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profissional de vender jornais na rua, que está sobrecarregado com o peso dos mesmos, apresentando-se, por conseguinte, fisicamente “torto”, pois que dobrado.

Esta última personagem sofre a referencialização de uma alcunha de carácter físico em virtude da sua profissão. Não obstante, há, na NFR, personagens que são efectivamente designadas com alcunhas profissionais226. Na verdade, através dos designadores “Amélia

Bruxa” (“Maria do Ahú”, Histórias de Mulheres) e “Sancho Legista” (O Príncipe com Orelhas de Burro), é declarada a actividade de bruxaria, na primeira; e na segunda, indicia-se que esta figura ficcional tem algum poder de chefia (pois é aquele que legisla), cariz confirmado definitivamente quando uma personagem anónima o apresenta como um dos chefes227.

Esta última figura ficcional representa mesmo o sujeito ambicioso que tem poder de oratória, arrastando consigo multidões, como o próprio Leonel reconhece:

“O certo é que ainda há momentos vira claramente naquele indivíduo um ambicioso inteligente, vulgar, sem escrúpulos, pronto a estribar-se na ignorância ou rudeza de seus infelizes companheiros para ascender ao poder e aos bens.”228

Os traços que marcam “o orador” e o “legista” concretizam-se, então, quando Leonel o enfrenta com palavras e toda a assistência se começa a mobilizar contra o próprio príncipe, pois “(…) esse atrevido intruso acusava o seu amigo deles, o seu orador, o seu defensor, o seu agente e representante perante o Chefe.”229

“Maria Mandioca”, personagem secundária de “As Historietas dum Coleccionador de Antiguidades” (Há Mais Mundos), é designada por uma alcunha referencial, pois que, com o anexim “mandioca”, faz-se alusão a uma “planta das regiões tropicais, com uma raiz tuberosa que é comestível e fornece uma fécula de onde se tira a tapioca”230 conhecida como o “pão-

de-pobre”231 e, consequentemente, à humilde condição social desta personagem: a afilhada

pobre de uma velha senhora. E, na verdade, o nome “Maria Mandioca” é utilizado pela velha senhora de forma a distanciá-la, pois que a primeira pertencia a uma classe social inferior e tinha um comportamento pouco adequado, segundo determinados padrões:

“— Vai-te embora, Maria Mandioca! — gritou a velha voltando-se para ela com a mão fechada no ar.

— Maria quê?... — fiz eu sem querer. Fiz mal, porque novamente me via ameaçado por um inoportuno acesso humorístico. O mais curioso é que estava triste, e continuava constrangido. Só em momentos de perturbação, e até melancolia, me vêm tais acessos humorísticos inoportunos. De repente, certa suspeita que pouco antes me aflorara (posto sem clara

225 Cf. José Régio, Jogo da Cabra Cega, p. 309.

226 Cf. Francisco Martins Ramos e Carlos Alberto da Silva, Op. Cit., p. 19. 227 Cf. José Régio, O Príncipe com Orelhas de Burro, p. 170.

228 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 185. 229 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 180.

230 Cf. AAVV, Enciclopédia Larousse, Lisboa, Temas e Debates, Volume 12, p. 4463.

231 Cf. Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar (Coord.) E Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia, Op.

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consciência dela) se me tornara certeza: A senhora estava embriagada; e a rapariga bem o sabia. «Com licor? Vinho fino? Aguardente? Vinho ordinário?», interroguei comigo.

— Mandioca! … — respondeu ela — É um nome que a gente lhe dá de pequenina, o senhor compreende… a brincar. Chama-se Maria Felícia.”232

Outro dos grupos de anexins compostos a distinguir caracteriza-se por ser constituído por nomes comuns ligados a nomes comuns, mediante a preposição “de”. Estes designadores, ambos de carácter físico e anatómico, mas também referenciais, presentificam-se em “Barriga de Borracha” (“História de Rosa Brava”, Histórias de Mulheres) e “Cabeça de Graixa” (Volume I, A Velha Casa). A primeira personagem fora alcunhada por Rosa Brava, pois que assim pretendia ridicularizar uma figura que fazia parte da sociedade que se pretendia normalizadora e perfeita, não obstante representada fisicamente por figuras caricatas; a segunda personagem era deste modo designada pelos colegas do colégio, de modo a demarcar-se, simultaneamente, a cor da sua pele e o facto de a todos querer agradar, de modo a sobreviver numa sociedade racista e elitista que por isso o marginalizava.

