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7.3. Language issues
Finda a escravidão, mas não o racismo, os hábitos e costumes negros deveriam ser coibidos em um processo de reforma moral e social. A questão pôde ser bem certificada por meio da criminalização da capoeira, estabelecida no Código Penal de 1890 e reiterada em 1893, com a criação das colônias correcionais para “capoeiras, vagabundos e vadios”. Nesse momento transitório, inicia-se um movimento oscilatório e dinâmico que, conforme sinalizado anteriormente, vê a mestiçagem e a miscigenação como opção estratégica da elite, sem muitas escolhas, para encaixar as heranças negras à sociedade. E de outro lado, havia um jeito negro e popular de buscar legitimação por meio de um apelo cultural, folclórico e principalmente esportivo. “Se, de um lado, a cultura negra se embranquece, de outro a cultura branca se enegrece” (REIS, 2000, p.69).
A capoeira segue então como uma herança escrava que se desenvolvia, cada vez mais, mestiça, e a mestiçagem trazia uma conotação de nacionalidade e miscigenação, ofuscando lentamente a origem negra. Simone Vassallo (2003) nos traz uma importante visão dos intelectuais e escritores da época que corrobora este prisma, como veremos a seguir: “Os negros eram considerados primitivos, e suas atividades eram classificadas como patológicas. A capoeira era um ‘cancro moral’ que deveria ser extirpado, pois impedia a modernização do país” (MORAIS FILHO, 1893, p.431, apud VASSALLO, 2003, p. 108).
Assim sendo, a capoeira sobrevive, serpenteia como um rio em um leito seco, desviando de obstáculos, reformulando seu curso, sua forma. Ela simplesmente segue, avança, resiste e persiste em continuar existindo apesar das grandes adversidades, certificando os dinamismos próprios da cultura. A capoeira avança então no século XX dentro de movimentos contraditórios inserida em um processo de renovação dos sentidos sociais, colocando em contato as culturas brancas e negras, e busca caminhos distintos a procura de aceitação. Na Bahia temos este processo – que focaremos agora.
O processo de ascensão da capoeira começa lentamente na década de 1930. No decorrer desse período, a capoeira passa a fazer parte das lutas de ringue, que já constituíam uma tradição de diversão popular.
Assim, as lutas de ringue ficam mais incrementadas com os desafios entre a capoeira e as modalidades de jiu-jítsu, luta livre e o catch-as-catch-can12.
As vitórias espetaculares dos capoeiristas contribuíram para, gradativamente, organizar um sentimento de nacionalismo (ABREU, 1999).
A prática marginalizada ganha apelo popular quando o capoeirista é visto apenas como um brasileiro que luta contra um adversário de outra nação. A arte, lentamente, ganha status de esporte nacional. Inserida em outro contexto, a prática muda seu significado e sua identificação.
É nesse momento, nesse contexto histórico, que um grande personagem da história da capoeira entra em ação: Manuel dos Reis Machado – Mestre Bimba (1900-1974). Dentro da gama de informações relacionadas ao universo do mestre, foram selecionados alguns momentos relevantes que ilustram a ascensão da capoeira e o importante divisor histórico que aconteceu por seu intermédio.
Esse momento configura-se por fortes lutas por apoio institucional, o Mestre em seu trabalho para manter a continuidade de suas ideias, buscou enxertar na sociedade baiana o espírito de pertencimento, de estabilidade das suas práticas e de seus valores. Uma linha de pensamento só possui força quando existe coesão social, representação, adesão afetiva e numérica (POLLAK, 1989). Dentro desse entendimento, Mestre Bimba, em sua luta pela valorização da capoeira, cria em 1928 a “Luta Regional Baiana”. Esse termo foi utilizado por ele em substituição ao termo “capoeira” como uma estratégia de aceitação em uma sociedade coberta de preconceitos pela atividade ainda marginalizada. O que ele propunha tinha como objetivo diferenciar a sua prática das demais, que aconteciam na informalidade das ruas.
Com a ajuda de seu aluno Cisnando, grande conhecedor de jiu-jítsu, boxe e luta greco- romana, Bimba cria uma metodologia de ensino para a capoeira caracterizada por sequências de movimentos e um código ético restrito (ALMEIDA, 1982).
