4. VITENSKAPSTEORI, METODE OG MATERIALE
4.2 Å forstå og (for)tolke tekster
Na pós-modernidade as estruturas nucleares que compunham as famílias se modificam e a tônica emerge no ato da possível recomposição constante. De acordo com a perspectiva de Telles Infantes e Guirao (2008), o novo modelo familiar adquire características que envolvem a constante reestruturação das famílias, nas mais diversas composições. Este mecanismo se assemelha ao das células Hydras, descrito pelos cientistas Massaro e Rocha (2008): junte de 20 a 50 Hydras, corte-as em vários pedaços bem pequenos e depois coloque- as no centrifugador. As células que ficam vivas se reagrupam com as metades de outras células. Assim, o número de vezes que o mecanismo se repetir será o número de recomposições celulares, como o dragão mitológico Hydra de Lerna. Esta criatura composta por corpo de dragão e nove cabeças de serpente era considerado invencível, pois, se tivesse alguma de suas cabeças cortadas, logo se regenerava e a cabeça do meio era imortal.
A família na hipermodernidade vem se modificando, sofrendo alterações para sobreviver de forma contextualizada com as novas perspectivas de mundo, e para isso, assim como o dragão e as células hydras, muitas famílias se reagrupam frequentemente para se
manter vivas. Este efeito de recomposições familiares foi chamado pelo autor do presente trabalho de famílias Hydras. Com efeito, este processo tem forte ligação com as classes sociais e a forma como as famílias são percebidas. Sobre este assunto Fonseca (2005) usa as palavras do antropólogo Luís Fernando Duarte para construir uma visão das famílias contemporâneas: quando esta concepção se ergue em meio a grupos familiares considerados de elite, a linhagem e o orgulho pelo capital acumulado suscitou uma hierarquia vertical baseada em uma dominação patriarcal (WEBER, 1999) e cooperativista. A classe média se percebe melhor no modelo nuclear, como reflexo da modernidade, já para os grupos populares o pilar se funda nas atividades domésticas cotidianas e nas redes de ajuda mútua.
Sem pretensão de esgotar os pormenores do assunto, as lanternas serão apontadas para os grupos populares, tentando compreender como a recomposição familiar influencia as representações de violência e o aborrecimento escolar em estudantes do ensino fundamental dois. A pesquisadora portuguesa Cristina Lobo (2009) ajuda a lançar luz sobre o assunto das famílias recompostas, estruturando duas dimensões que se entrelaçam e estimulam a composição das famílias Hydras: a primeira aparece na união da família, que atualmente se baseia em grande parte em laços conjugais e não parentais. As ideologias e a classe social passam a ser elementos fundamentais nesta nova dinâmica familiar, pois, com fortes afinidades financeiras e ideológicas, os laços que parecem se compor quase instantaneamente com o tempo podem se mostrar líquidos e individualizados. Este fato se agrega diretamente às ideologias e perspectivas do casal. Muitos acreditam inconscientemente que namorar pode estar fora de moda e os longos relacionamentos em que o casal se conhece já quase não existem mais, encurtando o espaço de tempo que se interpõe entre o primeiro encontro e a decisão de viver juntos. Concomitantemente, a dimensão da união aparece entrelaçada à esfera temporal, a segunda dimensão, percebida quando o primeiro casamento tem curta duração. Os protagonistas ainda jovens têm mais oportunidades de recompor novas famílias, e, como o centro da união familiar se deslocou para o indivíduo e suas conveniências, a ruptura dos laços pode ser uma saída mais cômoda do que tentar reatá-los, levando em consideração que podem ser recompostos infinitas vezes.
