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5. BÆREKRAFT SOM FELT: IDEASJONELLE ANALYSER

5.3 Bærekraft som topisk felt i skriveoppgavene

5.3.1 Faktabaserte topoi

Na natureza, considerada implacável quando se fala de evolução e sobrevivência das espécies, a violência é um meio de vida, de sobrevivência e de alimentação. Neste contexto, para ficar vivo, é preciso estar disposto a matar ou morrer. Dentro da escola, o cenário não parecia muito diferente. Com professores e alunos separados em dois mundos linguísticos, a comunicação sofria inúmeras interferências, separando-os por um abismo cada vez maior, tornando os tradutores, alunos e professores que conseguiam transpor o abismo, indivíduos cada vez mais preciosos e poderosos.

Com a maioria dos alunos isolados em seu próprio mundo, com regras e conceitos morais criados por eles próprios, o espaço vazio passava a ser disputado entre estes grupos (LIMA, 2010) de meninos e meninas, a fim de adquirir, popularidade por meio da violência e ostentação, e o tédio, em geral, alavancava estes fenômenos. Em grupo focal, João Carlos reclamava do tédio na escola: “...Tem dias que não tem nada para fazer aqui à tarde, sempre falta um professor e somos liberados para ficar passeando na escola porque não tem ninguém para substituir...”. Diego também reclamou do tédio pela limitação da estrutura: “... O diretor até tenta colocar umas coisas para a gente, tipo o slakeline, faz umas festas da hora... mas muitas vezes ficamos à toa, mesmo quando os professores estão dando aula...”. Em entrevista Leonardo confessou se sentir entediado: “...As vezes fico entediado aqui é meio chato, mas gosto de vir para ver meus amigos...”.

Especialmente em dois períodos da vida, na terceira idade e na adolescência, o tédio pode se tornar um problema ligado ao excesso de tempo livre sem direcionamento e/ou falta de objetivo. Na escola, isto pode gerar uma enorme evasão escolar e problemas comportamentais, ligados ao abuso de drogas e às violências. Em detrimento disso, o estudante vai aos poucos perdendo o interesse pelo conteúdo ministrado na escola, muitas vezes pela falta de sentido prático e termina se distanciando do propósito teórico da escola moderna (PINTO, 2012; BONAMIGO et al. 2012). Entretanto, Apesar dos alunos relatarem que o tédio fazia parte da sua vida cotidiana, o diretor afirmou que o número de jovens que abandonavam a escola era muito pequeno, pois a maioria gostava de frequentar o ambiente. Confirmando este fenômeno, os alunos foram perguntados por meio de questionário se gostavam de vir à escola, e 88,6% deles afirmaram gostar muito e gostar às vezes de vir para a escola, 11.4% disseram que quase nunca e nunca gostam de vir para a escola.

Apesar do tédio, conforme declararam, diversos adolescentes afirmaram que também gostavam de frequentar a escola, mas não visando ao propósito de um desenvolvimento conteudista ou algo semelhante, pois este parecia não fazer sentido para muitos alunos, que faziam da escola um local de socialização e diversão. Em grupo focal alguns colegiais deixaram a dica do porquê adoravam vir a escola: “...Eu gosto de vir para cá, vejo meus amigos, o diretor é gente boa e eu brinco muito...”. Benedito, um aluno mais velho, revelou outros interesses que despertavam seu gosto pela a escola: “... Gosto de frequentar a escola. Tipo, aqui tem meus amigos e muitas gatinhas, a gente paquera direto...”. Um professor também confirmou que os alunos gostavam de vir a escola mais para socializar-se e brincar

do que para estudar: “... Ah, estes alunos só querem saber de brincar e brincar. Estudar que é bom ninguém quer, até dentro de sala eles brincam, fazem piadinha, namoram, brigam...”.

