2. DEFINISJONER, BEGREPER, FOREKOMST
2.2 Rapportens begreper
com o investigador, geradora deste processo de recolha de histórias de vida.
No caso deste estudo, os narradores são seres gregários inseridos num contexto profissional, formativo e pessoal que se disponibilizaram a tornar-se participantes da investigação, de maneira a narrarem as suas vidas, tendo em conta esses contextos e recorrendo à memória, para relembrarem percursos e momentos seus.
Implícito ao narrador encontra-se a subjetividade própria do mesmo que influencia todo o processo.
As histórias de vida inserem-se numa tradição que leva a que o investigador estude as influências socioculturais presentes no indivíduo (Brandão, 2007).
Estas influências transformam a história do sujeito em algo singular e pessoal, contada sob a própria perspetiva do sujeito e conforme a experiência que ele tem (Brandão, 2007).
Neste sentido, fala-se então, da subjetividade própria do narrador.
Aquilo que é subjetivo é, para além de outros, sinónimo de característico ou particular. Daí o termo se adequar tão bem e se encontrar, por vários autores, entrelaçado com as histórias de vida.
De acordo com Elsa Lechner, a pessoa que narra “não é nunca um objecto/sujeito acabado da pesquisa mas um elemento de diálogo promotor de nova[s] formas de saber, de novas formas de aprendizagem, de novas subjectividades e projectos” (Lechner, 2009:100), exaltando- se o carácter recíproco da troca que se estabelece entre quem fala e quem ouve.
O narrador, exaltando o seu próprio Eu e sendo o centro das atenções, narra a sua história imbuindo-lhe o caráter pessoal – a tal subjetividade - e, portanto, deposita na narração a sua emoção e o seu sentimento – obviamente que o grau emocional e sentimental depende daquilo que se está a narrar e, claro está, da pessoa (Brandão, 2007).
Ao recorrer à memória – elo de ligação do sujeito com o passado e o presente - o indivíduo revive sensações e emoções afetas ao contexto que os produziu.
Nesta situação podem ser ressuscitados os mesmos sentimentos e emoções presentes no momento em que a história aconteceu, como podem ser reestruturados conforme o contexto em que o sujeito se encontra no presente (Brandão, 2007), o que dependerá da intensidade dos acontecimentos e da visão do narrador face a eles no momento da narração.
O momento da narração consiste numa reflexão pessoal onde, segundo as autoras Maria Martins Ribeiro e Rosângela da Silva Santos (2000), “O sujeito reflete sobre sua vida, enquanto a narra no contexto do presente, liberando seu pensamento crítico, que, além de selecionar os fatos, determina o significado atribuído a eles, realizando um verdadeiro balanço de sua vida” (Ribeiro & Santos, 2000:49).
É neste sentido que Brioschi e Trigo (1987, citados por Ribeiro e Santos, 2000:49) explicitam que “o narrador conta a sua vida hierarquizando, valorizando ou desvalorizando determinados aspectos, reforçando outros, imprimindo à narrativa a sua visão pessoal e subjetiva”.
Compreende-se, portanto, que tudo aquilo que o investigador conseguir obter será conteúdo selecionado pelo narrador e será contado de acordo com a sua perspetiva, com a sua crença, com os seus pensamentos e com as suas vontades.
Daqui advém uma questão importante: a validade da narrativa que se relaciona com a subjetividade do narrador (Brandão, 2007).
No que respeita a esta validade mencionada, Christine Delory-Momberger refere que
“Durante o ato da narrativa, o sujeito se configura segundo uma hipótese de
si mesmoque advém da multiplicidade de possibilidadesque constituem seu
horizonte e que ele tomaprovisoriamente como aceitável ou ‘suficientemente
boa’” (2006:364).
Ao assemelhar o sujeito a uma hipótese, Delory-Momberger explica que o sujeito
“permite instituir provisoriamente uma figura de si, submetida à validação da experiência. Por meio da sucessão e da diversidade das experiências, o sujeito- hipótese testa e experimenta a validade de sua construção identitária e a
Ao contarem as suas histórias de vida, os sujeitos narradores narram aquilo que é uma “ficção verdadeira do sujeito: ela é a história que o narrador, no momento em que a enuncia, tem por verdadeira, e ele se constrói como sujeito (individual e social) no ato de sua enunciação” (Delory-Momberger, 2006:364).
A história de vida emancipa-se, então, como ato performativo, porque a narração “institui o sujeito no tempo de sua enunciação” (Delory-Momberger, 2006:364).
Delory-Momberger (2006:365) afirma, ainda, que “A história de vida não é a história da vida, mas a ficção conveniente pela qual o sujeito se produz como projeto de si mesmo”.
O sujeito, enquanto narrador, está inteiramente ligado à linguagem de modo constitutivo – pelo que a linguagem se compõe como espaço onde se cria uma história e um indivíduo dessa história, configurando-se um processo ou, como refere Delory-Momberger (2006:364), “um conjunto dinâmico de operações”. O sujeito que narra é o sujeito principal da história de vida que conta sobre si mesmo, “ele é objeto incessante de sua própria instituição” (Delory-Momberger, 2006:364).
Ainda no que respeita ao momento da narração, Piedade Lalanda (1998), assegura que o sujeito que narra deve sentir o à vontade necessário para realizar a sua narrativa – seja com o ambiente em que se insere, seja com o sujeito que o questiona.
O sujeito narrador é, portanto, uma figura central e deve ser considerado como tal, já que acaba por apoderar-se das rédeas da entrevista ou da narrativa em alguns momentos, ditando o percurso do processo narrativo, segundo a mesma autora.
Ainda assim, o narrador por mais central que seja no momento da narração, tem noção (ou deve ter) de que o investigador conduz a narrativa, ou a entrevista, conforme os objetivos definidos previamente, pelo que aquilo que se ouve não é um qualquer relato sem estrutura ou sentido, mas sim uma realidade segundo uma linha cronológica proposta ao sujeito que narra – e à qual o narrador se aproxima ou distancia (Lalanda, 1998).
2.3. A relação narrador e investigador como processo de (trans)formação7