denotadoras do carinho e protecção de que era alvo, por parte dos seus familiares.
Com o predomínio dos designadores Nini e Lina no volume I de A Velha Casa, insinua- -se, então, uma referencialização preponderante com os mesmos em toda a acção. Todavia, a partir do volume II o prenome simples desta personagem passa a constituir o designador privilegiado. Aparentemente, o estigma do carinho é ultrapassado pelo da autenticidade da pureza e da bondade que caracterizam esta personagem e que se presentificam no prenome simples Angelina que, etimológica e indirectamente, anuncia os seus traços de carácter e, consequentemente, a sua conduta. Além disso, com o domínio do prenome simples demarca- se, também, o crescimento exterior e o amadurecimento interior dela pois “Angelina já não era a mesma Nini… a Lina-Linão de Maria Clara”146.
Por conseguinte, a partir do volume III, destes dois diminutivos passa a figurar, escassamente e apenas, “Lina”, evidenciando uma única intencionalidade: a de vincar traços que sempre caracterizaram esta personagem em criança e que ainda se manifestam em determinadas situações, quando já adulta. Deste modo, quando parece afastar-se da prática
de actos sacrificiais (supostamente) de cariz religioso e manifesta a serenidade que tanto a caracterizara em criança, Angelina recomeça a ser referencializada, pelos irmãos147, com tal
designador: esta forma de tratamento revela não só o carinho com que os familiares procuram ampará-la, mas também a superação de uma vivência religiosa com práticas físicas insanas. Efectivamente, representa-se, com este truncamento, o corte com um presente doentio e o regresso à inocência, à pureza que qualificaram a sua infância.
Outra personagem que se demarca pela referencialização mediante o truncamento do seu prenome é Babi. Neste caso, assim designada de forma predominante, a filha do protagonista representa uma criança de tenra idade que vive alegre e inocentemente; alheia à união amancebada e secreta de seus pais e à sua condição de bastardia, numa sociedade preconceituosa que de modo algum accionaria a sua aceitação. Curiosamente, o próprio Lèlito reconhece que o prenome que está na origem do truncamento de “Babi” entronca em si as circunstâncias singulares da existência ilegítima de tal personagem:
“Neste plano se deixava ele viver com Mariana e a pequena Babi. Babi andava então pelos quatro anos. Maria Balbina de seu verdadeiro nome, que lho dera a pobre mulher da vizinhança convidada por Mariana para sua madrinha.
Na verdade, sempre Lèlito como que estranhara tal nome, pouco do seu agrado. Por que havia sua filha de se chamar Maria Balbina? Parecia-lhe que uma filha sua deveria ter qualquer dos nomes conhecidos na família. Na realidade, porém, sentir-se-ia ele, sequer, pai de
nosso, — que ambos estes diminutivos eram dados à pequena Angelina.” (Cf. José Régio, A Velha Casa I
— Gota de Sangue, p. 29) e “Como Nini (ou Lina) sublinhado nosso, Lèlito ouvia os contos e jaculatórias de Piedade; ou, então, o ramalhar das árvores no quintal e os uivos do vento nos becos longínquos.” (Cf. José Régio, Op. Cit., p. 30).
145 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 29.
146 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa II — As Raízes do Futuro, p. 178.
147 Com Maria Clara e Lèlito em, respectivamente, em José Régio, Obras Completas: A Velha Casa III —
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Babi?, o pai de Babi? Esta era outra das singularidades entre que, não sem espanto seu próprio e, às vezes, até uma irrequietação apavorada, ia correndo a sua vida, e a sua personalidade a seus próprios olhos se vinha manifestando: Sabia que era pai de Babi. Mas até o ainda não ter chegado a perfilhá-la — como que repudiava tal paternidade; ou revelava que ele hesitava ante o facto, não obstante incontestável, de ser pai.” 148
Por conseguinte, o truncamento do prenome — Balbina — desta personagem demarca nada mais do que a fractura exposta da sua essência representada na autenticidade da inocência, da ingenuinidade e da pureza de uma criança: traços alheios à hipocrisia, à aparência e ao preconceito social.
