Jacinto Costa/Joaquim Costa e Joaquim Bastos (A Velha Casa).
Neste conjunto, se atentarmos, por exemplo, em Abílio Maldonado de “Os Namorados de Amância” (Contos Dispersos), a referencialização desta personagem mediante o prenome acompanhado de apelido serve para ilustrar a classe alta a que a personagem pertencia, que se distancia da origem socioeconómica humilde de Amância, a jovem com quem iniciara um namoro. Na verdade, visa-se com estes designadores destacar o sujeito social que não vê uma jovem de classe inferior como futura esposa; está apenas em causa o homem que a vê como uma mulher, um objecto de desejo. Assume-se, assim, uma crítica velada à sociedade e respectivos desígnios e, consequentemente, aos sujeitos que os entendem como normas morais a seguir natural e escrupulosamente. E especifica-se, assim, de forma negativa, a situação socialmente natural do sujeito masculino com posses económicas e alto estatuto que se faz valer dos mesmos para poder vingar no mundo feminino, fazendo da mulher de uma classe inferior um mero instrumento de diversão; negando a reciprocidade dos verdadeiros e puros sentimentos desta última e mascarando-se com galanteios falsos, hipócritas, mas benquistos socialmente. Outro caso que se encaixa no quadro social em que se presentifica Abílio Maldonado é também o de Chico Paleiros (“Davam Grandes Passeios aos Domingos…”, Histórias de Mulheres) que, todavia, sofre uma particularização a analisar noutro conjunto de designadores: o dos diminutivos e, em concreto, dos truncamentos.
Feliciano Medeiros, Miguel Teixeira, Paulo Azeredo e Rita Louro, personagens de “Pequena Comédia” (Histórias de Mulheres) são, também elas, figuras que têm um vínculo de dependência com os ditames da sociedade, perdendo, assim, a sua própria individualidade, rendendo-se ao que era “socialmente natural”. Todas elas usam máscaras no seu dia-a-dia, de modo a manterem um estatuto ou até de, através dele, se valorizarem mais ainda. Por exemplo, Feliciano Medeiros representa um jovem belo e galanteador, socialmente apetecível como pretendente a marido das jovens casadoiras da fina-flor, numa vila perto do Porto:
“Várias mães de família o sonharam para genro, não era partido que se desprezasse. E com a sua desempenada figura, os seus modos educados, o seu bom humor constante, a sua conversa anedótica e superficial, animada, o seu engraçado sotaque brasileiro, ele ia cultivando uma esperançazinha secreta — discreta mas persistente — nos brandos corações das filhas dessas mães…”246
Esta personagem desposa, para infelicidade de inúmeras pretendentes, a jovem fisicamente desenxabida, mas rica e socialmente bem posicionada, Estefânia Medeiros. Não obstante a aparência de um casamento bem-sucedido, das constantes e singulares atenções e cuidados com que trata a sua esposa, esta personagem masculina mantém e sustenta, secretamente, uma amante com um estatuto socioeconómico inferior. Feliciano Medeiros revela-se, então, falso, pois que mascara socialmente o seu casamento com a aparência de uma dedicação exclusiva e da felicidade mútua:
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“Mas a inegável hipocrisia de Feliciano, eis o que se tornou monstruoso a quase toda a gente. Aquelas delicadezas com a mulher, a docilidade com que a seguia à missa, a acompanhava nos passeios aos domingos, a ia buscar a casa das amigas, a levava aos teatros e cinemas do Porto, — tudo pareceu impostura, duplicidade, mentira, cálculo, habilidade «para esconder a
coisa».”247
Entretanto, outras personagens representam diferentes esferas da sociedade que nela avultam. Assim, Miguel Teixeira simboliza o sujeito que não obstante a sua conduta também moralmente incorrecta, denuncia aos habitantes da vila a relação extra-conjugal de Feliciano Medeiros, de modo a valorizar-se socialmente:
“Quem descobriu o caso foi o Miguel Teixeira, que também era casado, também tinha amantes, (umas após as outras) mas, ao menos, com o conhecimento de todos; inclusive da mulher. Por isso conquistara já uma espécie de tolerância e consentimento tácitos — que lhe não evitavam, é certo, a condenação das mais rigoristas mães de família, mas por outro lado lhe concediam a carta de mais ou menos solta libertinagem.”248
E, embora a sociedade circundante critique violentamente este acto, parte da masculina vê-o como natural e inclusive legítimo, pois que Feliciano Medeiros assim salvaguardava a sua consorte que não servia para os devaneios mais vulgares de foro sexual e que merecia ser estimada e alheada de tudo o que a embaraçasse. E é neste enquadramento que Paulo Azeredo representa (mas ironicamente) uma dessas personagens masculinas:
“Só algumas pessoas muito simples, como simples que eram, tiveram esta observação talvez ingénua, talvez não inteiramente destituída de bom senso: — «Ao menos, sempre a tem tratado bem. Podia ser muito pior!» E o Paulo Azeredo, não por simplicidade de coração ou espírito, não, mas por cabotinismo de psicólogo e, principalmente, gosto de contrariar a opinião comum ou arreliar as senhoras, dizia: — «Que diabo! Mas ele não pode ser amigo da mulher, respeitá-la ainda mais, lá por ter outra fora de casa? Eu, então, acho que é a melhor maneira de se continuar amando a esposa legítima…»”249
Se focarmos a família Trigueiros, designadamente nos seus representantes masculinos — Manuel, João e Martinho — verificamos que todos eles sustentam o apelido posposto ao prenome em situações de carácter social em que se visa o uso de uma máscara. Assim, o protagonista de A Velha Casa, quando ainda criança, no colégio no Porto, se apresenta a Olegário com o prenome acompanhado de apelido, fá-lo pois que enquadrado numa situação social protocolar de apresentação250. O mesmo se passa mais tarde, quando já estudante da
academia em Coimbra, e este mesmo seu amigo o apresenta ao grupo socioliterário dos Montes Claros. Todavia, neste episódio, estes designadores assumem uma outra vertente social: a da distanciação, da aparente indiferença, até de um certo desprezo pelas restantes personagens a quem é apresentado. Esta personagem é, então, referencializada com estes
247 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 297. 248 Cf. José Régio, Op. Cit., p. 293. 249 Cf. José Régio, Op. Cit., pp. 297-298.