7. Levekårsmobilitet i ulike grupper
7.2. Aleneboende
As questões ligadas ao estado de discriminação sociorracial a que estavam submetidos os africanos e seus descendentes diaspóricos, já se encontravam em
58
Depoimento de um negro morador do bairro: “O negro não se dá valor. O negro tem psicose. Nunca
tive amigos negros, só brancos” (1997). 59
Depoimento de uma “mãe-de-santo” branca: “Me considero negra, sou do Candomblé, portanto,
plena efervescência tanto nos Estados Unidos da América quanto na Europa. Nesses lugares do planeta, os negros estavam dando seus sinais mais veementes de inconformismo, buscando outros caminhos e apontando para a direção da ruptura com o procedimento de assimilação ao branco que, pela escassez de outras alternativas de ascensão social, muitos deles vinham sendo induzidos a aderi-lo. Inicialmente, assemelhar-se tanto quanto possível aos brancos foi uma estratégia usada para que se pudesse cobrar deles os reconhecimentos de fato e de direito.
Nesse sentido, as pessoas negras passaram a utilizar produtos químicos no corpo e a submeter seus cabelos a alisamentos, objetivando aproximar-se dos padrões europeus. Contudo, as relações entre negros e brancos foram evidenciando, na prática e na teoria, aos próprios negros, que de nada estavam adiantando seus esforços em procurar assemelhar-se a eles, pois, com isso, o que mais podiam alcançar era o ridículo deles próprios. Foi dentro desse contexto que, em 1932, na França, estudantes negros antilhanos organizaram e publicaram uma revista que a denominaram de ”Legítima defesa”, e nela criticavam seus conterrâneos intelectuais, acusando-os de “imitadores” dos modelos franceses60. Essa revista silenciou-se logo após a sua primeira publicação. A partir dessa divulgação, despertou-se mais efetivamente a consciência étnica negra. Em conseqüência, a bandeira levantada pela “Legitima defesa” não se deixou sucumbir, pois, dois anos depois da sua publicação, em 1934 uma outra revista foi criada, dando prosseguimento às mesmas intenções da revista extinta – trata-se da “Estudante negro”, assumida por alunos negros de várias origens que se encontravam em Paris, encampando como luta, além dos postulados da revista anterior, a liberdade de criação e o fim da imitação
ocidental, colocando como condição para se alcançar essa liberdade a presença de
três fatores: a volta às raízes africanas, o comunismo e o surrealismo61. Os líderes desse grupo podem ser considerados como os fundadores do movimento “Negritude62”. O “Negritude” nasceu assim, dessa iniciativa, visando o resgate das raízes culturais africanas como forma de afirmação identitária.
60
Os principais organizadores desta revista foram: Étienne Léro, René Menil e Jules Mouner. MUNANGA, K. Negritude, 1988, p. 42.
61
Movimento artístico iniciado na França que rejeita as concepções lógicas do espírito e se louva somente no inconsciente.
62
MUNANGA, op, cit, p. 43: “o grupo da revista era dominado por Aimé Cesário (quem criou a palavra
Definindo “Negritude” como “personalidade ou consciência negra”, o movimento vai congregar inúmeros poetas, romancistas, etnólogos, filósofos e historiadores na saga tortuosa da reconquista do orgulho africano na valorização das suas culturas e na rejeição da assimilação que teria sufocado suas personalidades63. Segundo a concepção mais dominante no “Negritude”, “[...] o estudo da história permite ao
negro recaptar a sua nacionalidade e tirar dela o benefício moral necessário para reconquistar seu lugar no mundo moderno64”.
No Brasil, a prática de superação das dificuldades que impediam a possibilidade de inclusão do negro na sociedade (tais dificuldades também alimentadas pela ausência de políticas sociais, principalmente para as questões negras), muitos dos afros- descendentes, já no período da “ingenuidade”, recorriam à estratégia de imitação aos não-negros, enquadrando-se nas suas regras de apresentação estética e de conduta pessoal, visando a serem aceitos nos interiores dos seus grupos. Esse projeto de eliminação da presença da cultura do negro na cultura brasileira se arrastou, efetivamente, até 1930, quando se começa a abandonar as idéias de inclusão pela imitação que caracterizou o denominado “período de ingenuidade” e inicia-se novos estudos, numa perspectiva mais realista da presença negra em nossa sociedade, indo até os anos 50, que vão sinalizar momentos de recrudescimento das lutas pelo reconhecimento e pelo respeito aos valores culturais negros. A reação mais efetiva nesse sentido se concretizou na organização da “Frente Negra Brasileira”, na capital de São Paulo, num bairro de origem negra conhecido como o “Bexiga”, tendo como projeto de articulação político-cultural uma escola de samba denominada “Grande Vai vai”.
O Bexiga ainda abriga nos seus limites um Candomblé antiqüíssimo. Assim, com os novos rumos tomados na questão da interpretação sobre a importância da cultura negra, foi possível se montar o arcabouço ideológico que permitiu o desenvolvimento do projeto de militâncias políticas e culturais que vem orientando as lutas negras a partir do último quartel do século XX. Em Salvador, mais precisamente no Curuzu, no bairro da Liberdade, a exemplo do Bexiga, vai surgir na primeira metade da
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MUNANGA, op. cit. P. (44).
64
década de 70 o bloco carnavalesco Ilê Aiyê ,como elemento de articulação política e cultural nessa mudança de rumo.
Foi embalada por essa concepção de resgate das raízes culturais africanas, na busca de uma identidade afro-centrada, que a afro-descendência de Salvador, após vários anos do surgimento do “Negritude” em 1974, vai dar mais um impulso na luta pelo seu espaço e pela sua dignidade. No bojo desses acontecimentos, os blocos afros e os afoxés do bairro da Liberdade vão inserir nos seus discursos a herança do “Negritude”, a exemplo do Ilê Aiyê, quando revela a sua expectativa em relação aos jovens que integram sua comunidade: “...O objetivo da experiência é que eles se
aceitem como negros e vivam as dimensões dessa negritude consciente e prazerosamente, preparando-se para integrar-se com competência no mundo que os espera65”, buscando este resgate inspirado diretamente no continente africano. Enquanto que o Muzenza66, seguindo a trilha ao encontro de suas raízes, o faz pelo viés diaspórico da afrodescendência caribenha, privilegiando a Jamaica como seu ponto de encontro, inspirando-se nas obras artísticas de Bob Marley: “[...] o negro
segura a cabeça com a mão e chora e chora sentindo a falta do Rei67 [...]”.