3. TEORETISK RAMMEVERK
3.2 Tekst- og språkteoretiske innganger: SFL og tekstvitenskap
3.2.3 Kontekst
A fim de tentar compreender o caráter etéreo que molda meninos e meninas, faz-se necessário olhar para trás e tentar captar o sentido da pintura abstrata que compõe a
adolescência. Esta fase, de acordo com a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990, fica compreendida entre o período da vida de 12 a 18 anos (BRASIL, 1990), contudo, definir a adolescência como apenas um período estritamente etário seria como captar uma obra de Picasso usando apenas o tato, ou seja, ficaria limitado a apenas uma perspectiva, o que pode dificultar a compreensão da obra como um todo. Na sabedoria antiga do filósofo, lutador e dramaturgo Filebo a vida era a construção diária de uma obra prima, um eterno palco onde os atores sociais se embebiam da pulsão de vida para representar seus papéis (ONFRAY, 2008), entrando em convergência com Cortella (2007), que compara a vida e seu legado à construção de uma obra de arte.
Neste caso, vivenciar a adolescência pode assemelhar-se ao processo de construção de uma obra de arte, levando em conta que esta composição se faz pelo protagonismo de experiências individuais e sociais entrelaçadas a todo o momento, como uma colcha de retalhos. Assim, esta compreensão se estrutura de forma multifacetada, transcendendo a dualidade platônica (2003) e agostiniana (1995) que prende os indivíduos nos extremos do certo e errado, do moral e amoral, do feio e do belo, indo para além de conceitos jurídicos, emaranhando-se e compondo-se por meio de uma construção sócio-histórico. A obra elaborada neste cenário tem seus primeiros esboços pintados na segunda metade do século XIX, quando a adolescência e a juventude começaram a aparecer como categorias identitárias, ganhando notoriedade devido ao aumento do número de crimes nesta faixa etária e à dificuldade destes jovens em seguir os padrões impostos pela geração anterior. Muitos teóricos passaram a defender um prolongamento desta faixa etária que separava a infância da vida adulta, dando direito aos jovens e adolescentes ao lazer, estudo, artes e repouso (SAVAGE, 2009). No ano de 1904 o psicólogo George Stanley Hall foi o primeiro a desenhar um conceito de adolescência, esta sendo uma etapa preparatória para a vida adulta, onde uma idade sucederia a outra sob uma perspectiva faseológica crescente, da infância em direção à vida adulta. Cada fase deveria superar certas “faltas” características, visando ao desenvolvimento de um amadurecimento até a vida adulta (GOMES, 2012).
Em uma sociedade urbano-industrial que aumenta a velocidade de seu consumo e cultura o “progresso” de forma descontrolada, o advento da comunicação de massa começa a gerar contornos para a adolescência, direcionando o consumo de músicas, filmes, comportamentos e linguagens e culminando na Revolução Cultural de 1968 (SAVAGE, 2009). Com todos os holofotes voltados para os jovens e adolescentes, a separação dos dois
conceitos começou a aparecer de forma mais nítida entre os teóricos da área, percebendo a adolescência e a juventude como uma construção sócio-histórica, onde assume os contornos delimitados em grande parte pela cultura da sua época, construindo um mosaico entrelaçado de vivências (LIBÓRIO; KOLLER, 2009). Neste ponto, a abstração da pintura feita pelo jovem ao vivenciar a sua adolescência vai se desenhando na perspectiva de estudiosos, a fim de delimitar características determinantes desta fase. Gomes (2012) ressalta que existe um abismo entre as definições lineares destes conceitos e a realidade, reforçando a importância do conhecimento dos limites entre a infância, adolescência e juventude como condição fundamental para a educação, no sentido mais amplo da palavra. As bordas deste abismo que separam a relatividade da realidade e a concretude teórica podem ser determinadas segundo o poder aquisitivo e o capital cultural, na medida em que cada faixa etária pode gerar altos rendimentos para os mercados.
Outro conjunto de características associadas à adolescência é o aparecimento da fase pubertária, que engloba uma série de mudanças corporais biológicas e fisiológicas, tais como: crescimento acentuado dos membros, crescimento de pelos e barba, aparecimento de seios, a menarca, o afloramento da sexualidade, dentre outras. Estas mudanças físicas que invadem o adolescente não aparecem sozinhas, vêm acompanhadas de um período de turbulentas crises ao vivenciar o mundo e assumir o protagonismo de sua vida em direção à fase adulta, a fim de se perceber como indivíduo parte do tecido social (MATHEUS, 2008). Esta invasão pubertária não escolhe hora e nem lugar para chegar, como no caso da pequena Anne Frank, que foi tomada por esta fase de turbulentas mudanças tanto psicológicas quanto físicas em um delicado momento de sua vida. A adolescente, durante a Segunda Guerra Mundial, para fugir do Holocausto, passa a morar durante anos a fio em um pequeno sótão convivendo sem quase nenhuma privacidade com membros de mais duas famílias. Durante este tempo a adolescente se vê em meio a crises existenciais, mudanças corporais e até mesmo envolta em uma paixão adolescente (FRANK; PRESSLER, 2012). Nesta composição artística chamada adolescência, a variedade de cores, tons e sombreados fazem de cada garoto ou garota um artista e a vida, sua tela, proporcionando ao outro observar uma quantidade infinita de desenhos abstratos e concretos, coloridos em preto e branco, desenhos alegres e tristes, claros e escuros cujas interpretações devem ir para além do objetivismo e do relativismo (BERNSTEIN, 1983).
