Chapter 1: Introduction
1.5 Research design and methodological strategy
1.5.2 Data collection method
Não percamos nosso esteio. Analisemos mais um pouco aquelas “bases fundamentais” do Grupo Teatro Social. A terceira delas também é importante em nossa pesquisa Ela indica claramente quais eram os objetivos que o grupo estava disposto a perseguir. O solene documento proclama o desígnio, assumido pelo grupo, de “propagar, por meio de espetáculos, as modernas doutrinas sociais”. Acompanhando os títulos das peças representadas pelo Grupo Teatro Social – assim como os comentários sobre elas nos periódicos -, fica evidente que as tais “modernas doutrinas” referem-se às idéias que expressam um conteúdo libertário e/ou anticlerical. Analisaremos algumas dessas obras no decorrer de nossa pesquisa.
Objetivos muito semelhantes ao proclamado nessa terceira “base” eram manifestados por outros grupos amadores no momento em que surgiam. Mesmo sem a magnificência de documentos oficiais fundadores, alguns desses grupos fizeram a questão de anunciar na imprensa operária seus nobres propósitos.
Este é o caso do já mencionado Grupo Dramatico de Cultura Social, do Rio de Janeiro. Em 15 de outubro de 1913, A Voz do Trabalhador publicou uma espécie de notícia informando sobre a recente criação do grupo, cuja “obra reverterá em benefício da propaganda social”. Vimos mais acima que o mesmo periódico carioca divulgara, em 1º. de julho de 1913, uma pequena nota sobre a fundação (ou sua tentativa) da Agremiação Dramatica Idéia Livre, no Estácio de Sá. O objetivo de tal agremiação, segundo a nota, era “propagar por meio de representações teatrais as idéias renovadoras”. A Voz do Trabalhador felicitava o grupo e afirmava esperar seu primeiro espetáculo. Mais tarde, como também já vimos, em 17 de julho de 1920, A Plebe lançaria um anúncio de festa organizada pelo supracitado Libertas, de São Paulo. Nele vem a informação de que o grupo era da Mooca e foi “fundado exclusivamente para organizar festivais em benefício de jornais e de outras causas semelhantes”. Como a festa anunciada era em favor de A Plebe - e não em benefício do Correio Paulistano (ou de O Estado de São Paulo) -, depreendemos bem, sem muito esforço, quais eram as “causas” que eles pretendiam favorecer. Ainda no que se refere ao contexto paulistano, dois anos depois, o mesmo periódico A Plebe, em 22 de julho de 1922, anunciou a criação de um grupo também chamado “Theatro Social”78. Expressamente, seu objetivo
78 Não confundir com o grupo homônimo carioca que nos serve de eixo central nesta análise. Ver a
era desenvolver a propaganda “por meio da representação de peças de caráter social”. A nota afirma que, assim que o grupo se formasse, ele prestaria “o seu concurso para a realização dos festivais dos grupos e sindicados”.
Vemos, portanto, que outras associações de amadores manifestavam objetivos parecidos com os do Grupo Teatro Social, do Rio de Janeiro. No entanto, este último não se contentava em anunciar propósitos vagos. Para além de proclamar um desejo abstrato de propagação das “modernas doutrinas sociais”, ele lançou, em seu documento de fundação, pelo menos um objetivo concreto.
