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Enquanto disciplina científica e profissão, as Relações Públicas pressupõem o desenvolvimento de um conjunto de atividades de investigação, cujo âmbito e objetivo é necessário clarificar, para que exista um entendimento correto sobre as diferentes realidades às quais podemos fazer referência quando são mencionadas tais práticas de pesquisa.

Posicionada como função estratégica da organização, com o intuito de criar e manter relações estáveis e duradouras, que garantem a autonomia da organização e possibilitam que esta concretize os seus objetivos, as Relações Públicas envolvem um conjunto de processos de investigação37 que permitem ao profissional ter um conhecimento aprofundado, relativamente ao contexto e situação sobre os quais terá de actuar e lhe possibilitam garantir objetividade e rigor ao seu trabalho. Nesta perspetiva, a investigação é definida como o método de seleção de informação controlado, objetivo e sistemático, que tem por objetivo descrever e compreender as realidades, permitindo a construção de diferentes cenários e possibilitando uma abordagem científica na resposta a determinadas questões, sendo um pressuposto para as Relações Públicas efetivas (Broom e Dozier, 1990; Theaker, 2008).

A investigação, enquanto recolha sistemática de informação baseada em metodologias científicas, é um dos momentos cruciais na função estratégica de RP, uma vez que torna

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a prática desta disciplina mais efetiva e útil, garantindo a demonstração dos resultados da intervenção dos profissionais de RP, e permitindo ainda reduzir a influência do investigador no processo, possibilitando uma descrição da realidade mais fatual e não enviesada (Broom e Dozier, 1990; Dozier, 1992; White e Mazur, 1995; Skinner et al., 2004).

Por outro lado, tal como todas as disciplinas nas mais diversas áreas de conhecimento, as Relações Públicas efectuaram o seu caminho tendo em vista o seu reconhecimento. Neste sentido, do ponto de vista do desenvolvimento das Relações Públicas, enquanto disciplina da comunicação aplicada, na esteira de Pavlik (1987 em Ling Sha, 2011b), podemos identificar três áreas de investigação distintas: a investigação de base, tendo em vista a construção de um corpo de conhecimentos sólido; a investigação aplicada, com o intuito de analisar e melhorar o desenho e implementação de estratégias de comunicação; e, por fim, a investigação introspectiva, com o propósito de avaliar o estado da arte do desenvolvimento da disciplina, e contribuir para a definição de quais devem ser as direções dos estudos a desenvolver no futuro.

Diversas investigações sobre as RP demonstram que existe um predomínio de investigações aplicadas e que são em número inferior os trabalhos que têm em vista a construção de teoria, tornando mais robusta esta área de estudo (Ferguson, 1984; Sisco et al., 2011). Contudo, académicos e profissionais têm desenvolvido esforços conjuntos, no sentido de apresentar propostas teóricas válidas, passíveis de serem utilizadas. Espelho de tais investimentos são as obras PR Theory, editadas em 1989 e 2006 e em que, respetivamente, se apresentam as propostas associadas à emergência de uma disciplina e se procura uma verdadeira teoria das RP.

O primeiro estudo sobre a produção académica em RP apresenta como objetivos dar a conhecer o estado da construção da teoria e realizar um levantamento das direções futuras da investigação neste corpo de conhecimento, colocando em evidência que existem três grandes áreas de estudo sobre as quais se têm centrado os trabalhos desenvolvidos – as RP, a sua função, o ensino e futuro da prática; análise da prática; e desenvolvimento da teoria, sendo que apenas 20% dos estudos analisados tinha em vista dar um contributo para o desenvolvimento da teoria (Ferguson, 1984).

Em 2003, Sallot et al. realizam uma nova aplicação do estudo desenvolvido em 1984, concluindo que, embora não existam paradigmas dominantes, o desenvolvimento da teoria em RP está a seguir um caminho único.

No ano de 2011 surge uma nova replicação dos dois primeiros estudos realizados em 1984 e 2003, tendo sido adotada uma abordagem descritiva, sem hipóteses, tendo em vista chegar a uma compreensão mais profunda do tópico. Esta investigação indica que, mais do que propor novas teorias, os autores têm introduzido melhorias às já existentes, não tendo emergido paradigmas dominantes, apesar do aumento do número de artigos focados no desenvolvimento de teoria, sendo que muitos deles apresentavam influências do estudo da excelência proposto por Grunig (1984). Este último trabalho conclui ainda que: 49% dos artigos analisados têm origem noutras áreas, como as ciências sociais e a gestão, e que 59% dos artigos em análise utilizam métodos não empíricos nos seus estudos. Se o trabalho de 2003 demonstrou a existência de resultados positivos ao nível da produção de conhecimento, tendo em vista a construção de um corpo teórico sólido em RP, o estudo de 2011 indica que esse progresso terá estabilizado. Note-se que nestes três estudos apenas são analisados artigos, tendo sido excluídos enquanto objetos de análise todas as obras no âmbito das Relações Públicas (Sisco et al., 2011).

Watson (2008), através de um estudo delphi, procura identificar as prioridades de investigação em RP a uma escala internacional. São identificadas como prioridades de investigação em RP: o papel das RP na área estratégica da organização; a criação de valor das RP, através do capital social e das Relações; e a avaliação em RP. Os resultados de estudos como o realizado por Watson são importantes para direcionar a investigação em RP, tendo em vista que seja dada uma resposta às necessidades da própria disciplina (Watson, 2008).