No que concerne à personagem Lèlito e ao predomínio da referencialização do protagonista de A Velha Casa mediante este truncamento específico, posto que também derivado por sufixação, a intencionalidade mede-se, não só pela alusão a características da infância como pela genuinidade e complexidade desta personagem. Com efeito, esta personagem representa ab initio uma figura melancólica, com tendências depressivas que, isolada num colégio no Porto em que “Melhor fora dizer que vogava ao sabor de um vago devaneio melancólico, através do qual a saudade de casa transparecia num persistente vaivém de recordações, aliada a uma como viscosa, angustiosa, obscura sensação de pavor”149, manifestava um comportamento retraído e tímido pois que “Ora Lèlito ainda não
chegara a acamaradar com os novos colegas. Além de mediocremente lhe interessarem os seus jogos e brincadeiras, nenhuma cara, de tantas, lhe despertara ainda qualquer movimento de franca simpatia”150. E, conquanto esta personagem se apresente a Olegário
(um colega do colégio) com o prenome e apelidos (sendo que faz repetir o prenome, manifestando, assim, a intenção de iniciar uma amizade com franqueza e genuinidade), alude, de modo franco, à preferência que tem pelo diminutivo com que o designam, denotando o afecto, o carinho que é subjacente a este tipo de referencialização:
“Manuel. Manuel Trigueiros. Na minha casa, chama-me Lèlito. Para mim mesmo,
também ainda sou o Lèlito! sublinhado nosso Um seu amigo, se quiser.”151
O diminutivo “Lèlito” sugere, assim, neste fragmento inicial da diegese, uma personagem superprotegida que nutria o desejo de se isolar, pois que se sentia diferente dos outros que aparente e inconsequentemente viviam desapegados de laços familiares. E, com efeito, no volume II de A Velha Casa, materializa-se o propósito inicial deste designador e justifica-se a superprotecção de Lèlito por parte da família, ao declarar-se que este fora fruto de uma gravidez que se seguira a um aborto:
“O segundo filho nasceu muito mais tarde. Houvera um intervalo; depois um parto abortivo; depois, um intervalo ainda mais longo. Baptizado, o segundo filho sobrevivente, com o
148 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa IV — As Monstruosidades Vulgares, pp. 163-164. 149 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa I — Gota de Sangue, p. 7.
150 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 8. 151 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 56.
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nome de Manuel, desde logo esse nome se alterara no gentil diminutivo de Lèlito sublinhado nosso.”152
Na verdade, no âmbito da convivência social, esta personagem é sempre referencializada com o prenome e apelido, por uma questão não só de convenção, mas de resguardar a sua verdadeira identidade, a sua genuinidade, apenas conhecida dos mais próximos, dos mais íntimos. Não obstante, esta salvaguarda é-lhe, por vezes, estranha: efectivamente, Lèlito é de tal forma autêntico que esquiva a falsidade, a hipocrisia ancoradas noutro designador que não o diminutivo. E, por isso, reflecte num episódio, no volume III, acerca da forma como o referencializara o seu amigo Olegário perante o Grupo dos Montes Claros, em Coimbra:
“«O Manuel…» repetiu Lèlito de si consigo. Quando se lhe dirigia directamente, Olegário continuava a tratá-lo por Lèlito. Mas passava a chamar-lhe Manuel quando se lhe referia na terceira pessoa. Era tão natural, que nem Lèlito podia achar estranhável. No entanto, estranhava.”153
Por isso, quando se apresenta a Ângelo Nogueira (um colega político de João), despe- -se do vínculo social do apelido e, embora apresente o seu prenome, referencializa-se com seu diminutivo, apresentando-se na sua mais original autenticidade: “— Lèlito… ainda lhe não disse que me chamam Lèlito? Sou Manuel.”154
Gradualmente, ao longo da acção, e designadamente a partir do volume IV, vão-se vincando e acumulando em Lèlito, de forma mais notória, traços de carácter que marcam um Ser ficcional superprotegido, mas de modo algum infantil, pois que não ingénuo e não inocente. Apenas, sim, um adulto e extraordinariamente complexo:
“«Lèlito»! Quão indevidamente, agora, quão ridiculamente, quase, lhe continuava a ser aplicado esse familiar diminutivo! Algum dia o merecera, sequer, alguém que mal chegara alguma vez a ser criança…? Ou o não fora senão nos aspectos desconcertantes em que perpetuamente o seria…? Lèlito!, — sempre Lèlito fora precoce. Agora abrangia, porém, um panorama já de homem amadurecido (supunha Lèlito).”155
Verdadeiramente, o próprio João reflecte acerca da complexidade de Lèlito que continuamente o surpreende:
“Ou a existência daquele irmão impertinente e desconcertante, simultaneamente querido e, por vezes, mais que importuno: quase odioso, quase ridículo nas suas pretensões de perpétuo adolescente que tudo sabe por intuição ou iluminação interiores… Ou que já tudo experimentou não sabe como. Esse irmão lhe aparecia agora com uma filha, e por vezes lhe dizia coisas que o abalavam: não tanto pelo que exprimiam em si, como pelo que sugeriam de mundos a que, durante tantos anos, vivera ele quase alheio.”156
152 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa II — As Raízes do Futuro, p. 20. 153 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa III — Os Avisos do Destino, p. 127. 154 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 399.
155 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa IV — As Monstruosidades Vulgares, p. 74. 156 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 122.