Na mesma terceira “base” que estávamos analisando, os amadores do Grupo Teatro Social manifestaram o propósito de promover, assim que houvesse recursos para tanto, a criação da chamada Casa do Povo. Encontramos um único indício claro de mobilização do grupo em torno desse projeto. Na mesma edição de Novo Rumo em que as tais “bases” do grupo foram divulgadas, há uma longa notícia em que D. Venegas faz um comentário sobre uma festa ocorrida em 9 de setembro de 1906. Nela, o Grupo Teatro Social encenara pela primeira vez a peça O Infanticídio, drama social de Mota Assunção. Após um extenso resumo da peça e um pequeno comentário sobre a atuação dos amadores, com destaque para as “senhoritas Clotilde e Encarnacion79” e para as
“Sras. Anna e Carolina”, D. Venegas anexou uma nota que começa com uma pergunta: “para que teriam feito festa os rapazes que o compõem [o grupo]”? Ele mesmo, D. Venegas, incumbe-se de responder: “Os camaradas tomaram a si a tarefa de montar uma Casa do Povo onde o operariado possa divertir-se e aprender”. Ou seja, a Casa do Povo seria uma espécie de projeto social destinado ao entretenimento e à instrução das camadas populares. “Seria”, mas provavelmente não foi. Isso porque, afora este pequeno indício de mobilização em torno do projeto, não encontramos nenhum outro vestígio dele. A partir de então, não temos mais nenhum documento relativo à atuação do grupo citando novamente a Casa do Povo.
Editora Insular Ltda, Florianópolis, 1997; p.126. Segundo o autor citado, o Theatro Social de São Paulo tinha em sua primeira formação, além do já citado alfaiate Marino Spagnolo, os amadores Garibaldi Brolcati, Helena Santini, Manuel Sanchez, Emílio Martins, Noé Parente, Atílio Grondisola, Poério Bernardini, José Galan, Manuel Bueno e Lúcia Santini.
79 Esta amadora atuou também, anos mais tarde, em um grupo vinculado à Liga Anticlerical do Rio de
Janeiro. Vemos ainda este mesmo nome assinalado em uma outra notícia, desta vez publicada em A
Lanterna do dia 11 de maio de 1912. Por meio dela, descobrimos que uma Encarnacion atuou na peça
Avatar, de Marcelo Gama. Segundo o autor anônimo da notícia, seu papel teria sido “bem desempenhado”.
Não ficaríamos surpresos caso os amadores abandonassem um projeto assim tão ambicioso. Para termos uma idéia das dificuldades financeiras que eles enfrentavam, reproduziremos um balancete do grupo publicado em A Terra Livre no dia 12 de novembro de 1907. Ele registra mensalmente as receitas e despesas de um ano inteiro de atuação - de setembro de 1906 (mês em que o projeto da Casa do Povo foi anunciado em Novo Rumo) a setembro de 1907. Por meio desse balancete, conseguimos ter uma noção do que eram os apertos orçamentários com os quais os amadores do Grupo Teatro Social tinham de lidar. Analisemo-no de perto, prestando atenção nos números registrados tanto para as receitas quanto para as despesas.
Resumo do balanço dos meses de setembro de 1906 a setembro de 1907
Setembro – receita Idem – despesa Maio – receita Idem – despesa Junho – receita Idem – despesa Julho – receita Idem – despesa Agosto – receita Idem – despesa Setembro – receita Idem – despesa Saldo em caixa 380$000 122$500 236$000 288$300 193$000 184$500 93$000 124$800 126$000 155$000 110$000 161$300 101$600
O balancete acima traz alguns indicadores sobre a saúde financeira do grupo nos meses subseqüentes à divulgação de suas “bases fundamentais”. A análise atenta dos números demonstra uma situação orçamentária bastante instável. Se projetássemos a variação dos números em um gráfico de linha, teríamos uma variável oscilando bastante (mais para baixo do que para cima). Analisando as contas do mês de setembro de 1906 (quando o grupo manifestou, em suas “bases”, o desejo de empreender o projeto da Casa do Povo), observamos uma situação relativamente satisfatória. Temos para aquele mês um saldo líquido de 257$500.
