4. LEVEKÅR OG LIVSKVALITET FOR PERSONER MED KJØNNSINKONGRUENS
4.3 Helseutfordringer
trabalho?
Perante a análise das entrevistas biográficas e de acordo com as informações conseguidas durante o estágio, fosse por meio informal ou através da observação, fez-se a respetiva interpretação e tiraram-se algumas conclusões.
Se recuarmos até ao capítulo respetivo ao enquadramento contextual do estágio, somos suscetíveis de reler as questões de partida aí inseridas. Neste momento, de pós interpretação e de pós análise, estamos capazes de refletir e responder a essas questões, como forma de sintetizar e estruturar a linha de estruturação do presente capítulo.
À questão O contexto organizacional das colaboradoras, enquanto recursos humanos da organização, é influenciado pelas experiências de vida?, cremos que a resposta é afirmativa. Efetivamente constatou-se que todas as colaboradoras entrevistadas passaram por fases que determinaram a sua entrada na instituição atual de trabalho, fases essas que se constituíram como um marco importante nos percursos de vida: Alzira conseguiu um estágio na E.R.P.I., tendo ficado com a vaga depois do falecimento da colaboradora que o ocupava, Fátima desistiu de estudar aos 17 anos e, com a ajuda da antiga encarregada de serviço da instituição, começou a exercer funções de auxiliar e Ester, devido ao facto de ter ficado órfã muito cedo e ter vivido num colégio interno, teve acesso ao trabalho na instituição, em várias valências. O conhecimento de cada uma, proveniente dos trajetos construídos, influencia o contexto e as funções que desempenham e, acima de tudo, enriquece-as.
Antes de realizar este estudo suspeitou-se que, poderia haver a possibilidade das colaboradoras terem passado por situações onde tivessem desempenhado a função de cuidadoras informais, o que as pudesse ter atraído para o serviço com idosos. Porém, depois de analisada a informação a que se teve acesso, constatou-se que esta não era uma premissa assegurada nem
obrigatória, pelo menos neste caso. Antes de entrarem para a atual instituição de trabalho, apenas Alzira realizou tarefas concretas de auxílio a idosos. Fátima, depois de terminar os estudos, aprendeu a desempenhar algumas funções para assegurar alguns cuidados a idosos e Ester iniciou mais tarde o contacto direto com este público. Ao contrário, e refutando a previsibilidade outrora (no início da investigação) instituída na ótica da investigadora, as tarefas ou profissões anteriores com idosos não são, efetivamente, um aspeto obrigatório nem um fator de exclusão para se exercer esta profissão. Pode, efetivamente, acontecer, como é o caso de Alzira, mas o conhecimento e o desenvolvimento profissional acabam por chegar através de outros meios, o que nos comprova a relevância da formação ao longo da vida.
Afirma-se, portanto, que a forma de entrada na instituição, derivada dos trajetos anteriores, e o percurso que levou as colaboradoras a exercerem as funções que atualmente exercem, são fruto de marcos e reviravoltas presentes no percurso das suas vidas. Os contornos das suas histórias de vida levaram a que, em algum momento, por algum motivo (identificado em cada uma das narrativas), as entrevistadas se encaixassem nesta instituição.
Quanto à pergunta Que dados podemos retirar destas histórias de vida para a definição de eventuais formações no contexto de trabalho das colaboradoras?, no fundo, o principal aspeto que constatamos foi se a formação era uma constante na vida das colaboradoras e se sim, como e porquê. Através das narrativas averiguamos que Alzira e Fátima se submeteram a cursos profissionais que, no caso de Alzira, contribuiu para o seu conhecimento e prática profissional. Contudo, por meio das histórias de vida não foram realçados assuntos concretos para a realização de eventuais formações, visto que a organização de trabalho assegura um bom leque destas atividades por ano. Como já referido e em conversa com as colaboradoras, apenas se averiguou que seria necessário promover formações ou ações de sensibilização que informassem para certos temas de cariz mais teórico.
No que se refere à questão Em que medida a organização colabora no percurso formativo das colaboradoras?, como já se afirmou, a instituição mãe promove variadíssimas formações por ano, ditando um regime de obrigatoriedade de carga horária de 35 horas de formação por colaboradora. A formação é de frequência obrigatória, podendo, em parte, ser selecionada pelas colaboradoras, desde que haja cumprimento das horas impostas.