A partir desta transformação, a capoeira gradativamente vai se inserindo no contexto universitário. Pode-se atribuir ao Mestre Bimba um papel importante neste processo, pois através de seu contato com estudantes de Salvador, que o convidaram para ensinar na pensão onde residiam, o mestre pôde ter acesso a uma camada social e a códigos e símbolos do conhecimento científico que possibilitaram a criação de uma sistematização desse novo modelo de ensino da capoeira. O novo modelo de capoeira criado por Bimba e seus discípulos
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Ocatch-as-catch-can, também conhecido como Catch can Wrestling, popularizou-se no final do século XIX. A modalidade buscou mesclar técnicas de diversas artes de lutas agarradas de vários países, na busca por elementos de excelência para causar a submissão do adversário. Nos dias atuais, a modalidade é extremamente difundida nos EUA e recebe apenas o nome de Wrestling.
passa a ser reconhecido paulatinamente pela sociedade civil, sendo inclusive o Mestre Bimba agraciado com o título de Instrutor de Educação Física, mediante diploma expedido pela cidade de Salvador. A capoeira institucionalizada inicia-se com Mestre Bimba, mas só vai se firmar com o passar dos anos, através de outras iniciativas promovidas por seus alunos (ALMEIDA, 1994).
De fato, a iniciativa de Mestre Bimba surte efeito. Merecedora de destaque, a apresentação realizada por Mestre Bimba no palácio governamental, em 1937 foi um marco. Ainda clandestina, a capoeira adentrava os salões do governo, a convite do então interventor federal na Bahia, Juracy Magalhães, que levou Mestre Bimba para apresentar a capoeira para o Presente Getúlio Vargas no Palácio presidencial. O interventor proveu um início de uma descriminalização da luta, e de forma sequencial grandes conquistas aconteceram a Mestre Bimba e a sua vertente. Ainda na década de 30, além de ter feito grande sucesso nas lutas de ringue, Mestre Bimba teve sua academia de "Luta Regional Baiana" registrada na Secretaria da Educação, Saúde e Assistência Pública. E ainda na mesma década, seu aluno Mestre Onça Tigre, oficial do Exército, levou Bimba e sua prática para a instituição (ALMEIDA, 1994).
A capoeira nessa etapa sofre uma transformação identitária, podendo ser vista por uma ótica metodizada e institucional, e com certa representação nacional. Mestre Bimba foi um grande agente de transformação, mas é importante entender o contexto sociopolítico que favoreceu tal transformação13. A capoeira conquistou espaço na sociedade, mas foi organizada também dentro de padrões pré-concebidos. Ela é tida então como folclore exótico e luta genuinamente brasileira.
Embora a comunidade da capoeira possa ser definida como um universo simbólico dotado de relativa autonomia, foi possível perceber através de suas relações internas a penetração do espírito político presente nas ideologias autoritárias do período 1930 – 1945...
...Assim, identificou-se um conjunto de padrões de conduta articulados em torno do que chamamos de ética da malandragem, uma atitude complexa que envolve, ao mesmo tempo, a resistência e a convivência com instituições que representam o poder e a ordem (VIEIRA. L, 1996, p.176).
13 Para saber mais, verificar os trabalhos: VIEIRA, Luiz Renato. O jogo da capoeira: corpo e cultura popular no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Sprint, 1996. VIEIRA, Luiz Renato, ASSUNÇÃO, Matthias Röhrig. Mitos, controvérsias e fatos: construindo a história da capoeira. Estudos Afro-Asiáticos (34): 81-121, dez. 1998. E também o trabalho deABREU, Frederico José de. Bimba é bamba: a capoeira no ringue. Salvador: Instituto Jair Moura, 1999. Os autores fazem explanações, e amplos levantamentos relacionados ao aspecto renovador e ao contexto político facilitador que Bimba encontrou para promoção da sua capoeira regional.
