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4. VITENSKAPSTEORI, METODE OG MATERIALE

4.3 Materiale

4.3.2 Kritisk drøfting av materialet

A família, independente de sua composição ou estética formativa, tende a criar vínculos e laços a fim de constituir um grupo coeso que transmite geração por geração sua cultura e seus valores. Contudo, este movimento intergeracional vem diminuindo com o novo formato familiar, que estimula relações individualizadas e horizontais, pois, com a saída dos pais para o mundo de trabalho, os jovens e adolescentes passam a ficar por conta da educação oferecida pelas escolas e pelas ruas (SARTI, 2003). A princípio, a família surge como um arquétipo para a construção moral e afetiva do indivíduo, levando em consideração que uma figura afetiva estável no ambiente familiar é fundamental para construir uma identidade sólida no cidadão. Assim, os pais assumem a função de ensinar e os filhos, de aprender, dentro de uma perspectiva onde aprender significa aceitar o modelo proposto e criar a partir dos mesmos (FERRARI, 2002).

A prática do processo socializador na família tem como forte base a transmissão de hábitos, valores e crenças que possam facilitar a inclusão dos filhos na sociedade. Este aprendizado basea-se principalmente na imitação e reprodução alienada dos padrões vistos em casa, além de alimentar a crença de que os filhos devem seguir o caminho dos pais (SZYMANSKY, 2004; LÓPEZ, 2002). Sob este prisma, Junger e colaboradores (2013) descrevem que o ambiente familiar pode influenciar diretamente as perspectivas dos jovens e adolescentes sobre os fenômenos sociais. Caso o lar seja estruturado e com firmes alicerces morais, provavelmente criará jovens ajustados para o convívio social. Contudo, se a violência paira banalmente pelo ambiente familiar, este indivíduo provavelmente reproduzirá estas violências na rua ou se envolverá com as violências de alguma forma, seja como observador, vítima ou agressor. Neste processo, as violências intrafamiliares podem assumir diversas formas e deixar consequências devastadoras na vida dos os envolvidos. Em estudo de caso realizado por Pelisoli, Teodoro e Dell’Aglio (2007) a violência intrafamiliar é relatada por duas irmãs gêmeas que frequentemente sofriam abusos sexuais e agressões físicas do avô, do pai e do tio. A mãe, sob ameaça, não tinha coragem de denunciar as atrocidades às autoridades. Com efeito, tudo isso interferia negativamente na vida das jovens, que tinham dificuldades para se relacionar com seus colegas e professores. As notas musicais despencavam a cada bimestre e os sintomas da depressão e ansiedade ficavam cada vez mais intensos. Mesmo com todas essas adversidades, as jovens permaneciam sob supervisão psicoterápica e motivadas no caminho da superação de todo este drama.

O seio da família, seja nuclear ou em rede, é idealizado por muitas sociedades como um lugar seguro para se viver e criar os filhos da melhor forma possível, contudo, isso pode ser mais uma promessa falida da moralidade social. A violência intrafamiliar é comum tanto em grandes sociedades quanto em pequenas, sociedades tribais ou capitalistas e também independe de etnia ou credo. Sob este prisma as violências familiares podem se dividir em três categorias: agressões físicas, que ocorrem quando alguém tenta causar danos físicos internos ou externos, com ou sem instrumentos, por meio de força e coerção; as violências psicológicas, que incluem todas as ações de omissão ou que causam ou visam a causar danos à identidade, autoestima e formação psíquica do indivíduo; as violências sexuais, que se caracterizam pelo uso da força, por meio de violência física, psicológica, armas ou entorpecentes, visando a práticas sexuais sem consentimento da vítima (DAY et al., 2003).

Quando se fala em agressão física intrafamiliar, muitas podem ser as conotações das violências, variados podem ser os motivos e infinitas podem ser as formas. A segurança do lar escorre pelo ralo quando a bebida alcóolica entra pela porta. Confirmando este fato, Melo e colaboradores (2005) fizeram um estudo em Recife, com 79 famílias moradoras de áreas com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a fim de tentar identificar o uso de bebidas alcoólicas e o comportamento violento nas famílias. Foi constatado que nenhum padrão de organização familiar estava imune aos malefícios do álcool. Grande parte dos usuários, pais, mães ou filhos, bebiam geralmente nos finais de semana como uma forma de aliviar as pressões sociais. Contudo, quando se colocam dentro de uma panela de pressão bebida alcoólica e a falta de saúde e de infraestrutura para moradia e frustrações, o resultado é uma explosão de violência entre os membros da família.

