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A vida em sociedade consiste numa sequência de interações e encontros que são caracterizados pela interdependência estratégica, criada pelos agentes e pelo ambiente onde estes interagem. Neste sentido, esta pode ser entendida como um jogo mediado por regras e convenções, onde é constante a necessidade de escolha entre diferentes alternativas de ação.

A teoria dos jogos surge como um quadro conceptual de análise, que permite solucionar, através de estruturas matemáticas, um conjunto sofisticado de problemas. Aquela que por vezes é entendida como uma caixa de ferramentas, através da qual é possível modelizar fenómenos, revela-se uma linguagem universal cujas representações abstratas permitem abranger um vasto leque de situações da vida real, proporcionando novas formas de investigar o mundo, especificando rigorosamente as condições da interação social (Ginits, 2000; Osborne e Rubinstein, 1994).

Muitas disciplinas têm visto as suas pesquisas sobre interação estratégica enriquecidas pelos contributos da teoria dos jogos: passando pelas ciências sociais como a Antropologia (modernização das práticas e construção do homem simbólico); a Sociologia (teoria das organizações, sociologia política, mudança dos conflitos das mesas de jogo para a realidade); a Psicologia (análise transaccional de Eric Berne (1958); ou as Ciências Políticas (campo onde, por excelência, existe resolução de

conflitos sem violência, através de relações internacionais, actos eleitorais e conquista do poder), até à Biologia (estratégia de seleção natural e teoria da evolução). É possível identificar inúmeras aplicações da teoria dos jogos a outros campos de estudo que à partida parecem não beneficiar da utilização de uma estrutura formalizada (Peréz, 2001).

Este conjunto de ferramentas analíticas desenhadas para nos ajudar a compreender os fenómenos de tomada de decisão, apresenta como pressupostos de base, a necessidade de ter um conjunto de decisores racionais que ambicionam atingir determinado objetivo e que tem em consideração o pensamento estratégico dos agentes, isto é, inclui o conhecimento e expectativas sobre o comportamento dos decisores (Osborne e Rubinstein, 1994).

É possível formalizar a estrutura de qualquer jogo estratégico, através da representação normal ou extensiva, identificando quatro elementos: os jogadores (identidades que interagem e tomam a decisão); as regras [que definem a ordem das jogadas (timings) e o tipo de decisão/ação possível, bem como a informação que cada jogador dispõe a cada momento relativamente aos resultados (payoffs) do adversário e às decisões do mesmo]; as estratégias possíveis (conjunto de combinações de ações possíveis para cada jogador); e os payoffs (resultados associados às combinações de jogo possíveis para cada jogador) (Church e Ware, 2000; Silva, 2009).

Os jogos de estratégia caracterizam-se pelo facto das escolhas e decisões dos jogadores determinarem o resultado final do jogo. Neste tipo de jogo existe necessariamente pensamento estratégico, sendo que o resultado de cada participante depende das opções (estratégia) dos restantes jogadores, isto é, a interação é determinada e caracterizada pela interdependência entre os jogadores (Church e Ware, 2000).

Podemos distinguir diferentes tipos de jogos de estratégia, considerando o objetivo dos jogadores, a atitude dos jogadores, a ordem das jogadas (timming da decisão e o momento da jogada), a incerteza sobre os payoffs do adversário e a informação sobre a história do jogo. Falamos em jogos de soma zero e soma variável (ou diferente de zero); em jogos cooperativos e não cooperativos; jogos simultâneos (strategic games) e

sequenciais (extensive games); em jogos de informação perfeita e imperfeita, e ainda em jogos de informação completa e incompleta (Dixit e Nalebuff, 2001; Gibbons, 1992; Peréz, 2001). Estas categorizações de jogo não são mutuamente exclusivas, mas permitem apreender quais os elementos a considerar na análise de um jogo, sendo que a cada uma delas estão associados conceitos de equilíbrio e modos de solução também diversos.

Ao fazer uma pesquisa sobre teoria dos jogos, surgem automaticamente os nomes de Jon Von Neumann, Oskar Morgenstern e John Nash. Contudo, estes autores, mais do que criadores deste corpo teórico, retomam e completam no século XX a formulação de uma teoria que terá começado a ser esboçada dois séculos antes e cuja base se prende com o estudo económico dos mercados de concorrência imperfeita. (Ross, 2006; Dutta, 2000).