A responsabilidade pelas conquistas sociais não deve ser atribuída apenas às ações isoladas dos agentes transformadores, tampouco à pressão social e à visão estruturalista segundo a qual somos unicamente resultado do contexto sociopolítico em que vivemos. Impossível, contudo, é delimitar todas as forças e ações que ocorrem nos processos de reorganização social. A capoeira, vista como um espaço de representação social que evidencia conflitos que ocorrem também em outras instâncias nacionais, nos traz exemplos intrigantes. Mostra, por exemplo, a fusão entre a resistência e a repressão em uma mesma figura. O mesmo policial que reprimia a capoeira no seu período de proibição praticava a arte aprendida nos tempos de juventude. As complexidades sociais fazem então com que nos afastemos de discursos deterministas e muito delimitadores.
A capoeira ascendeu por vários caminhos. O apelo midiático revela o nacionalismo exaltado na era Vargas, exemplificando outra oportunidade na qual a capoeira buscou legitimação.
Necessário se torna, entretanto a fundação de uma entidade mentora que possua em sua diretoria, elementos de destaque em nosso meio esportivo. Incrementar e difundir a capoeiragem, meio de defesa essencialmente nacional e de melhor segurança que qualquer outro. Assim como o japonês propaga o jiu-jitsu e o americano a arte de esmurrar, nós brasileiros devemos incrementar a nossa capoeira. (A Tarde, 06/02/1936, apud ABREU, 1999, p.43).
É importante entender que a capoeira se alastrava paulatinamente pelo território nacional, na região do recôncavo baiano, assim como em Pernambuco, Pará e no Rio de Janeiro, onde aconteciam iniciativas com características bem peculiares. No Rio de Janeiro, especificamente, um dos grandes eixos de difusão da arte, a capoeira tomava forma completamente distinta da irmã baiana. A capoeira desenvolvida na capital carioca, que tomou maior vulto, também denominada de Capoeira de Sinhozinho14, era baseada nas antigas maltas.
Os capoeiristas cariocas daquela época estavam em busca de uma identidade cultural própria, construída com base em elementos africanos. As experiências distintas no processo de escravidão geraram agrupamentos diversos que se rivalizavam. Lenços de cores próprias, delimitação de espaços físicos, praças e fontes emolduravam o cenário de disputas e
14 Agenor Moreira Sampaio, mais conhecido como Sinhozinho, era paulista, nascido em Santos, em 1891, e tendo falecido em 1962. Dotado de extraordinário vigor físico, destacou-se em várias modalidades esportivas. Embora tenha terminado seus dias em Ipanema, morou muitos anos em S. Cristóvão e em Copacabana. Aprendeu sua capoeira observando os bambas de sua época, convivendo com os boêmios, com os valentes e os malandros do Rio de então.
rivalidades entre as maltas bem organizadas (VASSALLO, 2003). A capoeira de Sinhozinho estava baseada nessa herança, teve pouca influência folclórica ou acrobática e não utilizava os instrumentos musicais característicos da capoeira. Os praticantes vestiam-se como lutadores de boxe, com bermudões, botas e sem camisa, seus movimentos estavam, quase que na totalidade dos casos, relacionados às ações diretas de ataque e defesa, aproximando-se bastante do que seriam hoje os treinamentos de defesa pessoal.
Muitos apaixonados pela bela capoeira da Terra do Bonfim têm dificuldade em aceitar a Capoeira de Sinhozinho como sendo ‘capoeira’, devido à falta de música e de ritmo marcado por atabaque, pandeiro e, principalmente, berimbau” (rohermanny.tripod.com). 15
Essa afirmação demonstra, claramente, que no desenvolvimento da capoeira formaram-se várias identidades, e não uma identidade única e exclusiva. Esse entendimento torna-se fundamental durante o trabalho, para que compreendamos a estruturação multifacetada da capoeira contemporânea em decorrência dos inúmeros focos irradiadores.
Observa-se também na citação de Rudolf a negação dos baianos e o não reconhecimento das práticas que não eram condizentes com a sua. Negar todas as estruturas que não estão relacionadas a uma concepção própria é uma das fortes estratégias de formação de identidade. Cada grupo específico promove suas ações e fortalece seus argumentos para demonstrar a legitimidade de suas práticas. Grupos distintos possuem características que os diferenciam de outros e cada grupo busca ancorar suas memórias em eixos históricos, que funcionam como referências para obter legitimidade dentro da sua construção de pensamento (POLLAK, 1992).