4. VITENSKAPSTEORI, METODE OG MATERIALE
4.5 Operasjonalisering: Analysekategorier
4.5.2 Felt belyst gjennom fagord
Na obra, Operários da violência: Policiais torturadores e assassinos reconstroem as atrocidades brasileiras, Huggins, Haritos-Fatouros e Zimbarto (2006) realizaram uma pesquisa qualitativa para desvendar a dinâmica organizacional e funcional dos policiais que mataram e torturaram na época da ditadura no Brasil. Entretanto, no início da jornada se depararam com alguns obstáculos e perceberam que, para acessar as informações mais relevantes, teriam que tentar conversar com os líderes, tarefa que se mostrou muito difícil, pois são protegidos por um muro de omissões e mentiras construídas com a ajuda dos que os rodeiam. Em situações de violência, a “verdade” é artigo de luxo. Guardadas as devidas proporções, a análise das violências na escola estudada levantou dificuldades semelhantes, pois informações relevantes que os líderes dos grupos de adolescentes guardam se mostraram quase intocáveis.
Os obstáculos e as barricadas deixados pelos líderes dos grupos a fim de guardar as informações podem ter interferido com mais ênfase em dois casos, nas entrevistas semiestruturadas e nos grupos focais. No primeiro caso, a estética do cenário de alguma forma pode ter intimidado alguns estudantes, como relatou um aluno em entrevista informal: “Olha, tenho pra mim, que os alunos não gostam muito de falar porque fica gravando, parece a sala quando o diretor chama a gente para conversar... parece também quando os
gambés2 leva a gente para conversar...”. Esta afirmativa levantou a hipótese de que a estética
do cenário, de alguma forma remetia os alunos às opressoras salas de interrogatórios dos filmes policiais da década de setenta em Hollywood. Após este relato, as entrevistas mudaram de lugar mais duas vezes, sendo algumas realizadas na biblioteca e outras na sala dos professores, a fim de diminuir a ideia de opressão criada na cabeça de alguns estudantes. Outro fator relativo à sensação de intimidação referente às entrevistas semiestruturadas pode ter acontecido porque um dos primeiros alunos a serem entrevistados foi um dos líderes dos grupos de jovens na escola. Sendo assim, ao perceber que o tema se ligava às violências nas escolas e em seus arredores, tratou de dissimular muitas respostas e ameaçar alguns alunos que foram entrevistados posteriormente. Todavia, este fato também teve um lado positivo, pois, se este adolescente fosse deixado para algum momento mais a frente, a entrevista poderia não ter acontecido: o mesmo saiu da escola um mês após a entrevista.
No segundo caso, os grupos focais, os líderes dos grupos de meninos passaram a ameaçar os outros adolescentes antes de entrar na sala para a entrevista em grupo. Tal fato foi observado quando ao final da fila para a entrada na sala de entrevista, vinha o último estudante e, antes que o mesmo entrasse, um jovem que se encontrava à esquerda da porta, a uma distância de cinco ou seis metros, olhou para ele, arregalou os olhos com raiva e passou o dedo indicativo horizontalmente na altura do pescoço como forma de ameaça. Com isso em mente, o jovem acuado foi observado com mais cautela e ficou nítido o contorno de sua timidez forçada. Além disso, este mesmo grupo de jovens, quando sentados à mesa de entrevista, ameaçavam com olhares e cutucões por baixo da mesa outros colegas antes que revelassem algo que não lhes era conveniente. A ousadia teve seu ápice com um dos alunos tentando pegar o celular que gravava o grupo focal, justificando-se da seguinte forma: “Pô, tio, esse celular é muito da hora, eu também quero...”. Atitudes como essa, aconteceram em grupos focais que incluíram jovens líderes de grupo, e foi interpretada como uma possível forma de disputar o território com o pesquisador e mostrar para os outros colegas quem são os senhores das moscas, conforme o conto de Golding (2003). Após este evento, reunir alunos para o grupo focal e incentivá-los a falar se tornou uma tarefa bastante difícil, pois eram ameaçados constantemente.
Visando à melhor interação com o cenário estudado, os contornos etnográficos que a presente pesquisa adquiriu ajudaram uma imersão mais profunda neste universo. Na etnografia da prática escolar, André (1995) sugere que a observação participante é uma técnica de pesquisa importante para se apreender o dinamismo e a complexidade do universo escolar. Olhando para este norte, a pesquisa de campo teve início seis meses antes da data descrita como princípio das observações, com a participação do pesquisador nas aulas de boxe e mixed martial arts ministradas pelo diretor da escola para os alunos, a fim de interagir para compreender a linguagem e dinâmica de comportamento, tornando a figura do pesquisador um pouco mais sociável e menos estranha aos olhos dos estudantes. Esta máscara de informalidade facilitou a aproximação com alguns estudantes e, assim, possibilitou o acesso tanto aos líderes dos grupos quanto na coleta de informações fundamentais na composição do cenário.
Outra técnica utilizada visando driblar os obstáculos foi a “bola de neve”, onde um entrevistado indicava outro adolescente a ser entrevistado, em geral um colega ou amigo íntimo (HUGGINS; HARITOS-FATOUROS; ZIMBARDO, 2006). Assim, foi possível
chegar de forma um pouco mais sutil aos líderes dos grupos de colegas, compreendendo e se apoderando da linguagem que rege o contexto para tentar fazer perguntas mais precisas.
Mas não foram apenas os alunos que lançaram obstáculos no percurso, muitos professores também fizeram sua parte. Antes de cada entrevista semiestruturada a coordenação se prontificava a ir com o pesquisador até a sala dos professores e solicitar a boa vontade dos mesmos para participar, mas a resposta mais usual era o silêncio. Com um corpo docente composto por mais ou menos três dezenas de professores, apenas sete se propuseram a participar, quatro não puderam por motivos de choque de horários. Nos dias designados para aplicação dos questionários, foi fácil perceber no rosto e nos comentários de alguns professores o incômodo que a atividade pode ter causado a eles. Em detrimento disso, as entrevistas informais também foram instrumentos de muita valia para analisar a ótica dos professores a respeito do tema, pois podiam ser feitas de forma rápida e fragmentada, aumentando o conforto dos entrevistados ao responder as questões.