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pois que constantemente alterna tal traço de carácter e conduta com a lembrança da fatalidade que sombreia a personagem:

“Nada escapa à Rita do Coxo, sempre de atalaia. E então maroteiras, poucas

vergonhas, fraquezas de cada um, misérias humanas, — não! não as perdoa! Sublinhado nosso, desde que lhe sobreveio aquela desgraça de o marido ficar coxo; a bem dizer, só com o coto da perna. Pois era uma rapazão!, que ela até tinha gosto nele; e trabalhador, amigo da sua mulher, (que a Rita também não era nenhuma peste). Depois é que se tornou aquele ralaço. Parece que perdeu o gosto de tudo, menos do banco na taberna. E ela é que o tem de sustentar, mai-los três filhos que lhe ele fez. Por isso anda sempre naquele redemoinho, de casa de Anãs pra casa de Caifás: ela a esfregar soalhos, ela a polir metais, ela a passar cestos de roupa, ela a arrumar sótãos, ela a ser escrava de toda a gente! E ainda tem que cuidar do seu buraco, e do seu marido, e dos seus filhos, que de si já se nem importa. Mas também, quando está na toca, — está de

atalaia: Não lhe escapam as poucas vergonhas e misérias alheias! Sublinhado nosso”194

“Maria do Ahú”, a protagonista do conto homónimo, é caracterizada por cobrir a sua cabeça com um bioco “puxado para diante, achegado à cara, — e os olhos salientes a escabulhar lá dentro”195, assemelhando-se fisicamente a determinadas figuras do folclore

popular e religioso, pelo que a mãe assim a alcunhara:

“E assim ficou Maria do Ahú. As Marias do Ahú estavam representadas em painéis, nos altares, ou faziam parte do figurado nas procissões da semana santa. Eram, na mitologia do povo, as bentas mulheres que, chorosas e encolhidas nos mantos, acompanharam a paixão e morte de Cristo. Talvez por isso, Maria não desgostou nada de ficar a Maria do Ahú; embora, de seu verdadeiro nome escrito na sacristia, fosse Maria Leal Pinheiro, ou Pinheira, — aqui ninguém da família sabia ao certo.”196

Na verdade, esta postura física recatada era, também ela, reveladora de um perfil psicológico tímido e inseguro. Além disso, equiparada às “bentas mulheres”, anuncia-se, assim, o carácter sofredor e santificado que caracterizará esta personagem na diegese:

“Ela ia sofrendo, rezando, esperando… E tão conformada, que se julgou ir perdendo a memória, ela que a tinha excelente, e quase haver esquecido a tragédia que lhe atravessara a vida.”197

Na verdade, quando grávida fora abandonada por um namorado vagabundo; depois, gerara um filho que a agredira e se tornara num homem perverso, criminoso (que depois fora preso) e, por fim, manifestando uma mente aparentemente insana, referia ser visitada por uma entidade divina:

193 Cf. José Régio, Obras Completas: Histórias de Mulheres — Conto e Novela, p. 132. 194 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 133-134.

195 Adaptado de José Régio, Obras Completas: Histórias de Mulheres — Conto e Novela, p. 204. No

original, apresenta-se da seguinte forma: “puxada para diante, achegada à cara, — e os olhos salientes a escabulhar lá dentro”.

196 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 205. 197 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 222.

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“Horas e horas o Anjo do Senhor conversara com aquela serva de Deus, tu cá tu lá, (a bem-dizer, toda a noite) confiando-lhe como tudo ia acontecer.”198

“Roberto do Diabo” e o “Cavaleiro da Máscara” (“Os Três Vingadores ou Nova História de Roberto do Diabo”, Há Mais Mundos) são duas personagens que ficam demarcadas por uma grande genuinidade realçada pelo designador que as serve. Na verdade, alcunhadas de forma ligeiramente distinta — o primeiro apresenta um prenome e o segundo um nome comum —, encaixam-se sublimemente na diegese que comummente cursam.

O primeiro representa concreta e objectivamente, através do prenome, o rei Roberto, figura que usurpara o trono ao seu cunhado. No designador que serve tal personagem clarifica-se não o homem; não o soberano; mas um indivíduo vil com contornos de carácter maligno e misteriosamente sombrio, justificando-se tais semblantes de carácter nas circunstâncias que antecederam ao seu nascimento:

“Se desde sempre fora mau, suspeito de crimes nefandos, agora se revelava a plena luz o verdadeiro Roberto do Diabo. E então se recordou e propagou uma lenda que, parece, andava ligada ao seu nascimento: Parece que por longos anos em vão seus pais, gente da corte, haviam desejado um filho. Ora um dia, sua mãe dissera: «Quem me dera um filho, nem que fosse do diabo!» Palavra esta que a mulher não pesara, e só pronunciara no seu desespero. Quem sabe o poder que às vezes têm as palavras? a realidade que assumem? A grave palavra que a pobre mulher tão levianamente lançara  reboara pelas cavernas do Inferno. Ao cabo de tantos anos de esterilidade, a nobre dona viu-se grávida. Esquecera o seu dito indigno dela.”199

O “Cavaleiro da Máscara” representa claramente, no nome comum que compõe a sua alcunha, um Ser desconhecido. Esta personagem anónima que ateava fogo nas florestas do reino, caracterizada por ter uma máscara de bronze, assume, assim, um papel sublimado, pois que misterioso:

“Mas na verdade, um ser humano…? O pior é que, de redor dessa figura, logo a aranha da Lenda principiara de tecer a sua teia. Cavaleiro da Máscara,  seria bem máscara o que ele trazia?! ou rosto seu aquele semblante de bronze, aquela face de pedra implacável como o Destino, que mal pudera entrever quem quer que entrevira o Cavaleiro?”200

Na verdade, não só a máscara, mas a própria diegese acaba por conferir a esta personagem o carácter sobrenatural do “Cavaleiro da Máscara”. A autenticidade, a espectacularidade do terror do desconhecido, do enigmático, do insondável, concretiza-se, assim, num cavaleiro cuja esperança impossível de identificar é gorada devido ao uso de uma máscara.

“E era de desesperar! Porque assim se chocavam com alguém muito superior a um comum ser humano (uma espécie de Espectro, uma espécie de Mito) os que, finalmente, haviam

198 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 223.

199 Cf. José Régio, Obras Completas: Há Mais Mundos — Contos, p. 23. 200 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 21.

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crido poderem lutar com um adversário real e concreto: um chefe palpável da rebelião. Como agarrar um fluido ou uma aragem, capturar um clarão que aparece, desaparece, reaparece…?”201

As restantes personagens constituem Seres ficcionais com quem Lèlito experienciara a boémia académica em Coimbra (volume III, A Velha Casa). E, por conseguinte, cada qual participa na ilustração desse mesmo ambiente boémio, mas destacando-se nas suas singulares habilidades: reflexos directos ou indirectos dos objectos a que são associados. Deste modo, o “Travassos da Bola” jogava futebol com destreza; o “Arandas da Pistola” era bélico e expedito, na forma como se dirigia aos caloiros, sendo que “não era menos temido do que admirado”202; o “Valério da Concertina”, o “Raul do Bandolim”, o “Lucas da Guitarra” e o

“Aires do Violão” animavam o ambiente estudantil das Repúblicas e das casas onde viviam os estudantes, pois tocavam com habilidade os instrumentos musicais com que são referencializados; e o “Garção das Trupes”, personagem intimidante, “de temível nomeada entre caloiros e futricas”203 porquanto pertencia a um grupo noctívago de estudantes — a

Trupe —, que exercia a praxe académica.

Por fim, o designador “André das Cautelas” — que serve de pseudónimo a outra personagem, também ela referencializada com diversa alcunha (“Pedro Sarapintado”) —, remete para um anexim de carácter profissional, pois nele se destaca a actividade de vender cautelas. Na verdade, esta personagem usara esta alcunha como “máscara”, de modo a criar uma identidade distinta da que tivera num passado criminoso e vergonhoso e que assim queria ocultar e anular. Todavia, este designador, utilizado no intuito de camuflar, acaba por denunciar, também, um traço representativo da genuinidade da personagem — a forma característica como se expressava verbalmente:

“Por fim, a doença. Nas lotarias achara ainda o seu negócio mais seguro. Mudara de nome, e lá conseguira estabilizar-se um pouco nesse negócio. Era um mister em que, por vezes,

podia expandir a sua natural inventiva de linguagem. Sublinhado nosso Assim Pedro Sarapintado — Pedro da Conceição Martins Correia no bilhete de identidade — se transformara no André das Cautelas.”204

Outro dos grupos de anexins a destacar reporta-se a alcunhas que, numa primeira fracção, são constituídas por prenomes simples e truncamentos de prenomes simples e, numa segunda, são sucedidos de adjectivos ou de nomes comuns sem preposição. Todos eles se adequam a determinada tipologia de designadores/alcunhas que deixam transparecer uma intencionalidade comum: a de vincar um aspecto físico, psicológico e comportamental, profissional ou referencial. Todavia, em cada personagem estes designadores manifestam uma certa especificidade sublime que se reflecte na autenticidade de cada qual.

201 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 22.

202 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa III — Os Avisos do Destino, p. 14. 203 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 171.

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