Em uma primeira observação indica que esse tédio, abrindo caminho para as brincadeiras, poderia ser algo proveitoso, pois os adolescentes estão brincando ao invés de brigar ou roubar. Entretanto, Melo, Barreira (2015), Alves, Silva (2014) e Oliveira (2013) ressaltam que as brincadeiras devem ser sempre orientadas e possuir objetivos para além da própria atividade física, desenvolvendo valores, inclusão social, desenvolvimento cognitivo e psicomotor e muitas outras valências. Estas brincadeiras e jogos orientados podem interagir de forma construtiva no desenvolvimento da linguagem, na composição de sentidos, no despertar para um olhar cultural do mundo. Os limites lúdicos que os jogos e as brincadeiras orientadas despertam nos indivíduos pode também ser visto em pequenos cachorros, leões ou em crianças que ainda aprendem os contornos do que é tolerável em relação às violências em cada sociedade por meio de brincadeiras e jogos (HUIZINGA, 2000). Caso isso não ocorra, os jovens podem desenvolver por eles mesmos as regras das atividades e os valores que nela serão privilegiados, transformando este espaço de tédio em um possível desenvolvedor de comportamentos de risco.

Com uma séria limitação em sua infraestrutura, a escola não conseguia atender à demanda de alunos e mantê-los mais ocupados com atividades direcionadas. Nas aulas de educação física, o fato de haver apenas uma quadra limitava significativamente o trabalho dos professores, pois só conseguiam colocar em disputa dois times por vez, deixando os outros alunos sem ter o que fazer até sua hora de praticar a atividade. Esta estratégia contabilizava mais tempo de ócio para cada estudante, durante a aula, do que fazendo a atividade dirigida pelo professor. Como forma de minimizar a ociosidade, os alunos passaram a ser levados para o CIEFE, Centro Integrado de Educação Física, para praticar suas atividades em um lugar adequado. Na teoria funcionaria muito bem, entretanto na prática o tiro parece ter saído pela culatra, os alunos mais uma vez passavam mais tempo entediados do que praticando as atividades direcionadas conforme narrou uma professora: “Os alunos vão para o CIEFE em um ônibus velho e caindo aos pedaços, levam em geral uma hora... uma hora e meia para chegar lá, ficam quarenta minutos fazendo atividades e mais uma hora e meia para voltar.”. Antônio Augusto declarou que os alunos também não gostavam muito desta opção: “ Gosto não tio, de ir para lá (CIEFE), o ônibus é desconfortável e a gente nem pode escolher o esporte para fazer...”.

Nos momentos de tédio dentro do ônibus, os alunos se encarregavam de desenvolver suas próprias atividades: “...Ah, eles fazem de tudo no caminho do CIEFE, xingam as pessoas na rua, se batem dentro do ônibus, cantam. Uma vez um menino passou cola na cadeira e outro sentou. A roupa rasgou e quase deu briga...”. Em outro momento um professor narrou a dificuldade em manter os alunos entretidos no caminho para o CIEFE: “...Tem dia que o ônibus parece uma bomba, principalmente nos dias de calor. Os meninos ficam muito agitados, e não tem quem dê conta...”.

Na hora do intervalo o tédio adubava as brincadeiras que em muitos casos eram violentas, e em outros casos terminavam em violência. Libardi e Castro (2014) relatam que é muito comum os jovens começarem alguma brincadeira com mais contato, e, esta desembocar em alguma violência ou algum jovem machucado. Fato narrado por uma professora em entrevista: “...Esses meninos mais novos correm o tempo inteiro, correm para cá, correm para lá, e volta e meia um cai e machuca, ou vai pegar o colega e derruba... algumas vezes eles terminam se desentendendo...”. Em narrativa, a aluna Janaina explicou como isso em geral acontecia: “...A gente começa brincando de pique-pega, por exemplo, outro dia um colega veio e puxou o outro pela camisa para pegar, a camisa fez um barulho de rasgar mas não rasgou, aí os meninos começaram a brigar...”.