arte, pois os mesmos são os responsáveis pelo devir da sociedade. Como obras de arte, têm um alto valor financeiro e devem ser colocadas em locais seguros. Os adolescentes seguiram a mesma lógica e, após a Segunda Guerra Mundial, passaram a ser “guardados” em instituições educacionais por tempo integral. Ao analisar este cenário, o pioneiro Coleman (1981) descreve que este fenômeno pode ocorrer em grande parte por conta da proibição do trabalho infantil e da quase universalização do ensino secundário, retirando os jovens e adolescentes incluídos no mundo do trabalho adulto e encarcerando os mesmos nas escolas. Com jovens e adolescentes em tempo integral nas instituições educacionais o convívio horizontal tende a aumentar e a intergeracionalidade a diminuir. Assim, incentivados pela dominação da cultura de massa e midiática, os adolescentes passam a compor sua própria cartilha de valores e normas, sua própria estratificação interna, comportamentos e linguagens.
Separados física e teoricamente, os adolescentes, proibidos de trabalhar e convivendo menos tempo no mundo adulto, passaram a frequentar a escola durante grande parte do dia. Entretanto, os conteúdos oferecidos e o próprio ambiente geralmente não se integram e muito menos fazem sentido para uma grande quantidade de adolescentes, pois eram servidos de forma fragmentada e descontextualizada. Sem apetite para estudar e trabalhar, esta geração que “tem tudo” o que se pode consumir, inclusive a “liberdade”, em muitos casos sofre negligência parental (GOMES, 2012), deixando os jovens sem referências para digerir e vivenciar o mundo. Este adolescente fragmentado e ao mesmo tempo composto por uma rede relacional não é adulto nem criança, não é trabalhador nem desempregado, é estudante e ao mesmo tempo não, ou seja, este adolescente se encontra em um limbo (LANCY, 2008), vagando em uma era de vazios e paradoxos (LIPOVETSY, 2006), conhecidos pelos espanhóis como a generación ni-ni, isto é, que ni trabaja ni estudia (GOMES; VASCONCELLOS; LIMA, 2012).
Pairando nos vazios que derivam dos excessos contemporâneos, a adolescência se mostra uma fase em que a superação de desafios, em busca de limites para a construção de uma subjetividade como senha no mundo adulto, entrelaça-se com momentos de crise na construção de um protagonismo social, tendo, ao mesmo tempo, que lidar com a invasão da puberdade e a imposição dos modelos estéticos de consumo. Contudo, mesmo em meio a tanta turbulência, o adolescente insiste em formar seu caráter, vivenciando e experimentando o mundo por meio da dança, dos esportes, das artes, dedicação aos video games e ao computador, entre outras opções informais de lazer, já que a escola e a família perderam o
monopólio da formação do adolescente (GOMES, 2012). Barrère (2011), ao perceber este processo, destaca quatro provas formativas deste caráter: a primeira está ligada à vivência de um amplo leque de atividades, com a função de descomprimir o adolescente do peso escolar e familiar, criando uma extensa gama de experiências para delimitar a construção de sua subjetividade. A segunda prova está ligada à vivência intensa na busca de experiências e de limites, contudo, meninos e meninas aprendem por bem ou por mal a não transitar pelos extremos para evitar derrapagens em uma pista sem guard rail, pois neste contexto os frequentes fracassos podem gerar o abandono das atividades eletivas. A terceira prova aflora no desenvolvimento da singularidade, ou seja, tornar-se um indivíduo na sociedade. Este processo entrelaça a padronização e a individualização na medida em que este adolescente deve fazer parte de um grupo, ao mesmo tempo tendo que adquirir suas características e manter sua individualidade. A quarta prova corresponde à dimensão temporal, onde o adolescente deve construir um elo entre o presente e o futuro, entre sua adolescência e suas perspectivas para a vida adulta sob a forma de projeto de vida. Todavia, o adolescente que era a bússola norteadora para o futuro pode criar seu devir baseado em parte nas mitologias midiáticas.
Tentando pintar suas próprias obras de artes, os adolescentes buscam desenvolver um protagonismo social por meio da vivência de experiências. Outrora, tal pintura era feita apenas com as tintas escuras colocadas pela família e escola. Nos dias de hoje todas as cores estão disponíveis para a composição da adolescência, compondo um quadro histórico-social conforme suas próprias convicções, mesmo que estas não sejam suas. A obra-prima desenvolvida na adolescência não termina com a sua entrada na juventude ou na vida adulta, pois é uma obra fundamentada no vir a ser e não se realiza visando apenas ao produto final e, sim, ao aprendizado das misturas de cores para compor a tela. Nesta exposição de adolescentes que pintam obras baseadas em seu protagonismo, observar os retratos que cada um compõe sobre a violência, se faz fundamental levando em consideração que a perspectiva de violência construída pelo indivíduo pode dizer muito sobre ele e os atores sociais que interagem em sua vida (SAVAL, 2009), a violência fala até da paz. Com isso, torna-se fundamental observar outros vetores que podem acelerar a proliferação das violências escolares, como a própria perspectiva a respeito da violência.