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In document Fortunatus Bahendwa (sider 131-137)

Chapter 3: Individual Practices in the Making of Informal City 83

3.4 The plot contents and its contribution to block or

3.4.1 The plot content

Vimos já a descrição que Ida fez de seu sonho com o país venturoso. Vimos também que a jovem camponesa contentou-se em apresentar, de forma breve e resumida, alguns elementos já presentes no relato que o Estrangeiro fizera de sua terra. Portanto, na exposição desse sonho, mais importante do que as descrições da “cidade

feliz” são as metáforas do “sacrifício” presentes no relato das agruras enfrentadas durante a viagem ao “país ditoso”.

No início, seu sonho revestia-se de um aspecto “terrível”. Ela estava perdida em uma planície infinita e deserta. A tempestade rugia e a chuva batia com força em seu rosto; o vento soprava tão forte que a ensurdecia. Várias vezes ela caiu e se levantou. Caminhava sempre para o Oriente onde, no horizonte, lhe “sorria uma faixa de azulado céu”. No extremo da planície, ela encontrou uma subida espinhosa e árdua. Foi só depois de enfrentar aquela extenuante subida que, finalmente, Ida pôde visualizar a “cidade misteriosa”, o “país feliz” que é praticamente idêntico ao do Estrangeiro.

Entusiasmado com a descrição onírica de Ida, o amável Jovem dispõe-se a seguir a camponesa rumo ao país imaginário. Frente a tal inclinação de seu noivo, Ida, no entanto, alerta-o a respeito das asperezas que enfrentarão durante a viagem.

Ida: Olha que teremos de caminhar muito... caminhar sem medo, sem cansaço... Atravessar

montanhas e colinas, rios e mares. Os abrolhos dos bosques despedaçarão nossos vestidos e nossas carnes... e o calor do verão queimará nosso sangue; as chuvas hibernais arrochearão [sic] nosso rosto...

Não por acaso, muito parecidas são também as metáforas do sacrifício presentes na descrição que o Estrangeiro fizera do caminho que leva ao seu país. Em seus relatos à Ida, o “misterioso peregrino” afirma que já havia andado um bom bocado – cruzara montes e colinas, atravessara rios e mares, esfarrapara suas vestes, dilacerara suas carnes e enfrentara o calor abrasante do verão e as frias chuvas do inverno. Um outro tanto de dificuldades faltava ainda ao Estrangeiro encarar. Ele sabia que teria de atravessar “outros montes e vales; rios e mares”. Estava consciente de que deveria ainda suportar os “cálidos ventos” e as “gélidas chuvas”.

Mais uma vez, nossa peça não está pairando no ar. Ela finca raízes profundas no imaginário social anarquista em torno do 1º. de Maio. E, por isso mesmo, as imagens de sacrifício e martírio são freqüentes também na imprensa operária. Referimo-nos já às metáforas do “sangue fecundo” que emergem dos artigos publicados naquela imprensa. Sobretudo, tais metáforas sobressaem nos textos que rememoram os acontecimentos em torno dos Mártires de Chicago. O mesmo ocorre, em geral, com as imagens de “sacrifício” e “martírio”; elas também se concentram nos artigos desse gênero.

Um exemplo emblemático encontramos em A Plebe do dia 30 de abril de 1921. Um artigo intitulado 1º. de Maio relembra os acontecimentos que culminaram na execução dos cinco trabalhadores norte-americanos. Logo no início, seu autor (anônimo) afirma que, naquela data, em 1886, “consumou-se um dos atentados mais nefandos que a luta de classes enumera no seu passado, repleto de sacrifícios e de martirológios”. Mais adiante, o mesmo autor declara que os denodados Mártires “apontaram à humanidade com seu sacrifício o verdadeiro caminho da redenção humana”. Neste caso, como em outros, a noção de “sacrifício” transmuta-se na de “redenção”. Ou seja, é o exemplo dos Mártires que, levado adiante, frutificará as sementes da emancipação humana.

