2.4 Summary
3.1.1 Representations
Ao analisar a situação dos cursos de formação inicial de professores no Brasil, entre estes o curso de Pedagogia, Gatti (2010) destaca a importância de se considerar as características dos licenciandos, pois estas têm peso sobre as aprendizagens e seus desdobramentos na atuação profissional. Sob essa perspectiva, cabe assinalar que parte considerável dos participantes ingressou na faculdade já com um déficit (conhecimentos/saberes/competências) herdado de uma trajetória escolar precária, cujos desdobramentos, nesta fase inicial na docência, já incidiram no processo de
desenvolvimento pessoal e profissional dos participantes. As condições socioeconômicas, culturais e geográficas em que estava inserida a maioria dos iniciantes durante a época da escolarização pregressa não favoreceu a eles uma trajetória escolar de qualidade. A evasão escolar, o início tardio nos estudos, as reprovações, o histórico escasso de escolarização familiar, a necessidade de trabalhar para suprir as carências familiares e, mesmo a baixa qualidade do ensino em algumas escolas foram apontados como fatores que influenciaram a qualidade da escolarização básica dos participantes.
A baixa escolaridade da maior parte dos pais dos participantes é um aspecto que deve ser ressaltado, pois, tal como preceitua Gatti (2010), esta questão pode ser tomada como um indicador importante da bagagem cultural das famílias. Como uma das consequências disso tem-se a precarização cultural expressa nas muitas dificuldades que os iniciantes mostraram ter, por exemplo, com a linguagem (falar/escrever/ler), no domínio dos conteúdos relativos aos anos iniciais do ensino fundamental e na execução de tarefas simples da rotina escolar, como preenchimento de relatórios, diários, planejamento de aula, entre outras. Tais dificuldades foram explanadas pelos próprios participantes em seus depoimentos, além de terem sido constatadas na observação participante.
Cabe ainda lembrar que o papel do professor não se limita a transmitir conhecimento e informação. Espera-se que ele seja um formador e/ou transformador de opiniões e valores. Sob essa perspectiva, ressalta-se a importância de uma formação pessoal e docente de qualidade. Sabe-se que nenhuma ação educativa é neutra, mas sempre intencional, contextualizada social e politicamente. É comum, pois, que o professor se torne para seus alunos um exemplo daquilo que é certo e/ou adequado a se fazer e, também, de ser. Então, há sempre que se pensar na responsabilidade de suas ações, haja vista que o impacto daquilo que será expresso no seu cotidiano escolar poderá ser maior ou menor nos alunos dependendo também das vivências e experiências sociais e culturais que o professor adquiriu ao longo de sua história de vida:
Eu fui criada na roça e na minha época a gente só ia pra escola com sete anos quando ia. Meus pais são analfabetos e não tinham condições de colocar todos os filhos pra estudar porque a gente não tinha escola perto e pra se deslocar era muito difícil. Então o meu ensino fundamental e médio não foi bom e a faculdade não preencheu muito essa carência. Eu tive que sair do interior pra continuar estudando. Tive que começar a trabalhar cedo para me manter. Aí foram vindo tantas dificuldades que eu larguei os estudos e só voltei muitos anos depois. (Professor “C”)
Eu entrei na escola com nove anos de idade porque eu morava na roça e eu tinha que trabalhar pra ajudar em casa. Eu nunca fui muito bom aluno e o ensino do interior também é precário. Eu sempre tive muita dificuldade pra aprender português, até hoje às vezes eu me atrapalho pra escrever ou falar alguma palavra. Pra fazer os relatórios eu tenho muita dificuldade também, porque tem que usar um linguajar mais formal. Ter que ensinar o que eu nunca aprendi é uma das partes mais difícil desse trabalho de professor. Eu vou confessar que às vezes eu passo aperto com o conteúdo porque tem muita coisa que eu nunca aprendi nem no primeiro grau nem na complementação que eu fiz pro magistério. Às vezes eu fico pensando na responsabilidade que eu tenho de ter que passar as coisas certas pros alunos e isso me deixa angustiado. (Professor “G”)
O depoimento acima retrata o perfil de um participante cuja trajetória escolar não foi bem sucedida e, apesar da assumida dificuldade que ainda tem com a Língua Portuguesa, ‘está’ como professor e, conforme relatado em seus depoimentos, a sua opção pela docência aconteceu apenas pela facilidade em conseguir um emprego tendo somente o curso de magistério. A pouca atratividade da carreira docente tem desmotivado e afastado os melhores alunos do trabalho com/na docência (GATTI, 2009) e deixando espaço para a maioria das pessoas que não tiveram bom desempenho no Ensino Fundamental e médio entrarem em sala de aula como professores. Assim, enquanto os melhores alunos se afastam da docência os que não foram tão bons assim são atraídos para ela. Então, o melhor conhecimento não é passado adiante quando deveria ser exatamente o contrário. Com isso perdem os alunos que muitas vezes tendem a serem vitimados pela formação precária de alguns professores, tal como a do participante supramencionado.