Todavia, o álcool não é o único estimulante para a violência nas famílias. Educar, valendo-se do medo, também pode ser um verbo bem violento. Na Alta Idade Média, na Renascença e na Idade Clássica o medo era uma peça chave no processo educacional. E, sob a rigorosa disciplina, adolescentes e jovens eram educados com o uso de chicotes, unhas de ferro e palmatórias, pois, acreditava-se que isso construiria um indivíduo ajustado socialmente e com um bom caráter (MATTOS, 2002). Esta tradição acompanha a história do ser humano e, mesmo nos dias de hoje, com os Direitos Humanos colocando parâmetros nos comportamentos violentos, a educação por meio de agressão física ainda é bastante frequente. Reforçando este fato, em uma pesquisa realizada no Hospital de Ensino, em São Paulo, foram analisados 100 casos de violências ligadas a atos supostamente educativos, constatando que

7,0% dos pais corrigiam os filhos com repreensões verbais, 15,0% castigando sem contato físico, 19,0% conversando e 57,0% batendo, 2,0% não responderam (CARMO; HARADA, 2006). Mattos (2002) reafirma este fato, mostrando pesquisa realizada nos Estados Unidos da América, onde o número de pais que batem ocasionalmente e/ou frequentemente nos filhos como meio de educar chega a níveis que variam de 70,0% a 90,0%. No Brasil, o IBGE (2013) apontou o percentual de alunos do nono ano do ensino fundamental que nos últimos trinta dias anteriores à pesquisa foram agredidos fisicamente por algum adulto da família. Em Recife o percentual foi de 11,7%; em Macapá, 11,6%; em Manaus, 11,0%; no Distrito Federal, 8,4%, e, observando o Brasil como um todo, este percentual atingiu 9,5%.

Com a violência intrafamiliar entrando pela porta de muitas casas brasileiras, outros tipos de violência passam junto pela fresta que fica aberta e, rastejando sorrateiramente nas sombras a violência psicológica, pode tomar conta do ambiente e causar feridas mais profundas do que as lesões físicas. Por vir em meio às sombras estas violências são mais difíceis de ser identificadas, em muitos casos sendo negligenciadas conforme explica Silva (2007) ao lançar luz em duas formas de não olhar para a violência psicológica. Na primeira, a mídia constrói uma imagem da violência doméstica relacionada apenas a casos agudos, que geralmente desembocam em violências físicas e estas, por ganharem mais notoriedade midiática, acabam por estampar o rosto da violência doméstica. Na segunda, o autor ressalta a pequena quantidade de pesquisas sobre as violências psicológicas no interior das residências, pois grande parte dos estudos é feita quando a violência psicológica eclode em violência física e esta última geralmente atrai os olhares dos pesquisadores. Esta dupla negligência das violências psicológicas ajuda a camuflar o fenômeno, mas não minimiza seus impactos devastadores.

Espalhadas pelo mundo, as violências psicológicas não escolhem vítimas e nem as adolescentes e jovens grávidas escapam de suas garras. Em uma pesquisa realiza na cidade de Puno, no Peru, foram analisados dois grupos de adolescentes e jovens, compostos por um grupo de controle com 100 meninas que não estavam grávidas e 100 que estavam. Todas elas buscavam assistência no Hospital Regional Manuel Nuñes Butrón, frequentavam as unidades de ensino médio do Estado e tinham de dez a 19 anos. Os resultados mostraram que a maior parte das vítimas eram as meninas grávidas e seus agressores o sexo oposto, pais, padrastos, irmãos, tios e outros parentes mostrando uma clara discriminação ao gênero. Muitas destas jovens, por estarem grávidas, sofriam forte coerção no seio de sua família, eram alvo de

palavras de baixo calão, agredidas e em alguns casos até mantidas em cárcere privado. O mais espantoso foi o relato de que a grande maioria delas achava que todas estas violências eram normais, ocultando mais ainda este fenômeno. Piorando todo o cenário, muitas destas garotas, mesmo grávidas, eram constantemente abusadas sexualmente e estupradas (FLORES SULLCA; SCHIRMER, 2006).

