar, na diegese, como uma jovem
simples, humilde, tímida, sonhadora, romântica, ingénua, inocente, sincera, que ingressara num ambiente familiar, sociocultural e económico oposto ao seu: um ambiente onde governava a hipocrisia, a aparência, o mundanismo, a futilidade, o material, o interesse. Revoltada, angustiada, triste, pois que em nada se identifica com o seu novo lar e com os seus habitantes e visitantes, Rosa Maria granjeia ânimo na imagem saudosa que tem de uma infância humilde, mas feliz, em convívio com um pai pianista e idealista e uma mãe romântica e sonhadora. Além disso, demanda, sempre que pode, o retrato da paisagem alentejana circundante, no sentido de se acalmar, de nela encontrar algo que lhe era familiar — a essência; a natureza pura, inocente, incorrupta; onde o homem pontilhada e pontualmente põe as suas mãos.
Quando, num dia de festividade99, Rosa Maria, fragilizada psicologicamente, pois que
declaradamente desajustada do ambiente sociocultural de tal evento — a atmosfera viperina
96 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa II — As Raízes do Futuro, 2ª ed., Lisboa, Brasília
Editora, 1972, p. 86.
97 Cf. Maria Aliete Galhoz, Catorze Ensaios sobre José Régio Seguidos de uma Bibliografia Essencial,
Lisboa, Edições Cosmos, 1996, p. 90.
98 Cf. Eugénio Lisboa, José Régio. Uma Literatura Viva, p. 59. 99 No dia do assalto à casa da Serra, na Segunda-feira do Entrudo.