No entanto, observando atentamente a tabela, percebemos que nos meses subseqüentes, de outubro de 1906 a abril de 1907, não há registro algum. O que aconteceu com o grupo durante esses sete meses? Ao que tudo indica, ele não atuou. Isso porque não encontramos nesse período nenhuma menção ao seu nome nos
inúmeros órgãos da imprensa operária que pudemos pesquisar. De fato, a próxima informação que teremos dele só aparece em uma notícia publicada em A Terra Livre no dia 1º. de junho de 1907. Assinada por Salvador Alacid, ela se refere a uma festa de 1º. de Maio em que o grupo encenara o drama Antonio, de Guedes Coutinho. Portanto, é bem provável que, diante das inúmeras dificuldades enfrentadas pelos amadores do Grupo Teatro Social, eles tenham suspendido as atividades, voltando a se apresentar somente em maio de 1907. O mais curioso é que, nas notícias publicadas a partir de então, nada mais se diz a respeito de Clotilde, Anna ou Carolina80 – amadoras que, segundo D. Venegas, “excederam a expectativa geral” naquela primeira representação de O Infanticídio. Certamente, as contrariedades do dia-a-dia afastaram-nas dos palcos, sonegando-lhes o direito de sonhar com uma existência menos rude. Como tantos outros trabalhadores de ontem e de hoje, provavelmente tais amadoras tiveram de esquecer as “quimeras” de uma vida dedicada às artes, voltando-se exclusivamente à árdua faina dos serviços cotidianos.
Voltemos ao balancete. Naquele mês de maio de 1907, o Grupo Teatro Social arrecadou 236$000, boa parte dos quais (ou talvez o valor integral) provavelmente adveio daquela festa de 1º. de Maio. No entanto, as despesas superaram a receita. Ao todo, o grupo gastou naquele mês 288$300. Resultado: o déficit foi de 52$300. No mês seguinte (junho de 1907), a situação foi um pouco mais favorável. Mas não devemos nos entusiasmar. O saldo líquido foi de apenas 8$500. Como diz o outro, uma “merreca”. Para piorar, julho foi mês de déficit. Para uma receita de 93$000 houve uma despesa de 124$800. Ou seja, o déficit foi de 31$800.A situação em agosto também não foi nada abonadora. Subtraindo as despesas da receita, temos mais um saldo negativo, agora de 29$000. Fechando o ciclo de um ano, setembro de 1907 apresentou mais um déficit. Desta vez, de 51$300. Ou seja, na relação acima, notamos que, ao longo de todo o ano, apenas dois meses apresentaram saldo positivo: setembro de 1906 e junho de
80 Não devemos confundir esta Carolina, tratada na notícia de D. Venegas como “senhora”, com uma
outra amadora chamada Carolina Boni, que recitava poesias nas festas da Liga Anticlerical do Rio de Janeiro nos anos de 1912 e 1913. Em um anúncio publicado em A Voz do Trabalhador do dia 15 de julho de 1913 (portanto, lançado sete anos depois daquela notícia assinada por D. Venegas), Carolina Boni é apresentada como uma “menina” que recitaria uma poesia em festa prevista para 2 de agosto de 1913.Ora, se em 1913 ela era uma “menina”, em 1906 ela não poderia ser uma “senhora”. Temos notícia da atuação de Carolina Boni, anos mais tarde, no Grupo Dramático 1º. de Maio (ver notícia publicada no periódico
Liberdade da 1ª quinzena de abril de 1918). Segundo Edgar Rodrigues, ela atuou como amadora, nos anos 1921-1922, no Gremio Artistico Renovação. Para saber mais sobre a trajetória de Carolina Boni, ver Rodrigues, Edgar. Os Companheiros – vol. 1. VJR-Editores Associados, Rio de Janeiro, 1994; p.136.
1907. No final do balancete aparece a informação de que existia um saldo em caixa de 101$600. Boa parte desse saldo positivo deve-se ao mês de setembro de 1906, mês em que, em suas “bases”, o grupo compromete-se com a criação da Casa do Povo. Após esse mês alvissareiro, notamos uma sucessão déficits que foram se acumulando. O único saldo positivo após aquele mês de setembro, no entanto, não apresenta um resultado muito satisfatório: apenas 8$500.
Em nota, logo abaixo, Silva Monteiro, tesoureiro do grupo que assinou o balancete, afirmou que os livros estavam com ele e à disposição dos associados. Tal expediente denota uma nítida busca pela transparência.