No ano de 2009, Wehmeier desenvolve também um estudo delphi sobre as direções futuras das Relações Públicas. O foco de análise apresentado foi a relação entre a teoria e a prática, o impacto de outras ciências nas RP e ainda a teoria e conceitos que são mais úteis na prática das RP. Os desenvolvimentos recentes das RP levam a compreender esta disciplina desde uma perspetiva de gestão, falando-se cada vez mais

do conceito de “gestão da comunicação” e “gestão de relações”. O estudo apresenta duas tendências nas RP: o esforços no desenvolvimento, tendo em vista uma aceitação na área da gestão, e o investimento para obter um reconhecimento na sociedade.

As RP são, como tantas outras, uma disciplina com fronteiras porosas em relação a áreas de estudo, como a Gestão, a Psicologia, os Estudos das Organizações, Estudos dos Media, Biologia, entre outras. Este facto leva a que, por vezes, se questione se estas podem ser consideradas uma área de investigação independente. Contudo, em última análise, todas as áreas de conhecimento começaram desta forma, utilizando conceitos emprestados de outras áreas para construir o seu corpus, e a sua evolução está também dependente de uma manutenção desta lógica de complementaridade e partilha de conhecimento. (L’Etang, 2009).

Diversos autores defendem que a construção do corpo de conhecimentos em RP deve acontecer numa perspetiva de sistema aberto, existindo uma interligação com outras ciências e sendo dadas respostas ao que a organização necessita (Broom, 2006). Esta linha de pensamento espera que o desenvolvimento da teoria em RP possa beneficiar da interdisciplinaridade (Sallot et al., 2003). A diversidade é uma característica da investigação em Relações Públicas e um elemento também presente ao nível de abordagens teóricas e conceitos importados de outras ciências (Gregory, 2012).

Um dos problemas de posicionamento mais antigos em RP, prende-se com o facto de a teoria, a investigação e, também, a prática das RP estarem associadas às relações com os

media, como se esta função definisse toda a prática. Na realidade, é necessário um

paradigma que posicione as RP como uma função estratégica que acrescenta valor ao funcionamento da sociedade, uma visão que faça sentido para todo o tipo de organizações e que demonstre a necessidade e importância desta atividade (Heath, 2006).

Independentemente do seu estado de maturidade, a dinamização de investigação para o desenvolvimento de teoria é um fator crucial para o crescimento, evolução e reconhecimento de uma área de conhecimento. No que diz respeito especificamente às

Relações Públicas, o desenvolvimento de tais processos assume um papel extremamente relevante, uma vez que estamos perante uma área de estudo recente, que necessita de manter ativa a dinamização de novo conhecimento, tendo em vista o seu reconhecimento pleno (Okura et al., 2008). Os resultados dos estudos demonstram que é pertinente e necessário o desenvolvimento de investigação que promova a criação de propostas teóricas que enriqueçam, reforcem e validem as já existentes. A concretização de tal objetivo será certamente enriquecido pela adoção de uma perspetiva de sistema aberto na construção do conhecimento, baseada na interdisciplinaridade e complementaridade de saberes.

Com o início da segunda década do século XXI, é tempo de refletir sobre o que tem sido feito, não só em termos teóricos, mas também na prática das RP. Esta é uma área de investigação que apresenta grandes oportunidades, criadas pelo aumento do número de programas e projetos de doutoramento a nível mundial, pelo aumento de artigos publicados em jornais de outras áreas, pelo número cada vez maior de profissionais que está a mudar-se para a academia, trazendo novos contributos e perspetivas e, ainda, pelo aumento do número de executivos nos órgãos de tomada de decisão que são da área das RP, factos que têm levado a uma maior aproximação entre a teoria e a prática e, consequentemente, a um reconhecimento superior da área de estudo (Gregory, 2012).

As investigações realizadas têm procurado analisar as RP de múltiplas perspetivas - da profissão, do processo, dos públicos e da prática (setores) (Baskin et al, 1997), sendo que, a nível mundial, o foco das análises é colocado em questões distintas (David, 2007). A maioria dos estudos são, em termos metodológicos, quantitativos, e apresentam como temas mais recorrentes os papéis dos profissionais, a avaliação, os novos media, a ética e a delimitação do campo de estudo. Estas temáticas são relevantes e os estudos desenvolvidos têm-se apresentando como uma mais-valia para o reconhecimento da profissão e da disciplina, mas é nossa responsabilidade abrir a discussão em áreas menos exploradas.

As teorias devem ser assumidas como dinâmicas, como entidades em crescimento que não podem ser compreendidas de forma distante do contexto do seu desenvolvimento

(Sallot et al., 2003). Neste sentido, as perspetivas apresentadas entre 1980 e 1990, que durante muitos anos foram entendidas enquanto dominantes, estão a ser questionadas e postas em causa, estando a surgir novas propostas, abordagens e pontos de vista (Gregory, 2012). É preciso pensar de um modo divergente para ajudar a criatividade e trabalhar em novas e desafiantes áreas, apesar de parecer uma tarefa difícil, esta pode tornar-se muito recompensadora - “As Relações Públicas têm muito mais a aprender

sobre si próprias saindo da sua zona de conforto e dos seus conhecimentos tradicionais de base (...).” (Curtin e Gaither, 2007, p. 261 em L’Etang, 2009).

É tendo por base a lógica explanada que deve ser entendido o presente trabalho de investigação. Assumindo que as áreas de conhecimento, embora autónomas, são interdependentes, beneficiando da interdisciplinaridade e evoluindo constantemente a partir de uma interação estreita entre a teoria e a prática, é apresentado um novo modo de compreender o desenho de estratégias de comunicação, uma das competências estruturantes da função de Relações Públicas, tendo por base conceitos e abordagens sobre o estudo da tomada de decisão.