Um dos grupos caracterizado por alcunhas representadas em nomes comuns acompanhados de adjectivos (ou de numerais) é o das personagens: “Pata Choca” (“História de Rosa Brava”, Histórias de Mulheres), “Monge Negro” (“Os Três Vingadores ou Nova História de Roberto do Diabo”, Há Mais Mundos), “Pata Rachada” e “Negra Sorte” (O Príncipe com Orelhas de Burro), “Sete-Mulheres” (Jogo da Cabra Cega), “Carne Crua” e “Papa Grossa” (Volume I, A Velha Casa). Nestas alcunhas, o nome comum visa, além da personagem assim denominada na respectiva diegese, a representação de um grupo geral com tais características em que encontramos a referência a algum aspecto comportamental. Com efeito, “Pata Choca”, assim alcunhada por Rosa Brava, representa a aparência e a passividade femininas benquistas na sociedade circundante pautadora dos valores ideais numa mulher; o “Monge Negro” representa o Ser de contornos sobrenaturais que, por ser anónimo, só assim enfrenta superiormente outro Ser ficcional de feições também elas sobrenaturais (Roberto do Diabo); o “Pata Rachada” que representa o pobre, um mendigo, mas intelectual (que consegue despertar uma primeira consciência social no príncipe Leonel); o “Negra Sorte”, um sujeito bruto, cru, algo sinistro, com pouca sorte na vida, em suma, o homem do povo revoltado com injustiças de carácter social; o “Sete-Mulheres” que representa o mulherengo, frequentador de casas de prostituição; “Carne Crua”, o perfeito do colégio, frio, maldoso, resultado de um passado violento (aspectos subliminares na sua fisionomia física: “(…) uma decomposição medonha se fizera na cara do senhor Barroso, por alcunha o Carne crua.”233, e

o “Papa Grossa”, alcunha aplicada a Olegário, da parte de Adélio, sugerindo um sujeito inconstante pois que representava terreno movediço, mas também alguém de temperamento um pouco acanhado, pois que insondável.

Outras alcunhas pertencentes a outro grupo morfologicamente distinto dizem respeito a formas compostas por elementos verbais que referencializam personagens como: o “Tem-te

232 Cf. José Régio, Obras Completas: Há Mais Mundos — Contos, p. 230. 233 Cf. José Régio, Obras Completas: A Velha Casa I — Gota de Sangue, p. 163.

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não caias” (“História de Rosa Brava”, Histórias de Mulheres), o “Pousa-aqui” e o “Leva- Surras” (Volume I, A Velha Casa). Todos eles globalmente representam elementos da sociedade pautadora de valores, mas representada por seres parcos e detentores das piores condutas e vícios. Deste modo, a personagem “Tem-te não caias” representa uma figura feminina que, não obstante os percalços apresentados pela realidade que a rodeia, se mantém passiva e inerte, inflexível; com o designador “Pousa-aqui” (o director do colégio frequentado por Lèlito na infância), embora se aponte denotativamente para o seu defeito físico de coxear234, conotativamente remete-se para um sujeito instável, que abusa da

autoridade que tem é e corrupto235; e, finalmente, com a alcunha “Leva-surras”, denota-se

ironicamente que o seu portador era maltratado, menosprezado pelos outros, acatando tais actos de uma forma passiva e inerte236. Este anexim é mesmo claramente justificado no facto

de o seu portador ter sido até agredido pelo director:

“A sua alcunha de Leva-surras não lhe viera, mesmo, senão de certo boato: Com ou sem fundamento se dizia haver chegado o director Santos Paiva Filho a pôr-lhe mão violenta na cara…”237

Por fim, no concernente aos anexins compostos, resta-nos destacar um grupo: o dos neologismos de forma, ou seja, aquele que é constituído por construções vocabulares novas. Deste último fazem parte personagens como: “Roão Rebolão” e “Froilão” (O Príncipe com Orelhas de Burro), “Tò-Carocha” (Volume III, A Velha Casa) e “Chu-chu” (Volume V, A Velha Casa). Na verdade, a riqueza da inovação lexical associada à musicalidade que os caracteriza serve a referencialização de personagens que, não obstante o facto de serem ridículas e risíveis, são-no também em virtude de uma sociedade castradora que não aceita a diferença e não desculpabiliza os erros.

Por conseguinte, “Roão Rebolão” é um bobo da corte que, conforme a sua actividade profissional o sugere, representa uma personagem caricata, ridicularizável, com alguma energia. A alcunha de que é alvo aponta para o defeito físico de que a personagem é portadora — o facto de não ter pernas e de se movimentar a rebolar:

“E foi essa pessoa nem mais nem menos que Roão Rebolão, monstro sem pernas que só andava como o seu nome indica — rebolando — e simultâneamente [sic] exercia no palácio os cargos, se tal se lhes pode chamar, de palhaço e poeta libérrimo.”238

Esta personagem é, assim, marginalizada pela sua aparência física, pelas consequentes atitudes sarcásticas e de espião da corte. Não obstante a monstruosidade física e o escárnio que caracterizam Roão Rebolão, é senhor de uma lucidez de raciocínio que o leva a deduzir um aspecto desconhecido da parte de todos os que circundavam o príncipe: a

234 “Chamavam-lhe o Pousa-Aqui por coxear levemente.” (Cf. José Régio, Op. Cit., p. 24.)

235 “Sendo o mais novo, era, também, o mais importante, o menos compreensivo e o mais venal” (Cf.

José Régio, Ibidem.)

236 “Certa propriedade chocante parecia possuir senhor Bento Adalberto, que era de atrair as

escarninhas atenções de toda a gandulagem” (Cf. José Régio, Op. Cit., p. 82.)

237 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 92

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