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5. BÆREKRAFT SOM FELT: IDEASJONELLE ANALYSER

5.3 Bærekraft som topisk felt i skriveoppgavene

5.3.2 Normative topoi

Na Grécia arcaica havia a ideia de que os deuses orientavam o sentido de todas as coisas aos membros da sociedade sem intenção de impor uma verdade universal. Eram ao mesmo tempo um sentido e um sentimento. Zeus, considerado o principal deus da mitologia grega, casou-se com Hera, que, por seus ciúmes doentios, estava sempre tramando vinganças contra seu cônjuge, que não perdia a oportunidade de se metamorfosear e sair com outras mulheres. Certa feita, indignada e cega de raiva por Zeus ter tido a mais nova filha, Atena, sua esposa resolveu se vingar e engravidou sozinha, dando a luz a uma criança deficiente, e rejeitada pela mãe (PRADO, 2011). O sentimento de ciúmes e vingança com constância é retrato na mitologia, nas fábulas e no discurso cotidiano da grande maioria dos indivíduos, pois são sentimentos potencialmente perigosos muito difundidos na sociedade ocidental, podendo transformar a vida de qualquer pessoa em uma trama como a de Otelo (SHAKESPEARE, 2003).

Dentro da escola pesquisada estes dois sentimentos eram responsáveis por desencadear muitas violências, principalmente no universo feminino, como descreveu uma professora: “..O que mais gera briga por aqui é ciúmes, as meninas brigam o tempo todo por ciúmes e pelos meninos...”. Em entrevista com João de Santo Cristo a perspectiva dos ciúmes se mostrou bem alinhada entre alunos e professores: “...Essas meninas, tudo puta, só fica por ai brigando por conta de menino, deixa os outros pegar na bunda delas, elas arranham os meninos, ficam nessa e acham bonito...”. Até Carla, uma das meninas do Bonde das Apimentadas confirmou que os ciúmes eram a maior causa de briga entre as meninas: “Aqui

o que mais dá treta22 é negócio de ciúmes, direto tem discursão e porrada por isso...”.

Nascimento e Cordeiro (2011), em pesquisa realizada em Recife, o namoro de jovens nas periferias, constataram que estas relações, em geral, são repletas de violências, tanto físicas

quanto psicológicas e morais. Uma quantidade significativa destas agressões é motivada por ciúmes e sentimento de posse em relação ao companheiro.

As encrencas motivadas por ciúmes se espalhavam pelos corredores e salas de aula, motivando muitas violências físicas, verbais, ameaças e vinganças. Em uma segunda feira, período vespertino, surgiu um movimento discreto de fofoca pelos corredores, algumas meninas um pouco mais agitadas do que o normal e, no canto, todo o Bonde das Apimentadas reunido. Em determinado momento, discretamente, Maria Lúcia andava devagar para longe do grupo e perto de uma outra menina, magra, alta, que usava brincos grandes e brilhantes combinando com um batom bem vermelho na boca. Todas as suas colegas, contendo a ansiedade acompanhavam a movimentação. Maria Lúcia se aproximou, colocou a mão no ombro da jovem que bebia água e com muita calma falou algo no ouvido dela, deixando-a com os olhos arregalados. A jovem se encaminhou para perto do grupo e logo o clima parecia voltar ao normal, entretanto, este silêncio precederia o esporro. No decorrer do dia os ânimos começaram a se agitar e surgiu um boato de que haveria briga de meninas no final da aula. Ao soar do sinal, a correria começou e uma roda de adolescentes com celulares nas mãos se formou perto do portão, contudo, antes que as protagonistas chegassem até a arena humana, para resolver seus desafetos publicamente, um informante do diretor levou a notícia até ele, que prontamente foi a busca das duas. Com muita calma, levou as meninas para sua sala e conversou durante algumas horas com as mesmas, solicitou a “prensa” dos responsáveis e resolveu a questão sem que descambasse para a violência física.

No outro dia, ao conversar informalmente com a jovem Maria Lúcia e perguntar o motivo da confusão do dia anterior, ela relatou que os eventos que envolviam situações onde o ciúme aflorava, foram a mola propulsora para as violências. Assim, explicou que chegou uma fofoca aos seus ouvidos, dizendo que aquela adolescente havia ficado com seu namorado. Algum tempo depois, ao entrevistar uma amiga da jovem protagonista da ameaça, ela relatou que as duas meninas se encontraram, fora da escola, em uma festa na comunidade e resolveram suas diferenças aos tapas, puxões de cabelos e socos. Em pesquisa Wurding (2014) comenta que as brigas entre meninas, motivadas por fofocas, ciúmes e até brincadeiras de mau gosto são as principais causas de violências no interior das escolas. A grande dificuldade de conter estes eventos de violências pode se fundamentar na banalização com que muitos alunos observam tais atos, pois passam a repetir o comportamento com bastante frequência.

Estas brigas por meninos, protagonizadas pelas jovens apareciam constantemente dentro da escola, uma preocupação levantada pelo diretor: “...Aqui, a maioria das brigas é de meninas, por fofoca ou por conta de meninos, elas disputam eles na unha, literalmente...”. Os ciúmes entre estes alunos se desvelava, em muitos casos, como um forte sentimento de posse pelo outro indivíduo, justificado a partir de uma perspectiva de amor e cuidado, conforme relatou Judite: “... Eu protejo minhas amigas, gosto delas como família e se alguém fizer algo que elas não gostem, enfio a porrada...”. Os meninos também demonstram estes cuidados violentos: “... Se mexer com amigo meu é pior que mexer comigo, logo soco a porrada...”.

A fofoca apareceu como outro fator que poderia gerar muitas violências no interior das escolas, e dificilmente passível de controle completo. Gaiarsa (1978), em Tratado Geral sobre a Fofoca: uma análise da desconfiança humana, nos mostra que fofoca atravessa toda a história da humanidade. Ousa levantar números a respeito da mesma, estimando que 50,0% da conversa de um indivíduo é de fofoca, e apenas 20,0% conversa funcional, como ordens, comentários de trabalhos ou resolução de problemas. Em diálogo informal com uma das integrantes do Bonde das Apimentadas, ficou claro em seu relato que a fofoca causava muitas brigas quando esclareceu que uma vez chegou aos seus ouvidos que uma menina da sala ao lado havia falado para muita gente na escola que ela tinha ficado com muitos meninos, e a fama de galinha já estava por bater em sua porta. De posse desta informação, a adolescente nem se preocupou em confirmar a veracidade de seu conteúdo, e foi resolver da forma que parecia mais conveniente em seu contexto de vida. Esperou o sinal bater, foi à sala da possível propagadora da fofoca, sem falar nada, pegou-a pelos cabelos, jogou-a chão e deu alguns socos em seu rosto, até que alguns alunos separaram as duas.

Em meio ao disse e não disse, a fofoca muitas vezes gerava violências inesperadas como a relatada por uma jovem em conversa informal, quando contou que certa tarde uma das meninas do Bonde das Apimentadas ficou sabendo de uma fofoca que falava mal dela, e de suas amigas. Não pensou duas vezes, se juntou ao Bonde, seguraram a vítima e pintaram o rosto, as roupas e espalharam o material como forma de vingança pela fofoca. Outras pesquisas, como as realizadas por Abramovay, Cunha, Calaf (2010) e Barbosa e Bezerra (2013), endossam que tanto em uma escola no interior da Amazônia quanto na capital do país a fofoca e as brigas por meninos são motivos muito frequentes para a promoção de agressões verbais, físicas e ameaças.