Em 1713, James Waldegrave propôs a solução de estratégias mistas para jogos de duas pessoas. Posteriormente, foram realizadas múltiplas análises por Francis Edgeworth (1881) e Zermelo (1913), em que os autores registam avanços nos raciocínios de interpretação da tomada de decisão especificamente em jogos de xadrez. Ainda no século XIX, Augustin Cournout publicou uma extensa obra Researches into the

Mathematical Principles of Theory of Wealth (1838), onde estabeleceu os princípios da

teoria dos jogos, apresentando uma solução restrita do hoje reconhecido equilíbrio de Nash em situações de duopólio. Também Borel (1953) terá lançado as bases da teoria dos jogos, nomeadamente através da apresentação de uma importante classe de jogos e dos conceitos de pure e de mixed strategies (Dutta, 2000; Luce e Raiffa, 1957; Ross, 2006).

De facto, podem ser identificadas, antes do século XX, várias investigações pioneiras sobre teoria dos jogos em diversas áreas de estudo, mas somente quando matemáticos se debruçaram sobre este assunto é que esta proposta assumiu maior importância. Quando falamos em trabalhos de base nos tempos modernos neste campo de análise, é incontornável fazer referência ao matemático John Von Neumann e ao economista Oskar Morgenstern, autores da reconhecida obra Theory of Games and Economic

Estes dois autores procuraram encontrar um modo efetivo de solucionar um tipo de problemas económicos, tendo introduzido conceitos essenciais como os de jogo de cooperação, de solução para jogos de soma zero e do axioma base da teoria da utilidade. Anos antes, Von Neumann (1928) tinha já chegado ao resultado final, que acabou por ser um ponto de viragem na teoria dos jogos, especificamente nos jogos de soma zero, o Principio Minimax. Segundo este princípio, sem o qual a teoria dos jogos não existe, os jogadores procuram sempre maximizar o seu ganho mínimo, ou de forma equivalente, minimizar o ganho máximo do outro jogador, tendo-se assim estabelecido a base da negociação, da resolução do conflito de interesses coincidentes e das motivações contraditórias. Através deste raciocínio é possível determinar um par de estratégias em que cada jogador maximiza o seu payoff mínimo, solução que equivale a um valor médio onde ambos os jogadores podem esperar ganhar se atuarem racionalmente (Davis, 1983; Dutta, 2000; Luce e Raiffa, 1957). Embora nesta fase a proposta apresentasse ainda limitações, tornando a sua aplicação somente viável perante condições especiais e limitadas, esta amadureceu, podendo hoje ser aplicada através das suas análises matemáticas em diversas áreas e a inúmeros fenómenos sociais (Davis, 1983; Ross, 2006).

Outro grande contributo foi dado por John Nash (1950), autor que introduziu a noção de equilíbrio ou solução de um jogo. O equilíbrio de Nash é um conceito amplamente utilizado na teoria dos jogos, sendo que, com esta nova abordagem falamos não só em jogos de soma zero, como, também, em jogos de soma diferente de zero. É este conceito que permite conceber a teoria dos jogos como, não somente um conjunto de instrumentos através dos quais é possível alcançar uma solução para situações de conflito, mas como uma linguagem universal para resolver problemas que incluem a negociação e cooperação (Dutta, 2000; Ginits, 2000). Nash partilhou, em 1994, um prémio Nobel com John Harsanyi e Reinhard Selten, autores que deram também a sua contribuição para a atualização e aperfeiçoamento da teoria, especificamente através da generalização do conceito de equilíbrio de Nash aos jogos dinâmicos ou sequenciais (Dutta, 2000).

Esta proposta é resultado da integração, refutação e aperfeiçoamento de trabalhos de diversos autores que, ao longo dos últimos séculos, procuraram formalizar os processos

de tomada de decisão estratégica. Atualmente, e fruto de todos os contributos acima descritos, a teoria dos jogos permite determinar matemática e logicamente as atitudes que os jogadores devem tomar para assegurar os melhores resultados para si próprios em situações de interação (Davis, 1983; Dixit e Nalebuff, 2001).

Apesar de todo o seu mérito, a teoria dos jogos tem sido alvo de inúmeras críticas57, que contribuíram em última análise para que as ideias de base desta proposta, inicialmente utilizada para compreender o comportamento económico, tenham sido aperfeiçoadas, permitindo um substancial alargamento e generalização do seu campo de atuação. Esta teoria apresenta grande interesse devido às suas propriedades matemáticas, passíveis de serem aplicadas a diversos problemas sociais, económicos e políticos, sendo uma importante e útil ferramenta de análise de situações de interação estratégica e interdependência.

Existe hoje na teoria dos jogos uma clara orientação estratégica para a cooperação e negociação, e não para o conflito58, ou seja, para situações onde a comunicação assume um papel preponderante em todo o processo, permitindo a construção de pontes de entendimento entre os jogadores. Em suma, para a teoria dos jogos, os jogadores em interação, através de uma estratégia escolhida por si, procuram o melhor resultado possível, tendo em vista chegar a uma situação de equilíbrio na qual nenhum dos intervenientes pode fazer melhor (Harrington, 2009).