Frente a esse cenário, como pretender que os alunos adquiram competências e habilidades com e/ou na linguagem se o professor que deveria ser o modelo em sala de aula não as tem? Da desqualificação profissional de um professor poderão advir prejuízos acadêmicos a toda uma geração de alunos. No contexto desse estudo, essa situação levanta uma série de questões que merecem ser analisadas. Uma dessas questões se refere à localização da escola onde foi realizada a pesquisa. Trata-se de uma escola situada numa área menos favorecida socioeconomicamente onde crianças vivem num contexto de vulnerabilidade social, o que por si só, já garantiria o direito a uma escola de qualidade com um quadro de professores bem formados e capazes de proporcionar meios para os alunos vivenciarem uma trajetória escolar bem sucedida e assim tentarem romper com o ciclo de insucesso escolar e de pobreza que marcam várias de suas gerações.
Mas, como no contexto desse estudo a situação é contrária, a ausência de uma escola pública de qualidade e, consequentemente, de professores bem preparados apenas se constitui em mecanismo de reprodução das desigualdades sociais ali existentes. Dessa desigualdade social provavelmente advirá a desigualdade de oportunidades que muito possivelmente interferirá na educação e escolarização dos alunos da escola em questão. Vale enfatizar que não se tem a pretensão de imputar à escola pública a responsabilidade de resolver questões sociais tão amplas mesmo porque isso implicaria atribuir-lhe o poder de mudar as estruturas que determinam as desigualdades sociais, o que foge do seu alcance. No entanto, isso não isenta a escola e os professores da responsabilidade no enfrentamento dessas desigualdades.
Num cenário de exigências de ordem social, cultural e econômica, em que prevalece a desigualdade social, a escola e os professores, em especial, deveriam trabalhar para garantir condições mínimas para os alunos se apropriarem de conhecimentos e habilidades que os permitisse competir e participar da vida social e produtiva. Nesse contexto, a formação do professor assume posição de destaque, pois como bem lembra Kuenzer (1999), quanto maior a precarização econômica e cultural, quanto menores os investimentos, mais bem qualificado precisará ser o professor, o que não parece ser a realidade dos participantes desse estudo. Não se pretende aqui tecer críticas nem responsabilizar a maioria dos professores participantes por terem tido uma formação inicial e pregressa deficitárias. A intenção é, tão somente, incitar a reflexão e, com isso problematizar o fato desses professores, ainda estarem na condição de iniciantes, o que já acarreta situações bem específicas que tendem a repercutir em toda a comunidade escolar e de modo mais grave no professor e em seus alunos.
Ademais disso, os dados gerados por este estudo corroboram o que mostra a literatura sobre a realidade dos cursos de Pedagogia (condições de oferta e características destes cursos) no cenário nacional. Tais cursos estão entre os menos seletivos nos requisitos escolares exigidos sendo, portanto, onde se encontram os estudantes com menores recursos e cuja escolarização pregressa é deficitária (GATTI, 2010), o que pode explicar o fato dos participantes desta investigação terem sido levados a cursar Pedagogia.