O mesmo verificamos em um artigo posterior, publicado no periódico carioca Lucta Social211 do dia 1º. de maio de 1922. Nele, o autor (Aniceto) reproduz um discurso que fora feito por Spies (um dos Mártires) por ocasião de um comício contra os “fuzilamentos infames” que ocorreram no tumultuado maio de 1886. Em seu discurso, Spies fora bastante veemente, incitando a “guerra de classe” e asseverando que, diante do “Terror Branco”, os trabalhadores devem reagir com o “Terror Vermelho”. Spies terminara dizendo que é “a necessidade que nos leva a gritar às armas”. Aniceto, por sua vez, afirma que as palavras do corajoso Mártir encerram “toda uma luta” que deve ser levada adiante, mesmo que “com o sacrifício da própria vida” 212.

Poderíamos estender os exemplos em torno da idéia de “sacrifício” citando uma quantidade não pequena de artigos publicados na imprensa anarquista da época. Todavia, mencionaremos apenas mais um texto que traduz melhor o sentido de “martírio” com o qual estamos lidando. Trata-se de um artigo publicado no periódico carioca A Greve, em 15 de maio de 1903 – portanto, bem antes dos que acabamos de citar. Como em vários outros artigos do gênero, o autor, Pausílippo da Fonseca, nega aqui o caráter festivo que alguns atribuíam à data. No esforço de erradicar esse caráter que a efeméride vinha adquirindo, ele lembra o sofrimento dos “primeiros mártires” (os de Chicago) e de todos os outros que, depois, foram vítimas da perseguição cruel perpetrada pelos “assassinos oficiais”. Pausílippo afirma ainda que aquele dia fora “santificado pelo sangue dos obreiros do edifício imenso da nossa emancipação”. Mais

211 O periódico Lucta Social surgiu no Rio de Janeiro naquele mesmo ano de 1922 e era editado pelo

Grupo de Propaganda Social daquela cidade. A respeito, ver Ferreira, Maria Nazareth. Op. Cit.; p.99.

212 Na mesma data (1º. de maio de 1922), ver também artigo de A Plebe em que autor afirma que a data

uma vez, a idéia de “sacrifício” associa-se intimamente com a esperança de “emancipação”.

Confrontando com a situação nacional das comemorações em torno da data, o autor menciona o caráter de protesto que o 1º. de Maio assumia em “toda a parte” - ou seja, no exterior. Lá, segundo o articulista, “a tradição dos martirológios ainda não foi olvidada”. Vejamos de perto o que diz o próprio autor na seqüência.

Só entre nós, onde a linguagem interesseira de certos doutrinadores tem feito das teorias socialistas um caos afim de ver se dele pode sair um deputado com jus à gorda mamata de 75$000 diários, é que se observa tão curioso fenômeno. Pois se até há quem dá louvores aos donos das fábricas pela grande mercê de paralisarem as suas oficinas, como se fosse possível máquina alguma se mover sem o concurso do braço operário! E assim folga do primeiro de maio perde o seu caráter, a sua feição primitiva de greve, que é a única compatível com a dignidade do operariado.

Atrelado às críticas ao caráter festivo que emergia nas comemorações da data, notamos no trecho acima a idéia segundo a qual, entre nós, “certos doutrinadores” transformavam as teorias socialistas em um “caos” no intuito de obter o cargo político de deputado. Parece-nos evidente que o alvo de Pausílippo é aqui o conjunto de políticos socialistas. Estes, no juízo do autor, assumiam um discurso reformista e conciliador e, por isso mesmo, desvirtuavam o sentido de protesto que o Primeiro de Maio deveria possuir. Contrapondo-se ao congraçamento de classes e ao correspondente gozo das festividades, Pausílippo enfatiza o que ele considera como sendo a “feição primitiva” da efeméride: seu caráter de protesto, expresso por meio da realização de uma greve de um dia.

Voltemos, no entanto, à noção de “sacrifício”. Em muitos momentos em que ela aparece, temos a ênfase insistente nas idéias de luta e protesto. É realmente impressionante a quantidade de artigos ressaltando tais idéias. Por isso mesmo, quase todos eles combatem a tendência em transformar a data em uma “festa” do trabalho. Analisar todos esses artigos seria não apenas enfadonho como desnecessário aos propósitos desta pesquisa. Por isso, debruçar-nos-emos sobre alguns casos mais emblemáticos que condensam a complexidade de significados sociais que os militantes sobre os quais nos debruçamos atribuíam à noção de “sacrifício”. Em seguida, teceremos algumas conclusões a respeito.

