Segundo a teoria dos jogos, os agentes tomam decisões, sendo que o resultado de cada participante depende das opções dos restantes jogadores, uma vez que estamos perante situações de interação estratégica entre agentes interdependentes. Uma questão-chave desta proposta prende-se com a identificação do comportamento que o indivíduo
57 Os pressupostos de base da teoria dos jogos, nomeadamente, a necessidade de ter um conjunto de
decisores racionais que ambicionam atingir determinado objetivo e que têm em consideração o pensamento estratégico dos agentes, isto é, que inclui o conhecimento e expectativas sobre o comportamento dos decisores, têm sido alvo de inúmeras críticas (Osborne e Rubinstein, 1994).
58 A noção de conflito é entendida enquanto caracterizando uma situação na qual existem interesses não
deveria adotar perante a interação em questão e considerando a ação dos restantes jogadores. Em 1973, foi apresentada uma nova proposta, em que se demonstra que as lógicas da teoria dos jogos são aplicáveis em situações que não apresentam as características acima descritas e em que o indivíduo se afasta da racionalidade, assumindo formas de comportamentos distintas nos diferentes momentos da interação, existindo uma tendência para a homogeneização de condutas (Easley e Kleinberg, 2010).
A teoria dos jogos evolutivos analisa situações de interação estratégica onde o comportamento das populações evoluí ao longo do tempo, seguindo um processo dinâmico de adaptação, tendo em vista introduzir melhorias no desempenho dos jogadores e chegar ao melhor resultado. À medida que a interação se desenrola, as estratégias que apresentam maiores benefícios vão sendo progressivamente mais escolhidas do que aquelas que apresentam benefícios inferiores, através de processos de seleção natural ou de uma regra denominada por replicador dinâmico. Nestas situações, no longo prazo existe uma convergência para a opção por uma alternativa dominante que, em última análise, poderá ser seguida por todos os indivíduos da população em análise, sendo atingido o Equilíbrio Evolucionário Estável (EEE) (Sandholm, 2007; Gomes, 2012).
Podendo ser identificados trabalhos embrionários sobre jogos evolutivos da autoria de Fisher (1930) e de Lewontin (1961), estes são formalizados pela mão de Maynard- Smith e Price (1973). Os autores despertam a atenção para a análise de uma área de investigação com elevado potencial, a análise de jogos evolutivos, que se foca no estudo da robustez do comportamento estratégico, assumindo que os indivíduos em situações de interação que se desenrolam ao longo do tempo aprendem, tendo em vista chegar à solução que maximiza o seu resultado e existindo uma tendência para não alterar esse comportamento (Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2009; Gomes, 2012).
Esta proposta baseia-se numa adaptação da teoria dos jogos tradicional, criada para modelizar o comportamento de agentes económicos racionais, ao contexto da biologia especificamente, à teoria da evolução das espécies, apresentada por Darwin, e segundo a
qual através de processos naturais de interação e experimentação, apenas as alternativas mais fortes sobrevivem, desaparecendo as mais fracas (Sandholm, 2007; Easley e Kleinberg, 2010). Complementarmente, Taylor e Jonker (1978) e Zeeman (1979) estabelecem as condições a partir das quais é possível inferir a existência de uma regra dinâmica – replicador dinâmico que representa a lógica mais utilizada na teoria dos jogos evolutivos e que permite chegar ao EEE (Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2009; Gomes, 2012).
O EEE representa a situação de longo prazo onde as relações de interação se vão manter, a menos que algo perturbe os payoffs do jogo, considerados como constantes, uma vez que este indica qual a alternativa mais robusta às pressões da evolução. Na prática o equilíbrio encontrado é um equilíbrio de Nash ou um equilíbrio não cooperativo, que surgiria caso o jogo fosse resolvido de uma só vez, como um jogo normal. Este equilíbrio dos jogos evolutivos introduz uma dimensão de aprendizagem ao longo de tempo, através da qual os indivíduos vão conhecendo as vantagens de cada opção, num ambiente em que se considera não ser possível a cooperação entre jogadores (Easley e Kleinberg, 2010).
Considerando que a teoria da evolução das espécies tem origem na Biologia, ao aplicar estes conceitos a outras ciências é necessário ter em conta que entram em ação questões distintas, nomeadamente as associadas à racionalidade e ao pensamento racional. Apesar da teoria dos jogos evolutivos ter surgido num contexto de interação de agentes não racionais, onde as escolhas são determinadas pelos sucessos passados, esta é uma poderosa ferramenta facilmente adaptável a cenários de interação humana, em que a escolhas são realizadas em função das suas futuras consequências (Gomes, 2012).
Nas Ciências Sociais, o processo de evolução corresponde às interações que se desenrolam ao longo do tempo e que permitem a criação de normas ou instituições. Em sociedade, não existe uma seleção natural de estratégias, as opções que apresentam maiores benefícios são aquelas que se tornam dominantes e sobrevivem no longo prazo. As estratégias dominantes transformam-se na norma social, que é adotada pela maioria
da população, embora possam existir cenários em que estratégias dominadas sobrevivem (Gomes, 2012).
Apesar de a maioria das propostas sobre teoria dos jogos evolutivos ter sido apresentada por biólogos e economistas, esta lógica tem sido aplicada em diferentes áreas de estudo, como as ciências da computação ou a Sociologia, demonstrando ser uma base comum de trabalho para investigadores de diferentes disciplinas e permitindo explicar um número alargado de aspetos do comportamento do homem (Sandholm, 2007; Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2009).
O interesse dos investigadores das ciências sociais, por uma proposta em que se aplicam conceitos da teoria dos jogos a contextos biológicos, prende-se com três factos. Em primeiro lugar, o conceito de “evolução” utilizado pela teoria dos jogos evolutivos, não se restringe à evolução biológica, devendo ser entendida de modo abrangente e incluindo os processos de evolução cultural ou as alterações nas crenças e normas ao longo do tempo. Por outro lado, a definição de racionalidade assumida nos jogos evolutivos parece ser mais adequada para formalizar sistemas sociais, do que a proposta pela tradicional teoria dos jogos. Por fim, os jogos evolutivos apresentam-se como lógicas dinâmicas, colmatando uma falha da teoria dos jogos (Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2009).
A proposta da teoria dos jogos evolutivos apresenta uma grande relevância no estudo de processos de tomada de decisão, caracterizados pela existência de múltiplos jogadores que têm de escolher entre duas ou mais alternativas de ação possíveis, e em que, ao longo do tempo, tendo em conta que existe uma vantagem na adoção de uma das opções, existe uma convergência de ação dos intervenientes, permitindo analisar aspetos evolutivos da interação. Por outro lado, esta ferramenta permite superar três das críticas apresentadas à teoria jogos, nomeadamente: as situações de múltiplos equilíbrios de Nash, a existência de um jogador hiper-racional e, ainda, a falta de inclusão de aspetos dinâmicos na compreensão de interações estratégicas.
Em suma, a teoria dos jogos evolutivos, apresenta como objeto de estudo uma população (setting) de jogadores alargada, que procura determinar a medida do sucesso que se repete ao longo do tempo. Segundo esta perspetiva, a proporção da população que usa uma estratégia pode evoluir, tendo em vista alcançar o resultado estável da situação, que permitirá à população sobreviver e resistir à mudança (Harrington, 2009).