• No results found

7. Levekårsmobilitet i ulike grupper

7.4. Langtidssyke

Como finalidades mais determinantes do processo de criação da Associação Cultural Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê são colocadas pelas suas lideranças dois argumentos reputados como elementos motivacionais relevantes na mudança de atitudes dos negros da Liberdade a partir de 1970. São eles: a) a ampliação do leque de oportunidades na participação de agremiações carnavalescas nos circuitos oficiais da cidade, que até então privilegiava as elites fechando-se, principalmente, para antigos grupos de pobres afro-descendentes que se viam restritos aos seus bairros de origens e b) a necessidade de se forçar, em nível oficial, a inclusão do segmento

populacional de cor preta nos calendários festivos da cidade. Esses sujeitos sociais, ainda fortemente discriminados, tinham, na sua grande maioria, suas presenças ligadas às cordas dos grupos das elites, garantindo a tranqüilidade dos seus participantes, separando-os dos foliões populares. Nesse sentido, os pretos de Salvador (e aqui me refiro principalmente aos do bairro da Liberdade) viam-se envolvidos nos festejos, porém marginalizados deles, mesmo que desempenhando o papel de segurança. Portanto, a criação do bloco Ilê Aiyê, em 1º de novembro de 1974, nos discursos dos seus fundadores representaria o marco inicial dessas conquistas nos espaços oficiais do calendário lúdico, permitindo aos negros, excluídos dele, uma participação mais efetiva nos carnavais soteropolitanos. Assim nasceu o Ilê Aiyê, sensibilizado pela grande quantidade de negros desempregados que só podiam ver o Carnaval como fonte alternativa de trabalho, trazendo para estes negros uma perspectiva de lazer definida, logo de início pelos seus organizadores, como um espaço de exclusividade dos “negões”, evidenciando uma reação à discriminação sociorracial do momento e uma demonstração de afirmação das características socialmente desvalorizadas.

Talvez, por influência do terreiro de Candomblé Ilê Axé Jitolu, em cujo espaço nasceu, o bloco foi estruturado administrativamente nos moldes do próprio terreiro, compondo-se de presidência e diretorias que, na ótica do grupo, atuam irmanados numa só família. Jônatas Conceição, um dos diretores, confirma no seu depoimento a seguir o papel controlador exercido pelo presidente e seus diretores: “[...] tem uma

estrutura administrativa que é coordenada pelos fundadores da família. É essa estrutura que controla, administra as finanças do bloco, os eventos, as excursões no Brasil e no exterior [...]”. Percebe-se então a importância dessa “família” na

construção do discurso hegemônico do bloco como delineador de referência grupal, estabelecendo regras e diretrizes como paradigma oficial de orientações nas quais deve se desenrolar o processo de construção da identidade coletiva do bloco. O fato de o Ilê Aiyê até hoje se manter num modelo de organização hermético, tendo o poder de decisão concentrado na alçada do seu presidente e dos seus diretores, reflete o grau de dependência que impera nas relações do próprio bloco com o terreiro de Candomblé que lhe deu origem. Esse estilo fechado de se administrar, constitui-se na principal especificidade da entidade porque se assemelha às estruturas de poder das sociedades da África pré-colonial. Esse modelo africano,

como princípio de orientação escolhido pelos fundadores do bloco, é ainda hoje o sustentáculo do seu discurso étnico que norteia as suas experiências históricas, modelando valores, crenças e atitudes entre seus integrantes. A adoção de um modelo inspirado nas regras do terreiro que lhe deu origem é a experiência mais forte que liga as manifestações lúdicas e culturais ao modelo africano. Como diz Arani Santana, uma das fundadoras do bloco: “[...] nós temos as rédeas segura, mesmo, na questão da religiosidade, na questão espiritual do não-modernismo demais [...]” (apud SILVA, 2001, p. 69).

Quando o Ilê Aiyê foi pensado, o Estatuto que consolidou a sua organização geral definiu como seus principais objetivo:

a) promover o estudo da cultura negra; b) promover e incentivar o intercâmbio e o desenvolvimento das relações sociais, artísticas, científicas, esportivas, filantrópicas e culturais entre os moradores do bairro da Liberdade; c) combater todo e quaisquer tipos de discriminação social, especialmente em função da cor, sexo ou credo religioso dos indivíduos. (Estatuto, Art. 2° apud SILVA, 1995, p. 99).

Quase todas as finalidades preconizadas pelo Estatuto do bloco têm sido aplicadas na prática, rendendo à própria organização o título de Instituição de Utilidade Pública, reconhecido pela Câmara de Vereadores de Salvador. Salienta-se aqui “quase todas”, justamente porque aquela finalidade contida na alínea c do Art. 2° do documento aludido que se refere ao combate à discriminação de cor, na perspectiva desta tese ainda não foi colocada em prática, uma vez que a exclusividade de negros para o acesso ao quadro social do bloco continua ainda como um ponto de conflito em relação ao combate da discriminação da cor. Com isso, não se pretende aqui tecer críticas desgastantes em relação ao bloco como espaço só de negros. Mas fica o alerta para que se possa pensar uma forma mais interessante para o bloco resolver esse impasse, quebrando assim a força de uma decisão sustentada por regras que submetem os simpatizantes a valores definidos pelos seus fundadores. Acredita-se que, para uma verdadeira aplicação da alínea c do Art. 2° do Estatuto do grupo, é necessário que se quebre o monopólio dessas idéias, laicizando o foro das discussões, tornando mais democráticas as participações, privilegiando também as camadas periféricas do próprio bloco e desconcentrando o

poder da alçada do seu núcleo central. Enfim, revertendo o quadro centralizador do poder descrito por Silva (1995, p. 102) quando afirma referindo-se ao próprio grupo “[...] cabe ao presidente tomar as decisões administrativas, bem como conduzir os objetivos da entidade”.