A Lucta Proletaria, em sua edição de 1º. de maio de 1908, publicou uma série de seis textos dedicados à efeméride. O primeiro deles, assinado pela Federação Operária de São Paulo (lembremos: o periódico citado era um órgão da FOSP), é um verdadeiro manifesto contra uma das tendências verificadas na época: a de transformar o 1º. de Maio em uma data festiva. Logo no início, o autor afirma que o 1º. de Maio está perdendo o seu “primitivo caráter puro” para se transformar em uma “simples manifestação festeira”. Diante da exploração vivida pelos trabalhadores, de acordo com o texto, seria um absurdo festejar a data que, por sinal, lembra-nos do sacrifício sofrido pelos Mártires de Chicago. Para o autor, tal sacrifício teria caído no esquecimento. Mais adiante, ele afirma em tom imperativo: “Nada de festejos”. Ressalta ainda que a data fora escolhida pelo Congresso de 1889 213para que o trabalhador, “reativando energias e despertando consciências”, lançasse-se no “caminho de suas reivindicações, começando pela obtenção da jornada de oito horas”. Seria então necessário conferir novamente ao 1º. de maio a sua “verdadeira característica”. Para o autor, festejar naquele dia seria “engrandecer bestialmente a escravidão do salariado”. O operário brioso deve ser “insubmisso e rebelde”. O autor do apelo exorta os trabalhadores a abandonar o trabalho - não para atividades de recreio ou para embriagar-se, mas, obviamente, para promover protestos e afirmar moralmente o valor do proletariado.

Vimos na peça que, em seus discursos para o Marinheiro e o Operário (assim como para o seu velho pai), Ida também se preocupa em ressaltar, na data, seu caráter de protesto. Este manifestar-se-ia por meio da abstenção ao trabalho. Segundo Hobsbawm, tal abstenção em memória dos sacrificados Mártires de Chicago seria “uma afirmação simbólica da força fundamental dos trabalhadores”214. Essa necessidade de

afirmação simbólica a qual se refere Hobsbawm faz com que, na imprensa anarquista, sejam recorrentes os artigos enfatizando o caráter de protesto que o 1º. de Maio deveria possuir. Muitas vezes, para justificar esse caráter em detrimento da configuração festiva, os articulistas daquela imprensa recorriam ao mito da “origem fundamental”215 da

efeméride. Vejamos um exemplo emblemático.

213 Este Congresso foi organizado pela Segunda Internacional Socialista na cidade de Paris e foi

considerado o primeiro dessa nova entidade. Predominantemente marxista, discutiu, dentre outras coisas, uma legislação internacional para impor a jornada de oito horas e uma possível abolição dos exércitos nacionais. Foi esse Congresso, também, que escolheu o 1º. de Maio como Dia do Trabalho.

214 Ver Hobsbawm, Eric. Op. Cit.; p. 112.

215 Além do artigo a ser analisado na seqüência, ver também, sobre o mito da origem fundamental do 1º.

de Maio, A Terra Livre, 7 de fevereiro de 1906; La Propaganda Libertaria, 1º. de maio 1914 e Alba

Trata-se de um outro artigo publicado na mesma edição de A Lucta Proletaria (1º. de maio de 1908). Em texto intitulado (não por acaso) Festa ou Revolta?, Sebastião Eugênio afirma que o trabalhador deve considerar o 1º. de Maio como uma “data lutuosa” e, por isso mesmo, conferir a ela um significado de revolta. Logo em seguida, ele inicia (como muitos articulistas faziam) uma breve rememoração dos fatos em torno das lutas nos EUA e da transformação do 1º. de Maio em data comemorativa. Ao se referir ao Congresso de 1889, o autor anônimo afirma:

Um congresso proclama o 1º. de Maio para os proletários exigirem direitos e para afirmarem suas forças, imprimindo ao mesmo tempo um caráter revolucionário, para as reivindicações econômicas e sociais a conquistar. Porém, trocaram, por velhacaria ou por imbecilidade, idéias nobres e altruístas, por outras espetaculosas e ridículas para atrofiar a energia dos trabalhadores, e inocularem nos seus cérebros a indolência e o definhamento, cortando toda ação individual e coletiva, que pudesse conduzi-los para a cultura moral e intelectual.