Compondo-se e recompondo-se, a família contemporânea tenta se adaptar ao mundo atual, banhado de paradoxos e individualismo que moldam as famílias para além das diversidades internas, pois todos os tipos de famílias recompostas ou Hydras têm arquétipos estruturais específicos e únicos, o que diferencia um arranjo familiar do outro, tornando cada
formação singular (LOBO, 2005). Neste emaranhado de recomposições surgem modelos familiares completamente novos, para um novo contexto. Um deles são as famílias homoparentais que, segundo Passos (2005), quebram completamente o paradigma que fundava a família nuclear moderna na diferenciação entre os sexos dos pais da família e na possibilidade de gerar filhos com laços consanguíneos.
Na esteira destas reformulações, o número de famílias homoparentais na última década vem se tornando cada vez maior e tem sido constantemente conceituada como elemento chave, com seus laços frequentemente reformulados e baseados em afinidades e afetividades (LAMELA; NUNES-COSTA; FIGUEIREDO, 2010). No mundo, a luta pelos direitos da união familiar de pessoas do mesmo sexo vem ajudando a delimitar novas estruturas baseadas na afetividade e em uma comunhão ideológica. Em Portugal o caso Silva Mouta foi emblemático e chegou a criar jurisprudência em relação ao tema. Em 1983 João Salgueiro da Silva Mouta se casou e deste matrimônio nasceu uma filha. Em 1991 o casamento chegou ao fim e um acordo foi estabelecido com a ex-mulher no que dizia respeito à guarda da filha, segundo o qual o pai a visitaria nos finais de semana. Contudo, o acordo nunca foi cumprido, pois a mãe sempre recusava o direito da visita ao pai. Como resultado disso e do fato de a filha não ficar com a mãe durante grande parte do tempo e, sim, com os avós, Silva Mouta recorreu ao Tribunal português a fim de ter a guarda da filha. A disputa judicial começou quando a ex-mulher contestou o pedido, alegando abuso da integridade física e moral da jovem pelo fato do pai ter se assumido homossexual. O Tribunal português deu ganho de causa à mãe e o processo foi parar no Tribunal Europeu de Direitos Humanos, que condena o Tribunal Português por discriminação em relação à orientação sexual, determinando uma indenização por danos morais e a guarda para o pai (SANTOS et al., 2009). Na França a visibilidade destas famílias começou a crescer e, no ano de 1980 foi criada a Association des Parents et futurs parents Gays et Lesbiens, (APGL) que no início tinha a função de acolher pais e mães divorciados, com filhos, e que se assumiram homoafetivos. Entretanto, com o passar do tempo a associação passou a acolher todos aqueles casais que simpatizavam com a causa (TARNOVSKY, 2013).
O caleidoscópio que constrói inúmeras recomposições familiares abarca uma enorme quantidade de ligações. Zambrano (2006) e Barboza (2012) descrevem novos modelos familiares que surgem nos dias atuais, compostos por travestis e transexuais no primeiro, homens biológicos que podem assumir aparência de mulher e as mulheres assumirem o
estereótipo masculino; no segundo, ocorre a operação da genitália a fim de adequar o corpo do indivíduo à sua sexualidade. Nestas redes que compõem as famílias atuais, os travestis, transexuais, homens e mulheres se combinam livremente de acordo com suas conveniências a fim de formar famílias com direitos e deveres legais. No Brasil esta batalha vem andando em rodas de carroça velha, com a Constituição e os Direitos Civis entrando em contradição com os dias atuais, mas, sob pressão de parte significativa da população, o governo, em 2011 foi reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo (BARROSO, 2007). A partir da mudança que transformou a família nuclear engessada em um embolado de teias que se cruzam, se modificam e ressignificam constantemente, Heráclito nunca foi tão atual, afirmando que a essência do ser era a eterna mudança (BARNES, 2003).