Para os adolescentes mais velhos, a brincadeira de pegar já não despertava grandes prazeres, e eles criavam suas próprias atividades com socos, chutes e outras agressões. Um aluno descreveu uma das brincadeiras que alguns colegas gostam de realizar: “Tio... tipo assim...um dá um soco no outro, no braço; dai, se ninguém desistir, damos outro, até que alguém peça para parar...”. Outro aluno, narrou mais uma brincadeira orientada por eles próprios: “...A brincadeira é de brigar, nós brincamos assim, mas batemos fraco. Vez ou outra, tipo... alguém bate mais forte, o outro desconta... daí vira briga as vezes (risos)”. No dia a dia da escola, esse tipo de brincadeira acontecia de forma muito frequente, vista com muita naturalidade pela maioria dos alunos, que muitas vezes separavam as brigas antes que chegasse alguma autoridade.

Uma outra brincadeira muito realizada pelos meninos e meninas, foi descrita por Carla no grupo focal, em meio a muitas risadas dos outros estudantes: “Ah,...(risos), tipo assim, a gente dá tapa na bunda dos outros, com força. Eu dô nas minhas amigas; quando eu estou desprevenida, elas dão em mim. Às vezes damos tapas nos meninos e eles dão na gente

também...”. Com muita naturalidade apanhar na bunda, socar o estômago e o rosto dos colegas eram algumas brincadeiras mais populares da escola entre muitos adolescentes, diferente dos pequenos, que brincavam de correr e pegar. Entretanto, com frequência semelhante, as brincadeiras não orientadas por um docente terminavam em violências. Neste sentido, 68,9% dos alunos respondentes do questionário relataram já terem sido vítimas de brincadeiras de mau gosto e violentas, reforçando a visão quase natural que os estudantes podem ter deste ato.

Por mais assustador que possa parecer, os jovens envolverem violências em suas brincadeiras, isso é muito mais comum do que parece e menos problemático do que poderia ou deveria ser. Ao apontar os holofotes para o passado podemos observar que as brincadeiras dos jovens gregos, em geral, eram repletas de violências inspiradas nas batalhas, treinavam boxe e luta livre praticamente todos os dias de suas vidas. Na idade medieval os adolescentes ficavam pelas ruas lutando com espadas e facas, brincadeiras que em muitos casos rendiam sérios ferimentos e as vezes até a morte e tudo isso servia como um treinamento direto para a guerra, que era uma função primordial na vida adulta do homem (HUIZINGA, 2000 MUCHEMBLED, 2012), como o mercado de trabalho nos dias de hoje. Chagnon (2014) em pesquisa antropológica com os ianomâmis, descreve que a brincadeira dos jovens e seus esportes são de certa feita, bem violentas. O autor relata que um dos jogos prediletos dos adolescentes na tribo é tentar colocar o outro colega e segurá-lo de costas no chão durante alguns segundos, atividade que mescla o wrestling americano e o judô, gerando muitos machucados, mas nenhuma briga.

Na obra A República, Platão([séc. IV a.C]), 2005 também deixou claro que o problema não é a violência natural do ser humano e, sim, o fato desta violência não ser direcionada, sugerindo que as atividades físicas orientadas façam este papel. Colaborando com a perspectiva de que o problema não é a violência e, sim, como se direciona a mesma, Silva (2014) descreve como o boxe ajudou a distanciar da vida do crime os jovens em situação de risco no interior de Pernambuco, em uma cidade chamada Umbuzeiro. O autor expôs que os jovens, ao entrarem no projeto, trocavam socos e muitas vezes saíam com hematomas, entretanto, nenhum deles se envolvia em situação de risco nas ruas, tiravam notas baixas ou brigavam com a família, premissas básicas para participar do projeto. Com o decorrer do tempo, os jovens direcionavam as violências apenas para o esporte, e conseguiam se portar de forma mais adequada no meio social. Assim, ao compreender a violência como

linguagem, excluindo sua face moral, a mesma aparecia como apenas mais um fenômeno, que pode e deve ser direcionado ao em vez de suprimido.