Parece claro que, para Sebastião Eugênio, o objetivo inicial (intrinsecamente enredado em sua origem) era fazer com que os trabalhadores exigissem seus direitos, afirmassem sua força e imprimissem à data um caráter revolucionário.

Não vem ao caso discutir sobre os “verdadeiros” objetivos daquele Congresso. No entanto, vale lembrar que o autor da idéia original (de usar o 1º. de Maio como marco na luta pelas oitos horas) foi Raymond Lavigne, um guesdista francês, portanto, marxista (como, por sinal, era nomeadamente a maioria naquele Congresso e na Segunda Internacional)216. Aliás, segundo Perrot, os anarquistas da França, no início,

colocaram-se contra aquela decisão do Congresso; só depois, de forma sagaz, apropriaram-se das comemorações e conferiram a elas os significados que acharam mais adequados.

(1.05.1907) -, ao se referir ao “primitivo caráter puro” da data, também trabalha com o mesmo mito da origem fundamental.

216 Sobre as intrincadas resoluções em torno da escolha do marco simbólico, ver Perrot, Michelle. Os

Excluídos da História – Operários, Mulheres, Prisioneiros. Rio de Janeiro. Editora Paz e Terra, 1992; pp.

127-138. Nas abordagens feitas pela autora, notamos não poucas características que destoam do caráter puramente de protesto que os anarquistas atribuíam às “origens” do 1º. de Maio. Segundo Perrot, a escolha da data pelos socialistas visou oferecer à classe operária “uma unidade política e cultural através daquela pedagogia da Festa”, tributária da experiência da Revolução Francesa (p.127). Ainda para a autora, em “sua iniciativa, o Primeiro de Maio é incontestavelmente criação de cima, e em particular da corrente mais organizada em termos políticos, a corrente marxista” (pp. 127/128). Sem embargo, para a autora, no ato de “criação” da efeméride, duas tendências contrárias à orientação anarquista teriam de imediato se vinculado à data: a “pedagogia da Festa” e a conotação socialista (de influência marxista). Ainda para Perrot, no complexo campo de disputas pelo simbólico em que a data se transformou, cada grupo em confronto “`puxa a brasa para sua sardinha´” (p.131).

Com tudo isso, queremos ressaltar apenas que, por trás do mito das “verdadeiras origens”, está a construção de um sistema simbólico complexo por meio de um discurso bem articulado; tal discurso (imbuído de todo o seu simbolismo) visa imprimir um caráter próprio diante desse campo de disputas que se tornou a comemoração em torno do 1º. de Maio. Aqui, o mais importante não é a reconstituição do que aconteceu “de fato” naquele Congresso de 1889 (e nos meses subseqüentes). Queremos apenas ressaltar que os anarquistas construíram a noção de um princípio original (“verdadeiro” e “puro”) para legitimar seu discurso combativo e refutar o caráter festivo que outros setores desejavam atribuir ao 1º. de Maio. Divisamos a constituição um verdadeiro campo de disputas pelo simbólico. Em seu interior, os anarquistas elaboraram discursos mais ou menos convincentes em que os significados conferidos à data pelos outros grupos são muitas vezes vistos como “deturpações” daquele sentido supostamente “original” e “genuíno”.

Vejamos mais de perto o que nos diz, por exemplo, um artigo publicado em A Plebe no dia 1º. de maio de 1919. Nele, o autor inicia afirmando que “o dia de hoje” (1º. de maio) não é um dia de festa. Para ele, quem pretende transformar a efeméride em ocasião para festa são “os falsos amigos do proletariado”. Festa mesmo só poderia existir no dia “em que a tenebrosa e velha bastilha do Capital e do Poder” for desfeita pelo “machado bendito da Revolução”.