No Brasil, assim como em Portugal, lembrando o caso Silva Mouta, os direitos e as possibilidades de constituição de famílias homoparentais ainda se mostram revestidos de uma moralidade atravancadora. Mesmo assim, casos como o da militante de Direitos Humanos Flávia, de 39 anos, criaram jurisprudência. Medeiros (2006) narra a trajetória desta jovem: Flávia desde pequena era uma pessoa envolvida em militâncias, começando aos doze anos com o grupo de jovens de uma certa igreja e, aos 39 anos, militava a favor dos Direitos Humanos. Casada, mãe de dois filhos, aos 32 anos teve uma relação homoafetiva com uma colega de militância e se descobriu apaixonada por ela. Ao revelar sua nova opção sexual a seu marido, ele a agrediu violentamente e ameaçou pegar as crianças e sumir. Entretanto, decorrido algum tempo o agressor saiu de casa, abandonando esposa e filhas, que foram prontamente amparados por sua futura esposa. Atualmente, recompôs sua família e mora com as duas filhas e sua companheira.
Além das recomposições familiares relacionadas aos gêneros, a estética e a dinâmica formativa deste grupo também sofrem muitas alterações. A família que outrora tinha o pai como núcleo, a mãe como uma figura passiva e pronta para atender às vontades do marido, além de cuidar da casa e dos filhos, e os jovens como futuro das aspirações paternas e estatais começa a assumir um formato de rede. Os laços com nós muito bem atados, que a célula familiar mantinha começaram a se soltar (RAMOS; NASCIMENTO, 2008). Muitos pais e mães, que representam as pontas das cordas que amarram estes laços, passaram a morar em casas separadas, fazendo com que a corda se estique. Caso a mãe recomponha a família, outra corda se estica e se entrelaça àquela que já existia na primeira família. Se o pai também se casa novamente e forma outra família, as cordas se cruzam. Quando o filho sai de casa, outra
corda perpassa este emaranhado. Esta família que se desenha em rede, passa a assumir uma dinâmica completamente diferente da estruturada pela família moderna em forma de célula, onde todos moravam sob o mesmo teto. Neste novo cenário, as distâncias integram parte das relações interpessoais, pois pais e filhos geralmente passam a morar em locais diferentes com a recomposição familiar e os vínculos geralmente se mantêm paradoxalmente sólidos (SINGLY, 2007).
A mudança na forma dos laços familiares pode tanto gerar mal-estar quanto recompor de forma positiva, entretanto, o fato é que as famílias procuram se adaptar ao contexto hipermoderno. Em pesquisa realizada por Stengel (2011), foram analisadas nove pessoas por meio de uma avaliação qualitativa e baseada nas suas histórias de vida, a fim de debater como se estruturam estas novas relações. Na maioria dos casos foi percebido que o discurso de amizade entre pai e mãe depois da separação pode ajudar a minimizar os danos das rupturas. Além disso, a internet também foi constatada como um bom meio para se estreitar e manter os laços entre pais e filhos. No entanto, Sierra (2011) alerta que estes laços devem ser observados com cuidado, pois o simulacro criado pelo convívio virtual não deve nunca substituir a presença de afetividade presencial.
Levando em consideração a extraordinária capacidade que muitas famílias contemporâneas têm para adaptar-se e vencer desafios, Berger (2002) ressalta que isso pode ser gerado devido ao fato de as famílias Hydras estarem ligadas por uma racionalidade individualista muito forte, o que destaca o comportamento em busca da independência e do hedonismo pessoal, ligando as pessoas muito mais por conveniência do que pelo afeto e por uma ética de alteridade ou responsabilidade (LEVINAS, 2007) com o outro. Observando este cenário, Berger (2002) olha para o passado e tenta descrever o que pode vir a ser a família do futuro, concebendo que toda sociedade humana contém em si mesma o gene da desintegração. Em muitos momentos da História, as civilizações entram em colapso e isso causa mudanças em toda a comunidade. A família não escapa a isso e, no presente momento, em uma sociedade hipermoderna, o grupo familiar vem sofrendo alterações constantes, ou seja, esta instituição independente de sua forma, vai muito além da escolha de um estilo de vida e passa a ser um forte guia para a formação das culturas e civilizações.