Estas violências, que se entrelaçam e se complementam criam, um ambiente onde os abusos físicos, psicológicos e sexuais se expandem na medida em que o silêncio os deixa passear livremente dentro de casa. O abuso sexual realizado por parentes constitui-se outra violência que assola adolescentes e jovens no interior de suas casas. Waiselfisz (2012) analisou os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) do Ministério da Saúde, e pôde constatar que 10.425 crianças e adolescentes foram vítimas de violências sexuais dentro do lar, 83,2% dos quais eram meninas e grande parte delas com idade entre dez e 14 anos. Este tipo de violência deve ser observado, mesmo que andando pelas sombras, com olhos bem abertos, pois coloca em grave risco o direito fundamental à convivência familiar (AZAMBUJA, 2006). Lévi-Strauss (2011) ressalta que, na grande maioria das comunidades da espécie humana, o incesto e as violências sexuais entre parentes próximos são um tabu e, em muitos lugares, um crime. O autor complementa que a proibição destas relações forma um processo no qual a natureza ultrapassa a si mesma, por meio de uma proibição que ao mesmo tempo é natural e social, no sentido de gerar reflexões sociais sobre um fenômeno natural, a fim de proteger as famílias dos resultados nefastos de casamentos consanguíneos. O casamento intrafamiliar vem sofrendo sanções até nas comunidades antigas e primitivas, como a dos Kenyah, que perceberam que casamentos entre parentes próximos geravam indivíduos fora do padrão normal da sociedade vigente. Na Oceania estas regras aparecem de forma um pouco diferente, na medida em que permitem casamentos com uma “irmã” por classificação, mas distinguem prontamente a diferença entre Kave maori, que significa irmã “verdadeira”, e Kave kasesse que indica a “irmã diferente”. Por meio desta diferenciação, os casamentos só poderiam ser consolidados com a “irmã diferente”, que não tinha laços consanguíneos com o noivo (LÉVI-STRAUSS, 1989).

Na Antiguidade, Plutarco enumera as diversas formas de crimes sexuais contra a família e estes passam a ser considerados crimes graves contra a natureza social. A partir deste ponto passou-se a observar mais atentamente a violência no interior das famílias (LÉVI-STRAUSS, 2011). Com isso, pesquisadores começaram a estudar as consequências

destas violências e chegaram à conclusão que os efeitos podem se manifestar sob as mais diversas formas. A curto prazo podem aparecer problemas físicos, como distúrbios de sono, mudanças de hábitos alimentares gravidez, DSTs, dentre outros. Aparecem também problemas nas relações de apego e afeto, somados muitas vezes a alterações no desenvolvimento cognitivo, na linguagem e no rendimento escolar. A longo prazo os problemas físicos e psicológicos se transformam em sequelas graves como fobias, crises de pânico, depressão com ideias de suicídio, isolamento, distúrbios sexuais, drogadição e alcoolismo (FERRARI, 2002b).

Com tanta violência adentrando os lares e se traduzindo entre ações morais e imorais, fica quase impossível identificar o que se deve aprender em casa ou não. Na medida em que as violências se banalizam e se tornam cotidianas, estes jovens aprendem o comportamento e o assumem fora das residências. Em pesquisa realizada pelo pioneiro Coleman (1989), a questão do aprendizado das violências se pauta no exemplo que é visto, ou seja, muitos jovens e adolescentes observam atos violentos com frequência em suas casas e passam a acreditar que isso é normal, endossado por programas de televisão. Atualmente o aprendizado da violência no seio familiar ganha força com a mídia, levando em consideração que a lente pela qual a criança observa e vivencia a violência mostra este fenômeno com uma moralidade muitas vezes positiva, estimulando o comportamento aprendido em casa a se repetir na sociedade (ROSEMBERG; FENLEY, 1991; BERGER, 2002). Assim, se é sabido que a família e a escola são instituições primordiais para o desenvolvimento do ser humano em meio à sua sociedade, os elos que unem família e escola são formados pela comunicação e pela linguagem. Fica nítido que estas esferas precisam ser melhor desenvolvidas na maioria dos adolescentes, levando em consideração a volatilidade da comunicação entre os indivíduos. Esta mesma comunicação é a responsável por levar as violências de casa para a escola e da escola para a casa, por distorcerem e nublarem o sentido destes fenômenos, causando uma dissonância na compreensão de muitos fatos (MARCONDES; SIGOLO, 2012). Assim, com esta forte ligação entre violência, família e escola, o “Triângulo do Diabo” une seus vértices, gerando mal-estar tanto no interior de casa quanto dentro dos muros das escolas. Deste mal-estar nasce o tentáculo do aborrecimento dos adolescentes e jovens nas instituições educacionais, que se sentem entediados e não conseguem ver sentido no currículo proposto, levando em conta que, para muitos destes estudantes, o currículo das ruas pode parecer bem mais atraente. Este aborrecimento no ambiente escolar, segundo Pellanda (2008), pode gerar uma teia de consequências negativas para os adolescentes, como

a evasão, falta de objetivos na vida, baixos desempenhos escolares, dificuldade de inclusão nos grupos sociais e violências, dentre outras.

3 OBJETIVOS