O mesmo notamos no artigo de Matilde Magrassi publicado no periódico Novo Rumo em 1º. de maio de 1906. Nele, a autora afirma que só no dia em que não houver mais exploração na sociedade é que será possível comemorar de forma festiva a data. Para ela, na situação atual em que vive o trabalhador, “a glorificação do trabalho torna- se um ato irrisório, digno da lástima e da compaixão dos operários conscientes”.

No periódico paulistano e anarco-comunista Alba Rossa, editado por Oreste Ristori e A. Bandoni, em sua edição de 1º. de maio de 1920, esse dia festivo já havia chegado – não para nós, mas para os russos. Em um artigo bastante otimista em relação aos acontecimentos na Rússia, o autor constrói um encadeamento linear e teleológico de fatos, estabelecendo uma continuidade intrínseca entre as lutas encetadas em Chicago e aquelas levadas adiante pelos trabalhadores russos. Segundo Paulino Biasi, autor desse texto, o proletariado russo estaria satisfazendo, por meio de suas conquistas, “o desejo manifestado nos últimos momentos de vida pelos camaradas barbaramente enforcados pelos capitalistas de Chicago.” Agora, finalmente, para Biasi, os russos não têm mais

por que protestar no 1º. de Maio. O aspecto a ser ressaltado nesse artigo é que o ideal teleológico da “redenção final” (tantas vezes propagado na imprensa anarquista) aparece aqui como consumado alhures, em terras russas. Se conseguíssemos alcançar também esse ideal, poderíamos então descartar o protesto e festejar efusivamente as conquistas fundamentais da “emancipação humana”.

Em contato com os artigos da imprensa anarquista, notamos que, na verdade, nem todos os articulistas opunham-se integralmente ao caráter festivo do 1º. de Maio. Em alguns casos, certos artigos chegam mesmo a encarar as festividades em torno da efeméride com uma não disfarçada condescendência. Mencionamos anteriormente um artigo publicado em A Lanterna no dia 2 de junho de 1907. Nele, seu autor, M. Doriz, analisa a situação do mês de maio na Europa. Naquele continente, ele entrevê um nítido contraste entre o campo (mais “carola”) e a cidade (em relação ao campo, mais “avançada”). Na zona rural, predominaria “a tristeza, o receio de que o diabo apareça”; já na cidade, verificar-se-ia “o desafio a todo o mal, a festa enfim” [grifos nossos]. Aqui o autor opõe de forma nítida a festa proletária (associada ao urbano) à beatice rural; nessa oposição fundamental, é evidente que a primeira aparece valorizada em relação à segunda.

Outros artigos da imprensa anarquista modulam também na mesma sintonia. Questionam não a festa “em si”, mas o despropósito de realizá-la nas conjunturas em que se encontravam os trabalhadores217. Poderíamos analisar esses textos mais detidamente. Mas, achamos que os artigos já citados dão indícios de sobra para levar a cabo uma conclusão parcial.

Despojando-nos de preconceitos inveterados, o que pudemos notar é que em muitos artigos (mas não em todos) não há, de fato, uma aversão à festa. O que não poucos articulistas propugnavam é que, diante da situação de exploração em que viviam os trabalhadores, festejar no 1º. de Maio seria, no mínimo, um contra-senso. Tais articulistas sabiam claramente que não há atitudes “neutras”; sabiam também que todo gesto reveste-se de significados sociais e simbólicos não isentos de conseqüências. Para eles, o problema não era a festa e sim o sentido que ela poderia ter diante da correlação de forças presente na sociedade. Nos artigos dedicados a refutar o caráter festivo, o que

217 Ver também em A Plebe de 1º. de maio de 1922, artigo intitulado 1º. De maio – Ao proletariado e

aos assalariados em geral. Em A Voz do Trabalhador, ver edição de 1º. de Maio de 1909. Em A Lucta

notamos muitas vezes é a inserção do discurso combativo no âmbito das condições concretas de existência que os trabalhadores enfrentavam. O discurso de luta, “em si”, nada significava (assim como o caráter festivo atribuído à efeméride). A afirmação da combatividade conferida ao 1º. de Maio estava sempre atrelada às conjunturas específicas do momento. A data, por si só, também não significava nada; quem iria conferir a ela significados específicos eram os atores sociais que dela se apropriavam. E disso os anarquistas com os quais lidamos tinham clara consciência!

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