A estrutura de organização do bloco Ilê Aiyê, com a sua orientação voltada para um “consenso” de centralização administrativa em poder da sua presidência, assemelha- se à mesma estrutura hierárquica do terreiro onde nasceu. Ali, a ialorixá orientadora espiritual de filhos e adeptos conduz, com as bençãos dos Inquices82 e a obediência de todos, o destino da sua comunidade religiosa. No bloco Ilê Aiyê o presidente concentra o poder da entidade que dirige com respaldo maior da ialorixá do terreiro. A abertura do ciclo de participação do bloco Ilê Aiyê no calendário monesco de Salvador, realizada à meia-noite do sábado de Carnaval, hoje conhecida mundialmente como “saída do Ilê Aiyê”, é o momento mágico que marca o simbolismo religioso que fundamenta a ligação entre o bloco e o terreiro. Mãe Hilda, a ialorixá do terreiro, é ao mesmo tempo a matriarca do bloco que distribui as bençãos dos “santos” entre os participantes do desfile. Antonio Carlos dos Santos Vovô é a autoridade máxima do grupo, que conduz os desfiles do Curuzu/Liberdade até os circuitos oficiais localizados no centro da cidade. Ambos, Mãe Hilda e Vovô, são autoridades distintas, mas que se complementam. A segunda como extensão da primeira. Uma que se divide em duas sem perder o sentido de unidade, como diz Debord: “O espetáculo, como a sociedade moderna, está ao mesmo tempo unido e

dividido””. (1997: 37). Contudo, é no terreiro que se encontra a origem das

realizações do bloco, como assevera Mãe Hilda: “Por aqui. Nesse lugar aqui [...] pequeno... Num Terreiro de candomblé. Daqui sai tudo. Sai essa força.” (apud SILVA, 1995, p. 104).

O discurso inicial que ainda sustenta o ideário do bloco Ilê Aiyê, traçado pelo seu núcleo fundador, pauta-se numa preocupação de resgate das culturas africanas como forma de autoconhecimento histórico que permita a elevação da auto-estima de afro-descendentes negros do bairro, libertando-os do processo de imitação aos “brancos”, a partir do abandono de alisamentos de cabelos, apontando para a

82

construção de uma identidade coletiva pela estética e pelo comportamento sem prejuízos das suas características naturais. Segundo Arani Santana, desde 1972 que alguns negros do bairro, inclusive ela própria, já usavam seus cabelos “na forma

natural, sem alisamentos”, no estilo “black power”, vestidos nos moldes das culturas

africanas, dançando e cantando no estilo negro, africanizando o Carnaval de Salvador e chocando o conservadorismo da sociedade soteropolitana.

O corpo diretivo do bloco Ilê Aiyê, configurado na união do seu presidente com os diretores, ainda detém o poder de decidir sobre os destinos de toda a comunidade grupal. Uma equipe minoritária como essa, com alto poder de interferência nos destinos da própria comunidade, ditando regras e definindo posturas que, de certa forma, mexem com as posições e atitudes dos associados dentro da agremiação, deixa uma ilusória impressão de que é realmente modeladora do perfil identitário do grupo. Contudo, é certo afirmar-se que a construção da identidade coletiva não é obra de uma pessoa ou de uma equipe em particular. Ela se dá por um processo menos racional e mais espontâneo, no qual a energia geradora dessa construção emana das atividades exercidas pelo grupo. Contudo, essa postura de liderança providencial, colocada pelo núcleo central do bloco, tem recebido o aval de credibilidade da Psicologia das minorias ativas que acena com argumentos teóricos, admitindo a possibilidade de se estabelecer um “consenso de submissão” às diretrizes mesmo que editadas por grupos minoritários a partir do momento em que estiver em risco os interesses de todo o grupo, atingindo conseqüentemente os indivíduos dele participantes “em situações como esta, esse consenso extremo se torna inevitável” (MOSCOVICI, apud SILVA, 1995, p.102). Analisando por essa perspectiva teórica, esse argumento é de fundamental valia para a compreensão do modelo de organização administrativa centralizada no bloco desde a sua criação, ainda que não o isente (conforme já referenciado) da fragilidade em relação à alínea

c do Art. 2° do seu Estatuto social.

Se por um lado se torna incongruente o impasse criado pelo fechamento consensual ao acesso de não-negros ao bloco, por outro, são bastante compensadores os esforços empreendidos pelos “porta vozes” do grupo, levando o bloco para além das fronteiras de sua sede social no Curuzu/Liberdade, atingindo o bairro como um todo, disseminando suas idéias pela cidade e ganhando o mundo numa espetacular

demonstração de poder e determinação. Multiplicou-se as atividades culturais, implantando uma verdadeira revolução nos campos da pesquisa sobre o autoconhecimento histórico e da afirmação social negro-brasileira. O Projeto de Extensão Pedagógica, colocado em prática nas escolas do bairro e distribuídas nas redes municipal e estadual, tem se transformado em instrumento eficaz no processo de conscientização e construção da identidade coletiva do grupo, preparando professores e alunos, principalmente os afro-descendentes negros para o confronto diário com a discriminação sociorracial dentro e fora das escolas.

Figura 16: Bloco Ilê Aiyê