Por último e respondendo às duas questões em falta, concomitantemente -De que forma as experiências de vida das colaboradoras se repercutem no decurso do exercício do seu trabalho com idosos? e As Histórias de Vida, enquanto instrumento formativo e metodológico, manifestam-
se como um contributo no desenvolvimento do potencial humano?, afirma-se e confirma-se que as experiências de vida das colaboradoras selecionadas se repercutem nas ações e reflexões que hoje praticam: sejam ações para com os idosos, sejam reflexões conscientes das tomadas de decisões que realizam diariamente. Tanto Alzira, como Ester foram aconselhando a investigadora durante a entrevista, para o seu próprio futuro, de forma amigável, claro, em certos pontos das suas narrações, face ao momento que narravam e de acordo com as escolhas que fizeram. Para além de tal demonstrar uma certa empatia, revela que as vivências de cada uma e as suas escolhas não são meras memórias, mas sim aspetos presentes e assíduos nos seus quotidianos, seja no trabalho diário com idosos, seja nas suas vidas pessoais.
Após a interpretação da informação a que se teve acesso, concluiu-se o que era previsível: as histórias de vida são o bilhete de identidade da pessoa - muito particular, muito pessoal, muito característico, muito rico e com acesso restrito. As histórias de vida traduzem o conjunto de trajetos que constituem cada um de nós. Engloba os sentimentos, as visões, as características que nos constituem, as ações perante o círculo social onde nos inserimos.
Nesta investigação, as histórias de vida contribuíram, sem dúvida, para a postura, para a visão, para a aprendizagem, para a formação e para o desenvolvimento a todos os níveis das entrevistadas, ajudando ainda na minha própria visão e formação. O reviver momentos do passado, arduidades, trajetos, sentimentos e pessoas que já partiram contribuíram para a compreensão da realidade social de cada entrevistada no momento em que contavam as suas histórias face ao momento em que elas realmente aconteceram, para a compreensão da relação do indivíduo com a estrutura social que o alberga, para a compreensão das ações executadas pelos indivíduos dentro dos seus sistemas e, acima de tudo, para a compreensão de si mesmos enquanto seres humanos. Não foi necessário perguntar às entrevistadas, efetivamente, o que sentiram depois de narrarem as suas histórias: o facto de terem a oportunidade de o fazerem ocasionou um certo alívio, se assim lhe podemos chamar, por libertarem as suas histórias, por darem a conhecer as suas vivências. Por isso, afirma-se que as histórias de vida contribuem sim para a prática profissional das colaboradoras com idosos através de todo o enriquecimento e desenvolvimento que cada uma ganhou através dos vários trajetos das suas vidas, independentemente da proximidade ou não à atividade que hoje exercem.
Como se referiu no capítulo do enquadramento teórico e que se verificou após a interpretação, esta investigação - Os Contributos das Histórias de Vida de Colaboradoras na Prática Profissional Com Idosos -serviu realmente duas dimensões: primeiramente, as narradoras abriram as suas
vidas permitindo que a investigadora acedesse e extraísse o conhecimento que evidenciasse a forma como Alzira, Fátima e Ester se formaram ao longo das suas vidas e a forma como todas as suas experiências de vida e trajetos se constituíram como formação. Em seguida, Alzira, Fátima e Ester, ao narrarem as suas histórias permitiram que elas próprias se consciencializassem dos factos vividos e narrados, mais uma vez, pondo em destaque a formação (auto formação). Neste ponto da investigação, afirma-se que serviu ainda uma terceira dimensão, importantíssima e promotora de acesso às duas dimensões anteriores: o testemunho representativo de superação. Os testemunhos (auto)biográficos manifestaram-se como momentos de superação de entraves das vivências das entrevistadas. Em todas elas se encontrou a perceção da realidade, o que implicou as suas posturas de combate face às realidades que presenciaram. Deste testemunho teve-se, então, acesso às dimensões que anteriormente se evocaram – testemunhos com uma permeabilidade que objetiva um “processo de transformação libertador” (Lechner, 2009:99).